Gabriella Angotti-Jones/The New York Times
Gabriella Angotti-Jones/The New York Times
Kendra Pierre-Louis, The New York Times

29 de outubro de 2018 | 06h00

ALBION, CALIFÓRNIA - Logo cedo numa cinzenta manhã de sábado, um grupo incomum - pescadores profissionais, donos de barcos recreativos e mergulhadores vestindo neoprene - se reunia para uma missão em Albion Cove, três horas de carro ao norte de San Francisco.

“Nosso alvo hoje é o ouriço roxo", disse Josh Russo, defensor da pesca recreativa e organizador do evento. “O maligno ouriço roxo.” Cinco anos atrás, atribuir alguma maldade a um crustáceo como o ouriço roxo, que tem o tamanho de uma ameixa com espinhos de 6 milímetros, pareceria algo absurdo.

Isso foi antes de os ouriços destruírem as florestas de algas do Norte da Califórnia. Sob muitos aspectos, as florestas subaquáticas - vastas extensões cobertas por algas marrons - são tão importantes para os oceanos quanto as árvores são importantes para a terra firme. 

Como as árvores, elas absorvem emissões de carbono e proporcionam um habitat e alimento para uma ampla gama de espécies. Mas, quando a mudança climática ajudou a desencadear uma multiplicação de até 60 vezes no número de ouriço roxos perto do litoral do Norte da Califórnia, esses ouriços tiveram que se alimentar, e as algas foram devoradas.

Os perigos não se limitam a essa região específica: as florestas de algas existem nas águas frias perto do litoral de todos os continentes, com exceção da Antártida. “Seria como se uma dessas lindas florestas temperadas de folhas grandes fosse transformada num deserto", disse Gretchen Hofmann, professora da Universidade da Califórnia, em Santa Barbara. “Mas num intervalo de cinco anos.”

As florestas de alga doce do Maine já passaram por declínio semelhante. E, na Tasmânia, florestas de algas sucumbiram diante de um surto de ouriços roxos. Aqui, em Albion, a população tenta evitar um destino semelhante.

Os mergulhadores foram ao trabalho, arrancando os ouriço roxos do fundo da enseada, na esperança que isso possa ajudar a alga do Norte da Califórnia a se recuperar, depois de perder 93% do seu volume. O desaparecimento da alga é a história do colapso de uma cadeia alimentar complexa que, neste processo, ameaça o sustento dos humanos. 

Entre os primeiros que soaram o alarme de infestação de ouriço roxos estavam os pescadores profissionais de ouriços vermelhos, disse Cynthia Catton, cientista ambiental do Departamento de Pesca e Vida Selvagem da Califórnia. Os ouriços vermelhos são comercialmente viáveis porque as pessoas os comem - ou, mais especificamente, suas entranhas.

Entre os apreciadores de sushi, a iguaria é conhecida como uni. Mas a crescente população de ouriços roxos sufocou os ouriços vermelhos na busca por alimento. Sem a alga, os ouriços vermelhos morreram de fome. Isso fez a pesca comercial de ouriços vermelhos do Norte da Califórnia perder boa parte do seu valor, caindo de US$ 3,6 milhões em 2013 para menos de US$ 600 mil em 2016.

O problema começou com as estrelas-do-mar. A estrela-do-mar-girassol, cujos apêndices podem chegar a cerca de um metro, costumam comer os ouriços roxos, ajudando a limitar seu número. Mas, em 2013, essa estrela do mar começou a morrer. Até hoje, não se sabe com certeza o motivo. 

Mas, mais ou menos na mesma época, uma massa de água quente foi observada a centenas de quilômetros do litoral do Alasca, Colúmbia Britânica, e os estados de Washington e Oregon. Já em 2014, essa água quente tinha se aproximado do continente, alcançando do Sudeste do Alasca até o México. Pesquisadores humanos batizaram o fenômeno de “a Bolha”, que só desapareceria em 2016.

“O aquecimento global causado pelos humanos aumentou muito a probabilidade de um evento desses se tornar algo extremo", disse Nathan Mantua, cientista físico da Agência Atmosférica e Oceânica dos EUA. Mais de 90% do calor ligado aos gases-estufa emitidos pelos humanos foram absorvidos pelos oceanos, elevando sua temperatura.

A Bolha também retardou o processo de afloramento, por meio do qual águas mais frias e nutrientes sobem das profundezas para a superfície. Isso restringiu o fornecimento de um nutriente fundamental para a alga, que também prefere águas mais frias.

Na ausência de predadores e fontes de alimento, os ouriço roxos entraram num frenesi, disse Mark Carr, ecologista de populações da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz. “Eles simplesmente formam uma linha de indivíduos enlouquecidos e avançam pelo recife, literalmente removendo toda a alga", disse ele.

Os ouriço roxos vão continuar por ali, provavelmente. “São como baratas do oceano", disse Sonke Mastrup, diretor de programas do Departamento de Pesca e Vida Selvagem da Califórnia. “São capazes de suportar condições de escassez de alimento melhor do que a maioria das criaturas.”

Na tentativa de recuperar as algas, Russo captou mais de US$ 120 mil em recursos de pesquisa e doações de mergulhadores para organizar os eventos de abate. De acordo com a Dra. Catton, o objetivo é criar oásis para as algas: espaços onde a alga possa se recuperar em paz, livre de ouriço roxos.

“Há um grupo de pessoas que acredita que pode alterar a trajetória do que estamos observando na natureza", disse o Dr. Mastrup. “Tenho esperança, mas continuo cético.”

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