Adam Dean para The New York Times
Adam Dean para The New York Times

Riscos de saúde devastadores na produção do ouro

Comércio de mercúrio da Indonésia está entrelaçado com a mineração ilegal de ouro, deixando milhares de pessoas envenenadas e com danos cerebrais

Richard C. Paddock, The New York Times

14 de novembro de 2019 | 06h00

CIDAHU, INDONÉSIA - Milhares de crianças com defeitos congênitos incapacitantes. Meio milhão de pessoas envenenadas. Um elemento químico tóxico encontrado na comida. Denúncias de uma operação do governo para abafar o caso. E policiais corruptos. Esse é o legado da indústria do mercúrio na Indonésia, uma atividade ligada intrinsicamente à produção ilegal de ouro.

Mais de cem países entraram em uma campanha global para reduzir o comércio mundial de mercúrio, um elemento tão tóxico que não há “nenhum grau seguro de exposição”, de acordo com especialistas de saúde. Mas, na Indonésia, produtores clandestinos apareceram para substituir o abastecimento que anteriormente vinha do exterior.

Agora, a Indonésia se tornou um grande exportador, enviando milhares de toneladas de mercúrio para outras regiões do mundo. Grande parte é usada para extrair ouro de minério esmagado em minas da África e da Ásia. “É uma crise de saúde pública”, afirmou Yuyun Ismawati, cofundadora da entidade de defesa ambiental Nexus3 Foundation. O mercúrio pode causar uma ampla gama de distúrbios, incluindo defeitos congênitos, problemas neurológicos e até a morte.

Atualmente, apesar dos riscos, garimpeiros que realizam extração artesanal utilizam mercúrio para trabalhar em cerca de 80 países, da Ásia, da África e das Américas. Eles produzem até 25% de todo ouro negociado hoje em dia, poluindo o ar e a comida de pessoas que vivem a milhares de quilômetros de distância. A mineração de ouro em pequena escala é a maior fonte mundial de poluição por mercúrio.

A Indonésia, quarto país mais populoso do mundo, se destaca por seu gigantesco número de garimpeiros de ouro clandestinos. Tanto quanto qualquer outra pessoa, Cece Rifa’i, um ex-mineiro cuja educação não passou do 3º ano do ensino fundamental, é um dos responsáveis pelo boom do mercúrio na Indonésia.

“Não me sinto culpado por nada”, afirmou ele, da varanda de sua casa de dois andares na Ilha de Java. Em um único dia operando o forno de fundição que mantém no quintal dos fundos de sua casa, ele conseguia produzir uma tonelada de mercúrio clandestino, o que lhe valia, segundo afirmou, mais de US$ 20 mil.

Por décadas, a Indonésia obteve a maior parte de seu mercúrio legalmente. Mas, à medida que reconheciam o mal que o elemento estava causando, os países ocidentais foram reduzindo as exportações. Desde 2013, 114 países, incluindo a Indonésia, firmaram a Convenção de Minamata envolvendo o mercúrio, um tratado que passou a valer em 2017 e exige das nações participantes que reduzam a exportação e o uso do elemento.

Ainda assim, Yuyun estima que a produção clandestina de mercúrio na Indonésia seja de pelo menos 10 mil toneladas ao ano. Cerca de um terço dessa produção é utilizada no próprio país, afirmou ela. O governo proibiu o uso do mercúrio na mineração em 2014, mas tem feito pouco para fazer valer a lei.

Em pesquisas em 24 regiões de mineração, a Nexus3 Foundation encontrou mais de 700 casos de envenenamento por mercúrio, incluindo crianças com defeitos congênitos e moradores com problemas neurológicos irreversíveis. Pelo menos 45 pessoas morreram. A entidade estima que décadas de mineração provocaram o envenenamento de 500 mil pessoas.

A pobreza é generalizada na Indonésia, e muita gente migrou para as regiões das minas de ouro, frequentemente cavando minério esmagado em terras sem permissão dos proprietários nem autorização do governo. Para extrair ouro, os garimpeiros misturam mercúrio líquido ao minério esmagado. O ouro no minério se une ao mercúrio para produzir o amálgama dos metais.

Os mineiros, então, aquecem as bolotas com um maçarico, fazendo com que o mercúrio evapore, liberando esse gás e deixando sólido somente o ouro. Em comunidades de garimpo, os níveis de gás de mercúrio podem ser perigosamente elevados. A água que resta do processo contamina com mercúrio o arroz, as frutas e os peixes, de acordo com estudos.

No ano passado, o Ministério Florestal e do Meio Ambiente da Indonésia realizou testes em sete comunidades de mineiros e encontrou 558 pessoas com níveis elevados de mercúrio no organismo. Também encontrou níveis elevados do elemento no arroz. Mas o governo ainda não emitiu nenhum alerta público, por temer que haja pânico em relação à saúde alimentar no país.

Autoridades afirmam que a população tem sido alertada para os perigos do mercúrio, mas há pouca evidência disso nas regiões de garimpo. Mineiros trabalham com mercúrio à vista de todos, sem medo de punição. O mercúrio é vendido em lojas. Cece, 64 anos, afirmou que, em 2010, começou a procurar por cinábrio, ou sulfeto vermelho de mercúrio, o minério a partir do qual o mercúrio líquido é produzido. Em sua casa, na Municipalidade de Sukabumi, ele fabricou um forno de fundição para aquecer o minério e instalações para conter o mercúrio uma vez que o elemento estivesse liquefeito.

A polícia e as autoridades de saúde visitaram o local com frequência, às vezes coletando amostras de água. A cada visita, afirmou, ele lhes dava “dinheiro de pinga”. Nunca foi encontrado nenhum problema. Pouco depois, dezenas de competidores apareceram, inundando o mercado clandestino de mercúrio barato. “Todos sabemos que ele é o pioneiro”, afirmou Alung, 35 anos, que foi aprendiz de Cece. Como muitos indonésios, ele não usa sobrenome.

A polícia apertou o cerco em Sukabumi em 2017, fechando dezenas de fornos de fundição e prendendo cerca de cem pessoas, incluindo Cece. Ele e quase todos os outros conseguiram sair da prisão prometendo que parariam de produzir mercúrio. Seja qual for o risco à saúde, os trabalhadores dos fornos de fundição ficaram decepcionados por ter de fechar o negócio. “Sabemos que isso é perigoso”, afirmou Alung. “Mas estamos tristes. É uma renda com a qual não podemos mais contar.” / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.