Pagando o preço pelos danos solares
Jane E. Brody, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2021 | 05h00

Escolha seu clichê favorito: faça o que eu digo, não faça o que eu faço; um grama de prevenção vale um quilo de cura; melhor prevenir do que remediar; um homem prevenido vale por dois.

Mea culpa. Tudo escrito acima se relaciona ao meu fracasso em seguir o conhecido conselho de saúde sobre a exposição ao sol que ofereci repetidamente aos meus leitores: Proteja sua pele rotineiramente dos efeitos cancerígenos e de envelhecimento causados pelos raios ultravioleta do sol.

Por décadas, não consegui praticar o que pregava (pode torcer o nariz) e agora estou pagando por minha negligência com manchas, inchaços e hematomas desagradáveis e pelo menos uma lesão cancerosa na minha pele danificada pelo sol. Minha ladainha de desculpas incluiu: chapéus bagunçam meu cabelo, mangas compridas e calças são muito quentes no verão e fazer exercícios com protetor solar é sufocante.

Prometendo fazer melhor a cada ano, todo verão eu compro obedientemente o último protetor solar recomendado pelos dermatologistas que, infelizmente, passa o verão fechado em uma prateleira de banheiro. Eu me comprometo a fazer melhor este ano, embora já seja tarde.

Um novo relatório de uma equipe de dermatologia nos centros de saúde Kaiser Permanente, na Califórnia, me levou a mudar. A equipe, chefiada pela pesquisadora de saúde pública Lisa Herrinton em Oakland, acompanhou quase meio milhão de pacientes atendidos nos centros por até 10 anos. Metade já havia desenvolvido uma ou mais ceratoses actínicas, uma lesão cutânea pré-cancerosa, áspera e escamosa, causada por anos de exposição ao sol sem proteção.

Como você pode esperar, essas lesões costumam se formar no rosto, orelhas, dorso das mãos, antebraços, couro cabeludo e pescoço e são - ou deveriam ser - removidas rotineiramente quando detectadas por dermatologistas para prevenir a progressão para câncer. As lesões são marcadores de danos causados pelo sol e podem servir como um sistema de alerta precoce para pessoas com risco de desenvolver câncer em algum local da pele exposta ao sol.

Embora o risco seja maior para pessoas com pele clara, olhos azuis, sardas ou cabelos ruivos, ter uma pele escura não é um passe livre. O ato de se bronzear, não apenas o de se queimar, é uma forma de dano causado pelo sol.

Entre os pacientes do estudo Kaiser Permanente com menos de 50 anos, aqueles com diagnóstico de ceratose actínica tinham quase sete vezes mais probabilidade de desenvolver um câncer de pele denominado carcinoma de células escamosas durante uma década. O risco de câncer foi oito vezes maior entre os pacientes com mais de 50 anos que tiveram uma ou mais ceratoses actínicas removidas, e quanto mais lesões esses pacientes tinham, maior a probabilidade de desenvolverem câncer de pele durante o período de acompanhamento.

Além disso, quanto mais velho o paciente, mais cedo o câncer foi diagnosticado após a ceratose actínica ter sido encontrada e presumivelmente tratada. Levou de sete a oito anos para 10% dos pacientes na faixa dos 50 anos com ceratose actínica receberem um diagnóstico de câncer de pele, mas levou apenas de três a quatro anos para os pacientes na faixa dos 70 e de um a dois anos para aqueles na faixa dos 80 anos.

Infelizmente, aqueles de nós nas décadas mais altas de vida sabiam pouco em nossos anos mais jovens sobre os riscos dos danos causados pelo sol, a não ser a necessidade de evitar uma forte queimadura. Muitos jovens como eu nadavam, caminhavam, andavam de bicicleta e praticavam esportes minimamente vestidos enquanto o sol bronzeava ou queimava nossa pele. Tomamos banho de sol com óleo de bebê em um esforço equivocado para adquirir um bronzeado melhor. E muitos de nós, inclusive eu, não conseguiram chegar à idade adulta com hábitos de proteção solar que poderiam ter evitado os danos à pele agora terrivelmente aparentes.

Dado que o risco da luz ultravioleta para a pele saudável tem sido amplamente divulgado, estou surpresa com a quantidade de pessoas que hoje frequentam salões de bronzeamento ou usam camas de bronzeamento em casa, danificando a barreira cutânea saudável que a natureza nos deu.

Felizmente, o novo estudo sugere que mais pessoas agora têm uma maior compreensão e respeito pelos efeitos do sol na pele e podem esperar um futuro mais saudável, disse a Dra. Sangeeta Marwaha, dermatologista em Sacramento, Califórnia, e co-autora do estudo. Entre as pessoas que entraram no estudo em 2018, o risco de desenvolver câncer de pele foi de dois terços do dos participantes do estudo em 2008, que foram acompanhados por igual número de anos.

“Houve um aumento nos hábitos de proteção solar e uma consequente diminuição do desenvolvimento de câncer de pele”, disse Marwaha em uma entrevista. “Os pais hoje são mais propensos a proteger seus filhos da exposição excessiva ao sol, e o uso de protetor solar é mais comum agora.”

Mas ainda há um longo caminho a percorrer. Promover um respeito saudável pela proteção solar em crianças pequenas é especialmente importante porque os especialistas estimam que 80% da exposição solar ao longo da vida de uma pessoa é adquirida antes dos 18 anos.

A exposição repetida à radiação ultravioleta do sol causa a maioria das alterações na pele - rugas, manchas de idade e pequenos vasos sanguíneos rompidos - geralmente considerados um resultado normal do envelhecimento. Sim, o envelhecimento desempenha um papel, mas esses efeitos ocorrem muito mais cedo na pele exposta ao sol. A luz ultravioleta danifica as fibras de elastina da pele, fazendo com que elas estiquem, caiam e enruguem. Ela também danifica os vasos sanguíneos superficiais, tornando-os mais frágeis e propensos a lesões.

E Zachary W. Lipsky, um engenheiro biomédico da Binghamton University, descobriu que a radiação UV enfraquece as ligações que ajudam as células da camada superior da pele a se unirem, danificando a integridade estrutural da pele e deixando-a mais vulnerável a infecções.

Mas enquanto alguns desses efeitos podem ser mascarados por tratamentos cosméticos e cirurgia plástica, o dano mais sério causado pela radiação UV - ao DNA das células da pele - é permanente e irreversível e pode resultar em mutações causadoras de câncer.

Além disso, prevenir os danos causados pelo sol é mais fácil e barato do que revertê-los e há menos probabilidade de resultar em rugas e cicatrizes prematuras. Tente programar suas atividades ao ar livre no início ou no final do dia, evitando os horários de pico do sol, das 10h às 16h.

Rotineiramente, aplique um filtro solar de amplo espectro com FPS 30 ou mais na pele exposta todos os dias, mesmo em dias nublados, usando pelo menos um quarto de colher de chá somente no rosto. Aplique protetor solar meia hora antes de sair e reaplique a cada duas horas e após estar na água. Os filtros solares modernos não são gordurosos nem pastosos, mas perdem eficácia com o tempo, portanto, verifique a data de validade. Mesmo se você se sentar sob um guarda-sol na praia ou no parque, os raios do sol refletidos atingirão sua pele.

Use um chapéu com aba larga, isso é especialmente importante para os homens que estão ficando calvos. Se você tem condições, invista em óculos de sol e roupas de primeira qualidade, inclusive roupas de banho com proteção FPS embutida. Quanto mais escuro e pesado o tecido, melhor. “Uma camiseta branca lisa tem FPS 4, enquanto os jeans azul escuro podem ter FPS 2000”, disse Marwaha.

Neste verão, pretendo aplicar protetor solar diariamente e usar uma camisa de mangas compridas com proteção solar quando caminhar, andar de bicicleta e fizer jardinagem, mesmo em dias nublados, um hábito que gostaria de ter cultivado décadas atrás. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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