Daniele Volpe para The New York Times
Daniele Volpe para The New York Times

Pais deportados continuam esperando regresso de filhos mantidos nos EUA

Em mais de 500 casos, crianças continuam separadas dos pais

Kirk Semple e Miriam Jordan, The New York Times

09 Setembro 2018 | 10h15

SAN PEDRO SOLOMA, Guatemala - Pablo Domingo não está dormindo muito ultimamente. Ele mal se alimenta e não consegue concentrar-se no trabalho.

Seus pensamentos estão, dia e noite, voltados para seu filho, Byron, de oito anos, que não vê desde maio. Foi quando Domingo e o menino entraram nos Estados Unidos ilegalmente, procedentes do México. 

As autoridades da imigração prenderam e então separaram os dois - deportaram o pai para o seu país de origem, a Guatemala, e enviaram a criança para um abrigo no Texas.

Domingo, a esposa Fabiana e a filha de 12 anos querem que Byron volte para casa. Byron também quer voltar para casa. Entretanto, no final de agosto, o menino começava o quarto mês longe dos pais e da irmã, sem a perspectiva de qualquer solução do seu caso.

“Meu filho é pequeno. Está muito triste”, falou Domingo na casinha simples da família, nas montanhas do oeste da Guatemala.

“Aqui a gente se abraça”, prosseguiu, indicando a esposa e a filha. “Mas meu filho está lá sozinho. Quem vai abraçá-lo?”

A maioria das cerca de três mil famílias que foram separadas na fronteira, de acordo com o programa “tolerância zero” do presidente Donald J. Trump, que visava impedir a imigração ilegal, já puderam reunir-se graças a uma sentença dos tribunais.

Mas em mais de 500 casos, as crianças continuam separadas dos pais, inclusive 22 com menos de cinco anos. O seu destino está em grande parte nas mãos de organizações não governamentais que aproveitaram da brecha deixada pelo governo para o árduo trabalho de encontrar e reunir as famílias.

Mais de 300 destes casos, como o de Byron, dizem respeito a crianças cujos pais foram deportados sem elas. A maioria destas famílias é originária da Guatemala, em segundo lugar de Honduras, e depois um número menor de El Salvador e vários outros países.

Mas muitos pais que foram deportados sem os filhos, como Domingo, constataram que, em vez de acelerar o processo, deixar os Estados Unidos só contribuiu para retardar a reunião. Frequentemente, eles não entendem o complexo processo em que os seus filhos estão envolvidos, ou sequer sabem quando poderão revê-los - a incerteza é a causa de uma enorme angústia.

“É um sofrimento muito grande”, disse Domingo. “Por quanto tempo ainda o governo quer que a gente sofra? É demais”.

As autoridades americanas não quiseram comentar casos individuais a respeito de menores.

Em agosto, por ordem do juiz Dana M. Sabraw, do Tribunal Distrital da Carolina do Sul, o governo apresentou uma estratégia para a reunificação das crianças com os pais que foram deportados. Os detalhes do plano foram elaborados em conferência com a União Americana das Liberdades Civis, que entrou com um processo contra o governo sobre a política de separação das famílias.

O governo designou funcionários de vários departamentos para organizar seus esforços e em coordenação com as autoridades consulares da América Central nos Estados Unidos prepara os documentos para as crianças poderem viajar. O governo assumiu também a responsabilidade financeira da repatriação destas crianças.

Mas a localização dos pais nos respectivos países de origem e a identificação de filhos no emaranhado burocrático está sendo difícil. O encargo foi atribuído a uma coalização de grupos de defesa americanos.

Representantes destes grupos tentaram chamar os pais para explicar o sistema legal e colocá-los em contato com advogados nos Estados Unidos. Mas muitos deles pertencem a grupos indígenas, não falam espanhol como primeira língua e vivem em áreas rurais muito pobres da América Central, com serviços telefônicos pouco confiáveis.

Não há um número de telefone que funcione ou de contato para atender a 56 pais. A fim de encontrá-los, os grupos enviaram equipes para a Guatemala, Honduras e outros países, às vezes até aldeias remotas, onde precisam bater de porta em porta munidos de escassas indicações.

Em consultas com estas pessoas, alguns pais querem que os filhos sejam mandados de volta o mais rapidamente possível. Outros preferem que seus filhos permaneçam nos Estados Unidos para encaminharem pedidos de asilo.

Alguns pais que acham que foram privados do direito de fazer um pedido de asilo esperam ter a possibilidade de retornar aos EUA, para fazer outra tentativa, mas o  governo Trump indicou que se oporá firmemente a isto.

Segundo funcionários do governo e porta-vozes das famílias preveem que os trâmites burocráticos, por exemplo, para conseguir os documentos para a viagem, poderão atrasar a volta de uma criança por mais de um mês. E às vezes, os assistentes sociais dos abrigos não têm condições de completar a papelada necessária para acelerar a devolução.

Segundo o plano do governo apresentado em agosto, as crianças agora deverão receber a permissão para deixar o país sem se apresentarem a um juiz o que poderá acelerar o processo.

Muitas famílias afirmam que fugiram da violência da sua pátria, mas não foi este o caso de Domingo e de seu filho Byron. Sua motivação foi econômica.

“Fomos para lá para dar às nossas crianças um futuro melhor”, disse Domingo, que trabalha na construção civil como ajudante de pedreiro, e ganha alguns dólares por dia.

Domingo e Byron partiram de casa em maio e, com a ajuda de um contrabandista, cruzaram a fronteira com os EUA uma semana mais tarde. Ali, se apresentaram imediatamente à polícia de fronteira.

Domingo tinha conhecimento de que, há anos, os adultos que viajam com crianças em geral são presos e são colocados em processo de deportação, mas em seguida são soltos para esperar a convocação pelos tribunais dos Estados Unidos. Ocorre que esta prática mudou com a política de tolerância zero, que entrou em vigor poucos dias antes de sua chegada, e pai e filho foram separados.

Enquanto esteve preso, Domingo contou que foi obrigado a assinar alguns documentos. Como eram em inglês, ele não sabe o que continham.

“Eles me disseram que os papéis fariam com que o menino voltasse instantaneamente para os meus braços”, lembra. “Eles me enganaram”.

Agora, ele acha que com aquela assinatura, ele concordou em ser deportado. Domingo foi enviado de volta para o seu país no dia 1º de junho.

Em julho, Byron comemorou o seu oitavo aniversário na prisão. O único contato da criança com a família são breves telefonemas por vídeo três vezes por semana, por meio da assistente social do menino no Texas.

Durante os chamados, Domingo e a esposa têm dificuldade para falar com Byron por causa da emoção, contaram. Ele dá respostas truncadas às suas perguntas, e parece constantemente olhar para fora do campo da câmera, como se estivesse de olho em alguém que controla as suas conversações. 

Recentemente, ele disse que o lugar onde ele está é “perigoso”, mas não deu detalhes.

Estas conversas preocupam os pais que estão desesperados e impotentes. Eles ouviram falar de crianças que sofreram maus tratos em um abrigo nos EUA e imaginam o pior.

“São crianças inocentes, e o presidente está punindo elas demais”, disse Domingo referindo-se a Trump. “Ele já fez muito mal”.

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