Ilustração de The New York Times
Ilustração de The New York Times

Pais superprotetores podem prejudicar desenvolvimento dos filhos

Especialistas criticam abordagem de famílias que não preparam filhos para fase adulta

Claire Cain Miller e Jonah Engel Bromwich, The New York Times

24 de março de 2019 | 06h00

O filho mais velho de Nicole Eisenberg queria ser um astro desde a época em que aprendeu a andar, disse a mãe. Fez aulas de canto, dança e teatro e participou de um renomado curso de verão de atuação por seis anos, mas ela temia que tudo isso fosse insuficiente para garantir que ele fosse aceito nos melhores cursos de teatro.

Assim, Nicole e outros moradores de Bloomfield Hills, Michigan, um rico subúrbio de Detroit, ajudaram-no a fundar uma instituição de caridade com amigos que arrecadou mais de US$ 250 mil ao longo de quatro anos. “Nós, as quatro ou cinco mães que fundaram juntas a instituição, ajudamos no começo e na administração, mas não fizemos nada por eles", lembrou Nicole, 49 anos. “Sim, nós pedimos patrocínios em nome deles. Sim, nós pedimos dinheiro em seu nome. Mas foram eles que fizeram o trabalho.”

Ela pensou até em doar a quantia para a universidade que ele escolhesse. “Nenhuma quantia poderia garantir a matrícula dele. Sei disso porque meu sogro chegou a perguntar.” O filho foi aceito em duas das melhores faculdades de artes cênicas dos Estados Unidos, disse ela, e também em nove das outras 26 faculdades para as quais fez processo seletivo. A universidade é uma meta desde a época em que o filho usava fraldas. “Trabalhamos nisso desde quando ele tinha três anos", disse ela, acrescentando. “Não fui uma mãe superprotetora. Atuei mais como uma copilota".

Mãe-escavadeira?

Os pais superprotetores, criaturas ansiosas que não saem do lado dos filhos, acompanhando cada passo seu, são conhecidos há décadas. Alguns pais e mães mais ricos agem hoje como escavadeiras: máquinas que avançam tirando do caminho todos os obstáculos ao sucesso dos filhos, para que estes nunca tenham que se deparar com o fracasso. Levado ao seu limite criminoso, isso significa subornar os responsáveis pelo processo seletivo das universidades de elite para garantir que seus filhos sejam aceitos.

Alegações como essa fazem parte do recente escândalo de suborno universitário nos Estados Unidos, no qual 50 pessoas foram acusadas de uma série de práticas fraudulentas para garantir vagas universitárias a determinados estudantes. De acordo com a investigação, um pai mentiu a respeito das capacidades do filho no polo aquático, mas em seguida temeu que o filho fosse visto pelos colegas como "um coadjuvante, parte da paisagem" (foi garantido que o filho não teria que participar do time).

De acordo com as acusações, outra mãe pagou alguém para fazer as provas no lugar do filho - e ainda fingiu ministrar a prova real para o filho em casa, para que ele pensasse ter entrado na universidade por mérito próprio. Os pais acusados nessa investigação estão longe de serem a regra. Mas seu comportamento é um caso extremo de pais-escavadeiras: abrindo o caminho para que os filhos cheguem à universidade, e ao mesmo tempo protegendo-os de toda a dificuldade envolvida no processo.

O escândalo de suborno “apenas sublinhou um lado bastante sombrio daquilo que se tornou a norma: a ideia de garantir que os filhos tenham o melhor, conheçam tudo de bom, desfrutem de todas as vantagens - sem compreender o quanto isso pode ser prejudicial para a sua formação", disse a psicóloga Madeline Levine, autora de Teach Your Children Well: Why Values and Coping Skills Matter More Than Grades, Trophies or ‘Fat Envelopes (Ensine bem seus filhos: por que valores e a capacidade de enfrentar desafios são mais importantes que notas, troféus e dinheiro).

“Eles tiraram tudo que havia no caminho dos seus filhos", disse ela. Levine disse que recebe com frequência em seu consultório jovens no primeiro ano da universidade que abandonaram cursos de ponta e voltaram para casa “porque não aprenderam habilidades mínimas que um adulto precisa para a faculdade". Um deles voltou para casa porque havia um rato no quarto do alojamento. Alguns não gostaram dos colegas de quarto. Outros disseram que a rotina era muito trabalhosa. Um deles não gostou do tempero da comida.

Temores do mundo real

Eles entram em pânico, disse Julie Lythcott-Haims, ex-diretora da associação de alunos do primeiro ano da Universidade Stanford, na Califórnia, e autora de How to Raise an Adult: Break Free of the Overparenting Trap and Prepare Your Kid for Success (Como criar adultos: liberte-se da armadilha da superprotação e prepare seus filhos para o sucesso). De acordo com ela, a raiz do problema está nos pais, que nunca permitem que os filhos cometam erros.

Os pais-escavadeiras inverteram as coisas, disse Julie. “A ideia é preparar os filhos para seguir caminho, e não preparar o caminho para os filhos”. A ideia de pais superprotetores começou a ser mais comentada nos anos 1980, e seria um resultado do medo pela segurança dos filhos - a possibilidade de caírem de um brinquedo no parque ou serem sequestrados. Nos anos 1990, vimos os pais em regime intensivo, que não apenas monitoravam os filhos, mas passavam o tempo todo ensinando-os.

O destino final dessa trajetória costuma ser a entrada na universidade. Para os pais, é doloroso observar a frustração dos filhos, ou situações em que eles não alcançam seus objetivos (dos filhos ou dos pais). Mas, agora, há muito mais em jogo. “Cada vez mais, parece que qualquer tipo de erro pode ser fatal para o resultado tão exigente almejado", disse o sociólogo Philip Cohen, da Universidade de Maryland. O problema é que, para os pais-escavadeiras, esse vício de comportamento é difícil de superar.

“Quem faz isso na escola não consegue parar na universidade", disse Julie. “Quem faz na universidade não para quando chega o ambiente de trabalho. A coisa só piora, pois temos um jovem adulto incapacitado para lidar com as tarefas mais elementares da vida". Isso não vale apenas para os ricos. Pesquisas recentes indicam que pais de todas as classes e raças adotaram a ideia do regime intensivo, independentemente da sua capacidade de arcar com esse custo.

Em um estudo recente, independentemente da sua raça, renda ou escolaridade, as pessoas disseram que os filhos devem participar de atividades extra-escolares para que não se sintam entediados. Se os filhos não gostassem da escola, eles acreditam que os pais devem pedir aos professores que indiquem à criança atividades diferentes. Ainda assim, os exemplos mais autênticos de pais-escavadeiras estão entre os ricos, que dispõem do dinheiro, das boas relações e do know-how necessários para estarem sempre dois passos à frente dos filhos.

Aprender a resolver problemas, assumir riscos e superar a frustração são habilidades essenciais para a vida, de acordo com muitos especialistas, e se os pais não permitirem que seus filhos enfrentem o fracasso, as crianças não desenvolverão essas habilidades. Quando uma criança de três anos derruba e quebra um prato, ela provavelmente tomará cuidado para não o quebrar na próxima. Quando um jovem de 20 anos perde uma prova porque estava dormindo, ele dificilmente esquecerá de configurar o alarme de novo.

Cathy Tran, 22 anos, estudante do último ano da Universidade da Pensilvânia, extremamente seletiva, é filha de imigrantes vietnamitas que não fizeram faculdade. “Eles me oferecem muito apoio emocional, mas não sabem me dizer o que eu deveria fazer, quais são os próximos passos”, disse ela. “Na verdade, acredito que tenho mais independência e confiança do que outros colegas, cujos pais frequentaram a universidade. Tive amigos que não sabiam nem mesmo lavar a roupa. Acho que, de certa forma, tive que me tornar adulta muito antes".

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