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Países ameaçados por Trump desafiam advertências americanas

Trump criticou postura de Obama com Coreia do Norte, Irã e Venezuela, mas sofre pressão desses países

David E. Sanger e Edward Wong, The New York Times

18 de maio de 2019 | 06h00

WASHINGTON - Três nações que há muito tempo se definem como adversárias ferrenhas dos Estados Unidos - Coreia do Norte, Irã e Venezuela - decidiram recentemente afrontar o presidente Donald Trump. Cada uma delas aposta que Trump não é um negociador experiente nem está disposto a usar a força militar como afirma. Cada uma delas coloca um desafio diferente a um presidente que  tem pouca experiência no trato de crises internacionais.

O confronto com o Irã parece o mais volátil. O Departamento da Defesa americano enviou ao Oriente Médio mais um navio e uma bateria para a interceptação de mísseis, além de porta-aviões e bombardeiros, prevendo possíveis ameaças do Irã ou das milícias árabes aliadas.

O impasse vinha se preparando desde que, há um ano, Trump decidiu retirar-se do acordo nuclear com o Irã. Teerã anunciou uma retirada parcial no início deste mês, ameaçando retomar a produção de combustível nuclear, a não ser que a Europa consiga a redução das sanções americanas que devastaram a receita petrolífera do Irã.

Quando as autoridades da Coreia do Norte concluíram que não estavam obtendo o que queriam de Trump depois de duas reuniões de cúpula, começaram a testar mísseis balísticos de curto alcance. Os dois testes aparentemente assinalaram que se o presidente não voltar à mesa de negociações, a sua diplomacia pessoal com Kim Jong-un, o líder norte-coreano, poderá retomar as antigas hostilidades.

E na Venezuela, o presidente Nicolás Maduro permanece no poder, apesar dos esforços americanos para atrair oficiais militares para a oposição. Trump se enfureceu porque as estratégias traçadas por seu assessor de segurança nacional, John R. Bolton, e o seu secretário de Estado, Mike Pompeo, não conseguiram derrubar o líder venezuelano, afirmam assessores.

Os problemas de Trump com os três países revelam um padrão comum: a adoção de uma posição agressiva extrema, sem dispor de um planejamento claro para levá-la adiante. Como a sua política em relação à Coreia do Norte, ao Irã e à Venezuela não produziu os resultados que queria, Trump poderá acabar responsabilizando Bolton e Pompeo - ambos falcões que defendem posições agressivas.

Bolton e Pompeo pressionaram Trump em abril para que designasse uma divisão do exército iraniano como grupo terrorista, o que constituiria a primeira tentativa dos Estados Unidos de agirem contra uma instituição de outro governo. Funcionários da Defesa e da inteligência alertaram que o Irã poderia recorrer à retaliação.

As suas preocupações concretizaram-se. Militares e funcionários da inteligência afirmaram que o Irã ou as suas milícias poderiam estar planejando atos de violência contra tropas americanas na região. E o fato de ter rasgado um acordo de contenção de armas nucleares alcançado após anos de negociações poderá despertar as ambições do Irã neste campo, desafiando as advertências americanas de que Teerã não deveria violar o acordo, mas simplesmente abandoná-lo, embora Washington tenha feito exatamente isto.

“Vejo esta medida como uma ruptura sem qualquer plano para substitui-la”, afirmou Dalia Dassa Kaye, diretora do Centro para a Política do Oriente Médio do grupo de pesquisa RAND Corporation. “Perdemos a influência que podíamos exercer permanecendo no acordo e negociando condições mais rigorosas com os aliados europeus do nosso lado”.

A Coreia do Norte também se esforçou por negociar com Trump. Mas Kim tem uma grande vantagem: a Coreia do Norte nunca precisou concordar em congelar a sua produção nuclear e de mísseis antes de entrar em conversações. O que significa que Kim aumentou o seu arsenal, tornando mais difícil para Trump concretizar o seu objetivo de eliminar as armas nucleares da Coreia do Norte.

Agora que a afinidade entre Trump e Kim parece ter chegado ao limite, cada um deles espera que o outro fique nervoso e faça uma concessão. “Washington e Pyongyang acham que a bola está no campo do adversário”, disse Joseph Yun, ex-representante especial para a Coreia do Norte. “Não acredito que vá ocorrer algum movimento a curto prazo”.

A pressão para a mudança de regime na Venezuela enfrenta igualmente ventos contrários. Embora funcionários americanos apoiassem o líder da oposição, Juan Guaidó, quando este tentou dar início a um levante no dia 30 de abril, Maduro conseguiu o apoio da liderança militar para manter o poder.

Restam poucas opções aos Estados Unidos para forçar uma mudança nesse país. O vice-presidente Mike Pence anunciou  que o governo estuda a redução de sanções para funcionários venezuelanos que rejeitam Maduro. Mas isto não produziu defecções notáveis até agora. Ao contrário, Maduro e os seus partidários continuam gritando um slogan que indubitavelmente pode ser traduzido em persa e coreano: “Yankee, go home”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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