Arte|Estadão
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Países manobram para obter vantagem no blockchain

Preocupações de segurança acompanham definição de parâmetros internacionais

Nathaniel Popper, The New York Times

11 Maio 2018 | 15h00

No ano passado, representantes de 25 países se reuniram em Tóquio para trabalhar na definição de parâmetros internacionais para o blockchain, a tecnologia apresentada pela moeda virtual Bitcoin que despertou muito interesse nos círculos corporativos e governamentais.

Alguns dos tecnólogos na reunião da Organização Internacional de Normalização (ISO) ficaram surpresos ao saber que o líder da delegação russa, Grigory Marshalko, trabalhava para o FSB, agência de espionagem que sucedeu a KGB.

Ficaram ainda mais surpresos quando perguntaram ao agente do FSB por que os russos estavam dedicando tantos recursos à padronização do blockchain.

“A internet pode pertencer aos americanos, mas o blockchain pertencerá a nós", disse ele, de acordo com um delegado presente. O russo acrescentou que dois outros membros do quarteto que representa o país também trabalham para o FSB.

O delegado fez essas revelações sob condição de anonimato, pois as negociações da ISO devem ser confidenciais. A organização russa que supervisiona a delegação não respondeu às solicitações da reportagem, assim como os delegados russos.

O sentimento do delegado russo reflete a importância que alguns governos atribuem ao blockchain, tecnologia que encontra aplicações tão variadas quando transações financeiras e votações, e as batalhas geopolíticas que se formam em torno dela.

O interesse russo nas sessões técnicas trouxe preocupação às demais delegações, temendo que países individuais pressionassem por padrões que deixariam a tecnologia vulnerável à vigilância e ao ataque. A ISO, com sede em Genebra, foi criada em 1947 para garantir que tecnologias importantes sejam construídas ou medidas da mesma maneira em todo o mundo.

A Rússia não é o único país a enviar delegações à comissão técnica da ISO voltada para o blockchain. Os 25 países com delegações na comissão enviaram mais de 130 pessoas à reunião mais recente.

“Quem apoiar a tecnologia e ditar os termos dela agora poderá se colocar em vantagem, seja política ou econômica", disse Gilbert Verdian, diretor da delegação britânica e fundador da empresa Quant Network.

O blockchain original é o banco de dados no qual as transações do Bitcoin são registradas. Ele é mantido por uma rede de computadores com múltiplos administradores, e não por uma autoridade central. Em países como Estados Unidos, China, Rússia, Cingapura e Suíça, grupos do governo comentaram a possibilidade de uso do blockchain para tarefas como emissão de moeda e acompanhamento de registros de identidade.

A advogada Emma Channing se disse preocupada com a possibilidade de países pressionarem pela adoção do algoritmo de criptografia de sua preferência como padrão, potencialmente criando portas dos fundos que poderiam ser usadas para espionar a atividade do blockchain. “No contexto do software, trata-se do cavalo de Tróia perfeito", disse Emma, fundadora do Satis Group, que presta consultoria para projetos com blockchain. “Se houver algo escondido ali, essa tecnologia será adotada em larga escala, e ninguém vai questionar os detalhes.”

Mas o presidente da comissão da ISO para o blockchain, Craig Dunn, rejeitou a ideia de que qualquer país poderia definir os rumos do processo. Embora os procedimentos da ISO sejam geralmente confidenciais, os novos padrões precisam passar por muitas etapas, com várias rodadas de votações.

Ainda assim, muitas delegações disputavam ombro a ombro a chance de obter uma vantagem.

“Na tentativa de aproveitar o poder dessa tecnologia, há quem tente explorá-la para ganho próprio", disse Verdian. “Temos que garantir que essa tecnologia seja uma ferramenta que beneficie a todos, e não a um grupo restrito.”

Oleg Matsnev contribuiu com a reportagem.

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