Mohammed Salem/Reuters
Mohammed Salem/Reuters

Palestinos e israelenses se unem para solucionar problemas de infraestrutura em Gaza

Parcerias visam melhorar condições de vida na região

David M. Halbfinger, The New York Times

23 de novembro de 2018 | 06h00

JERUSALÉM - No ano passado, quando o governo Trump ainda tentava atrair os palestinos para negociações de paz com Israel por meio da cooperação, isso incentivou ambos os lados a formar parcerias em projetos de infraestrutura de pequena escala como forma de reconstruir a confiança e melhorar as condições de vida.

Nas profundezas do Deserto de Neguev, um grupo de civis israelenses e palestinos fez exatamente isso. Eles pensaram em formas criativas de trazer energia solar, saneamento e água limpa para a empobrecida Faixa de Gaza, onde as luzes passam mais tempo apagadas do que acesas, os aquíferos foram contaminados, e o esgoto sem tratamento é despejado no Mediterrâneo - às vezes sobrecarregando de poluição uma instalação israelense de dessalinização nas proximidades.

Seus planos tinham como objetivo gerar empregos, melhorar a saúde pública e, acima de tudo, trazer esperança a um lugar onde ela é escassa. Mas, no tempo necessário para providenciar o material de construção - planos de negócios, escolha de sítios, aprovação do exército israelense, e a contratação de mão de obra em Gaza -, o contexto político mudou radicalmente.

O governo Trump reconheceu Jerusalém como capital de Israel. Palestinos furiosos começaram a denunciar rotineiramente a Casa Branca. Seguiu-se uma série de jogadas diplomáticas punitivas por parte dos americanos, incluindo cortes de centenas de milhões de dólares em auxílio. Entre as baixas: 10 milhões de dólares em recursos para startups com os quais a parceria israelo-palestina contava para a implementação do seu pacote de pequenas iniciativas para Gaza.

Confrontos entre Israel e Gaza, nos meses de protestos e em repetidas saraivadas de foguetes e ataques aéreos como visto no início do mês, só fizeram aumentar os obstáculos.

Agora, um tênue cessar-fogo é anunciado por Israel e Hamas, o grupo militante que controla Gaza. E as pessoas por trás de iniciativas ambientais e de energia de pequena escala tentam encontrar uma fonte alternativa de capital na esperança que o mais recente flerte com a guerra convença os países interessados em investir a agir rápido.

“Estamos prontos, e nossas propostas estão prontas. O que falta são as doações”, disse Ashraf al-Ajrami, ex-ministro palestino de assuntos ligados a prisioneiros e um dos parceiros-chave dos projetos de Gaza.

Diplomatas, acadêmicos e ecoempreendedores se reuniram este mês no Instituto Arava de Estudos Ambientais, com sede no pequeno kibbutz Ketura no deserto de Neguev, e disseram querer seus projetos prontos para começar assim que chegar o momento.

É verdade que propostas de infraestrutura para Gaza são comuns: em fevereiro, Israel apelou a doadores internacionais para financiar um plano de reconstrução de bilhões de dólares, incluindo projetos de grande porte como duas usinas de dessalinização, um duto de gás natural e uma nova linha de transmissão elétrica ligando Israel a Gaza.

Mas os projetos maiores podem levar anos para serem concluídos, enquanto os problemas locais precisam de solução para ontem.

Para as autoridades, o diferencial dos projetos do grupo Arava está no fato de poderem começar imediatamente, com resultados em poucos meses, e a maior parte do financiamento é privada.

Outro risco dos projetos de infraestrutura mais ambiciosos é o fato de que, depois de completados, podem se tornar alvo de ataques aéreos israelenses em períodos de guerra. Assim, a estratégia do grupo Arava é manter o foco em projetos menores e espalhados.

Um dos projetos prevê a instalação de painéis solares de 40 kilowatts nos telhados de 100 escolas e hospitais de Gaza. Isso garantiria o fornecimento de eletricidade, muito necessária.

Outro projeto instalaria uma pequena usina de tratamento de esgoto movida a energia solar com capacidade para atender cerca de cinco mil lares perto da cidade de Khan Younis, sul de Gaza.

Outros projetos falam na instalação de painéis solares no teto das casas de famílias pobres ou campos de painéis solares maiores para alimentar usinas de tratamento de esgoto, reduzindo sua dependência em relação à rede elétrica de Gaza, pouco confiável.

Se forem bem sucedidos, esses planos podem ser reproduzidos em número suficiente para beneficiar muitos dos cerca de dois milhões de habitantes de Gaza, dizem seus defensores.

Mais conteúdo sobre:
Israel [Ásia]Palestina [Ásia]

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.