(Andy Haslam/The New York Times)
(Andy Haslam/The New York Times)

Palio de Siena: a corrida de cavalos que não se parece com nenhuma outra no mundo

O jogo sujo é a regra neste espetáculo medieval

Dwight Garner, The New York Times

01 Junho 2018 | 15h45

Quando o escritor Hunter S. Thmpson levou o artista inglês Ralph Steadman para assistir ao Kentucky Derby, em 1970, tentou prepará-lo para o caos que iriam encontrar. “Faça de conta de que você está visitando um enorme manicômio ao ar livre”, disse Thompson. E acrescentou, porque estava sempre precavido. “Se os internos perderem o controle, vamos encharcá-los de Mace”.

“Um enorme manicômio ao ar livre” não é a descrição mais precisa do Palio de Siena. Esta ruidosa corrida de cavalos sem sela, completamente descontrolada, em estilo medieval, se realiza duas vezes no verão perante dezenas de milhares de espectadores em um trecho de saibro superlotado, preparado especialmente no coração da cidade de Siena, na Toscana. Mas serve perfeitamente.

Nesta corrida, os cavaleiros - que correm representando as várias ‘contrade’, os bairros antigos - sentem-se livres para se subornarem reciprocamente, abertamente, antes do início da competição. A traição é comum. A esperteza é prezada. Não há regras, com a exceção de uma: um ginete não pode interferir nas rédeas de outro cavalo.

Os cavaleiros chicoteiam os próprios cavalos, se chicoteiam uns aos outros, e os chicotes são feitos com pênis esticados de touros. Se um ginete for derrubado da montaria, o seu cavalo sem cavaleiro ainda pode ganhar.

Mas se terminar em segundo lugar, será mais desprezado do que o que chegar por último. Depois da corrida, os vencedores comemoram chupando chupetas ou tomando vinho barato de mamadeiras para simbolizar o renascimento. Siena se parece então com uma creche com muitos dos bebês de pernas peludas.

Alguns anos atrás, quando a Contrada Pantera foi derrotada pelo seu inimigo, a Contrada dell’Aquila (da Águia), um alto-falante no campanário da igreja da Águia tocou um mote zombando da Panthera 24 horas por dia durante mais de um mês.

Eu sei de tudo isto porque minha amiga inglesa, Valentina Rice, assiste ao Palio todo verão, desde que era criança. Também conheço um pouco da corrida, porque assisti ao fascinante documentário extremamente recomendado, “Palio”, de 2015, de autoria de Cosima Spender.

Em agosto do ano passado, finalmente testemunhei este espetáculo, a maior corrida de cavalos do mundo, na minha opinião. Na família de Valentina, a tradição é ficar no centro da "piazza", no meio da disputa, em um calor asfixiante. Uma mulher desmaiou. Grupos de homens irromperam em baladas desbocadas para honrar as suas “contrade”. Muitas mulheres assistem ao Palio e participam de vários aspectos, entretanto, o espetáculo é especificamente masculino, másculo mesmo. Entretanto, a cena é em geral pacífica e alegre.

Começou então o desfile extremamente coreografado de duas horas de duração, o Corteo Storico. Mais de 600 pessoas em trajes de época percorreram a piazza. Havia pessoas extremamente hábeis lançando bandeiras no ar, tocadores de tambor em roupas militares de aspecto severo, carros puxados por bois e carros alegóricos à maneira antiga.

A corrida, que se realiza tradicionalmente nos dias 2 de julho e 16 de agosto, data do século 13, e muito provavelmente começou como um treinamento militar romano. Inicialmente, os homens montavam em búfalos e depois em asnos. O termo palio significa ‘bandeira’ em italiano, e é o prêmio que a “contrada” vencedora recebe. Esta bandeira tem a imagem da Virgem Maria, em cuja homenagem se realizam as corridas.

Há 17 “contrade” rivais em Siena. Elas se identificam com nomes de animais: caracol, porco espinho, lobas. Cada “contrada” tem seu próprio museu, igreja e praça pública, as próprias tradições e a bandeira que a distingue. As “contrade” pagam regiamente os cavaleiros que irão representá-las, entretanto, eles são mercenários e fundamentalmente infiéis. Cada um deles é um agente duplo em potencial.

No final da corrida, apareceram as chupetas e as mamadeiras. Os ganhadores choraram. Começaram então as comilanças ao redor de mesas enormes nas ruas. Comemos pizza Margherita, uma das tradições da noite do Palio da Valentina, em uma mesa ao ar livre na piazza. Sentamos, recuperamos o fôlego e bebemos revigorante cerveja. Para que mais serviriam as férias? A pizza estava deliciosa - mas não posso deixar de lembrar que agosto é também a época em que se encontram grandes quantidades de trufas baratas em Siena. E que generosas camadas delas escondem pratos deliciosos.

Ouvi dizer que os cachorros especializados em encontrar trufas podem ser alugados por uma tarde em Siena. Perguntei ao gerente do hotel qual seria o preço, ele respondeu que custava 600 euros. Eu disse: “É muito dinheiro”. E ele retrucou: “Sabe quanto vale um cachorro especialista em achar trufas?”

Gostaria de ser internada em um manicômio como este.

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