Brittainy Newman/The New York Times
Brittainy Newman/The New York Times

Está faltando kettlebell em Nova York: 'As pessoas estão pirando'

A pandemia de coronavírus fechou academias e obrigou as pessoas a treinarem em casa, o que aumentou a demanda por equipamentos próprios

Aaron Randle, The New York Times - Life/Style

25 de julho de 2020 | 05h00

Em Syracuse, Nova York, as vendas de uma loja de equipamentos para exercícios físicos dispararam mais de 600% em poucos dias. Em varejistas online como eBay, Amazon e Walmart, alguns equipamentos, quando não estão numa lista de espera de três semanas, vêm sendo vendidos com aumentos de até 150%. No Brooklyn, um homem conseguiu comprar kettlebells - duas vezes. Mas, em ambas as entregas, alguém roubou o pacote antes que pudesse chegar.

Quando o coronavírus forçou os americanos a ficar em casa - longe dos escritórios, dos supermercados e do transporte público - as academias passaram por uma mudança radical.

De repente, os entusiastas da vida fitness se viram obrigados a reimaginar não apenas onde eles poderiam se exercitar, mas como. As pessoas compraram bancos, faixas de resistência, halteres e kettlebells. Em Nova York, a demanda provocou uma escassez de equipamentos de ginástica em toda a cidade.

“As pessoas estão meio que pirando”, disse Jahkeen Washington, proprietária da JTW Fit, uma academia de ginástica de luxo no centro do Harlem. “Elas acham que todo o trabalho árduo que vêm fazendo há anos corre o risco de ser desperdiçado”.

Washington, 35 anos, e Thomas Boatswain, 36, abriram a JTW Fit no verão passado e tinham cerca de 300 clientes regulares quando o coronavírus forçou o fechamento de Nova York no início de março.

Depois que se instalou a quarentena, os dois começaram a realizar sessões de treino virtual. Mas os clientes precisariam ter seus próprios equipamentos básicos.

O problema? Era praticamente impossível encontrar equipamentos básicos.

“Eu não esperava por isso”, disse Meron Tamrat, 32 anos, moradora do Harlem e cliente da JTW Fit. Ela comprou um haltere e um kettlebell logo no início da quarentena, em março. Mas, algumas semanas depois, quando precisou de mais pesos, encontrou um beco sem saída. “Acabou tudo”, disse ela.

Tamrat não estava sozinha.

Um estudo de abril sobre os interesses dos consumidores do Yelp, um site de pesquisas e recomendações, descobriu que a procura por equipamentos de ginástica aumentou 500% nos Estados Unidos desde março.

Em março, um estudo sobre as tendências de comércio eletrônico da Stackline, uma empresa de análise, descobriu que “treinamento com pesos” é a oitava categoria que mais cresce - à frente de leite, papel-toalha, desinfetante para as mãos e papel higiênico.

O aumento imprevisto da demanda causou dores de cabeça em todos os ramos do ecossistema fitness, dos fabricantes e varejistas de equipamentos até os profissionais de educação física e frequentadores de academias.

E, ainda que não esteja fácil conseguir nenhum equipamento, o item mais difícil de encontrar, em Nova York ou qualquer outro lugar, é o kettlebell.

No mês de maio, no site Dick’s Sporting Goods, não havia kettlebells - basicamente, bolas de ferro presas a uma alça - disponíveis a menos de 160 quilômetros de Nova York. Há meses o site da Gym Source diz que os kettlebells estão “indisponíveis no momento devido à alta demanda”.

Está tão difícil encontrar kettlebells - muito valorizados por sua versatilidade e usados em exercícios de resistência, cardiovasculares e de musculação - que alguns nova-iorquinos chegaram a pagar a vendedores misteriosos quase US$ 400 por conjunto, mais de quatro vezes acima da média de preços de dois meses atrás.

A GQ Magazine batizou esta era de “A Grande Escassez de Kettlebell de 2020”.

Como a maioria dos equipamentos de ginástica americanos, há décadas os kettlebells são fabricados nas fábricas chinesas, a maioria das quais foi desativada por causa do coronavírus.

A paralisação no exterior criou um gargalo na cadeia de fornecimento de kettlebell. Os especialistas do setor disseram que a escassez é um problema que poderia ter sido evitado se os Estados Unidos não estivessem tão dependentes da manufatura e da produção de ferro estrangeiras.

“Nos últimos trinta, trinta e cinco anos, houve um esforço conjunto para levar a fundição para a Ásia”, disse Richard Jefferson, vice-presidente de marketing e comunicações da Sociedade Americana de Fundição.

Existem mais de 3 mil fundições que trabalham com o ferro necessário para criar os kettlebells, mas quase todos os seus esforços se destinam a itens industriais de maiores proporções, como peças de automóveis ou portões de ferro.

Bens de consumo como kettlebells se tornaram o domínio de fundições estrangeiras que conseguem produzir em massa a um preço mais barato.

“É devastador para a nossa economia”, disse Thomas Lucchetti, proprietário da Cumberland Foundry em Rhode Island, que foi uma das poucas fundições americanas a conseguir entrar no mercado e produzir kettlebells.

Em março, quando a demanda explodiu e se interrompeu o acesso aos fornecedores estrangeiros, a Rogue Fitness, uma das maiores varejistas de equipamentos de academia do país, recorreu à Cumberland, uma planta com menos de 50 trabalhadores, para suprir a crescente demanda por dezenas de milhares de kettlebells.

O processo de equipar uma fundição para fazer um novo produto é caro e consome muito tempo. No caso de um kettlebell, é necessário criar um molde para o equipamento, o que às vezes pode custar até US$ 100 mil. Depois, a fundição deve providenciar os materiais necessários (para um kettlebell, ferro fundido cinza) e, possivelmente, máquinas especiais.

Lucchetti disse que o processo geralmente leva três meses. A Cumberland, no entanto, já havia trabalhado com uma academia menor, que passara por uma experiência semelhante durante a crise financeira de 2008, então a fundição estava preparada quando a Rogue telefonou.

Desde então, a planta produz cerca de 40 kettlebells por dia, o máximo que os operários da Cumberland conseguem fazer enquanto ainda lidam com a carga de trabalho habitual. Mesmo assim, não é suficiente para satisfazer a demanda.

Apesar das oportunidades de negócio com os kettlebells no curto prazo, Lucchetti disse que não estava planejando que esses equipamentos fizessem parte da produção constante, nem esperava que empresas como a Rogue ficassem com ele depois que as fábricas chinesas reabrissem.

“Agora existe uma demanda, mas quanto tempo vai durar?”, perguntou Lucchetti. “Quando as pessoas voltarem para academias e a mania acabar, vai ter valido a pena?”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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