Usando a minha ternura com os animais

Usando a minha ternura com os animais

Como uma menina vulnerável em uma comunidade remota, eu buscava conforto em cavalos, cabras e até um filhote de ursos. Os tempos sombrios me levaram a eles de novo

Bethany Groff Dorau, The New York Times - Life/Style

15 de agosto de 2020 | 21h00

Quando tudo foi para o buraco, adotamos ovelhas.

Estávamos no estábulo, cinco anos depois de nosso casamento, e eu só queria que meu marido colocasse a sela na prateleira. Não estava dando certo. Primeiro, James não sabia por que eu tinha uma sela, pois nunca tive um cavalo. Segundo, quando gritei as instruções - "Não pise na sela!" e "Você vê a gamarra em algum lugar?" - ele olhou para mim como se eu tivesse acabado de pedir o café da manhã em japonês.

Eu acabei realizando a tarefa, encontrei os acessórios e coloquei-os em seu suporte. "Jesus", eu disse. "Não é uma cirurgia no cérebro."

"Você sabe que eu só morei em uma cidade", ele disse. "Não faço ideia do que você está falando metade do tempo."

Depois de viver em uma (pequena) cidade por anos, recentemente nos mudamos para uma fazenda herdada na zona rural de Massachusetts. James é um cervejeiro profissional. O que ele sabia a respeito de fazendas e animais?

Não muito, isso acabou se tornando claro.

Em qualquer casamento, há momentos em que alguém olha para o parceiro e pensa: "Eu não te conheço de jeito nenhum, não é?" Às vezes, isso é encantador, uma nova faceta da joia que é seu amado. No nosso caso, me senti profundamente traída.

Eu sabia que James não era um fazendeiro. Mesmo assim, ele é um cara forte de quase dois metros de altura, com uma longa barba grisalha e um eterno rabo de cavalo preto, que usa work boots e roupas Carhartt. Suas mãos são ásperas, seu tórax, largo. Ele gosta de tirar as portas do seu jipe. Tudo nesse homem gritava robustez e trabalho duro, e para mim isso sempre significará que você sabe o que fazer em terras agrícolas e com animais.

Meus pais não eram fazendeiros no começo. Eram jovens pais assustados que ouviram um chamado para correr para as montanhas. Minha mãe conheceu meu pai em 1970 em um grupo de oração organizado por um grupo de cristãos nascidos de novo que seguiam um líder carismático chamado Sam Fife, fundador de um grupo chamado The Move.

A mensagem do irmão Sam era simples: a sociedade ocidental era corrupta e estava se desintegrando. Mulheres e crianças não sabiam quais eram seus lugares. Cristãos em todo o mundo estavam sendo perseguidos, e isso ia piorar ainda mais.

Quando eu era criança, emigramos para o Canadá e seguimos para o norte para uma fazenda comunitária no norte da Colúmbia Britânica, chamada Evergreen, que ficava na estada do Alaska, no final de uma trilha de terra no meio da floresta. Após um trajeto interminável e sacolejante, as fileiras de arbustos e mirtilos de Saskatoon anunciavam o início da fazenda, depois um campo de batatas e o primeiro vislumbre de uma grande casa de madeira cercada por trailers brancos.

Eu vejo isso nos meus sonhos. Eu tinha sete anos. Em nossa primeira noite no Tabernáculo, o prédio central onde orávamos, frequentávamos a escola, cozinhávamos e comíamos nossas refeições, uma garota de cabelos loiros em uma saia jeans rosnou enquanto passava por mim. "Exatamente o que precisamos", disse ela. "Outra garotinha da cidade."

Logo aprendi que havia recebido o insulto máximo e passaria os próximos cinco anos tentando provar que ela estava errada.

A fazenda havia sido criada por pessoas que sabiam o que estavam fazendo, mas, quando chegamos, estava preenchida com pessoas bem-intencionadas, como meus pais, cujos conhecimentos em engenharia civil e música eram úteis para o grupo, mas não eram especialmente relevantes para alimentar uma família. As colheitas eram magras, os animais ainda mais magros. Estávamos tentando viver o mais longe possível da sociedade, e isso significava pouca comida para as pessoas e menos ainda para os animais.

Nós, crianças, morávamos com nossos pais, mas passávamos nossos dias em grupos gerenciados por outros adultos. Uma das minhas primeiras tarefas foi no celeiro, onde fui chutada para uma pilha de esterco. Tentei recuperar minha dignidade carregando dois baldes de quase 20 litros de leite até o centrifugador. O leite escorria pelas minhas botas e meus braços pareciam rasgar os meus ombros, mas eu consegui.

A loira, um ano mais velha, bronzeada e magra, trotou atrás de mim com seus dois baldes cheios, dando um sorriso quase sincero em minha direção.

No dia seguinte, ela me montou em um cavalo, uma égua malhada e robusta, e me disse que eu seria uma verdadeira amazona quando caísse 100 vezes. Eu continuei contando. As quedas entre 34 e 40 aconteceram no mesmo dia. Depois de cada queda, eu mancava e me arrastava de volta para o cavalo, minha nêmesis loira assistia a tudo montada na cerca. Registrei todas as quedas nomeando as cicatrizes resultantes em meus joelhos, testa e canelas.

A fazenda era um lugar difícil para os vulneráveis. Eu lutei para ser forte o suficiente para sobreviver não apenas a acidentes e quedas, mas também a abusos sexuais e físicos. Perdi a pouca fé que já tive em Deus e me concentrei em ser fisicamente forte, aceitar qualquer desafio, cavalgando em qualquer cavalo. A doçura que restava eu reservava para os animais, cujo sofrimento eu poderia aliviar de pequenas maneiras.

Roubei manteiga de amendoim dos baldes da cozinha e alimentei um filhote de urso cuja mãe havíamos matado e comido (a imagem da mãe ursa me assombra até hoje). Alimentei as vacas mais magras com pão e lamentava a morte de cada galinha, cabra e cachorro. Escrevi seus elogios fúnebres em folhas de caderno e os escondi em uma lata de café.

 

Saímos da Evergreen quando eu tinha 11 anos e voltamos, sem um tostão, para Massachusetts. Eu estava com raiva, traumatizada e feroz. Consegui empregos em estábulos e celeiros de vacas apenas para estar perto de animais. Minha vida começou um arco lento e ascendente que agora me torna voluntária para resgates de animais e trabalhando em uma fazenda.

Embora eu seja vegetariana, tornei-me uma tarde e sou moderada em minha defesa. As promessas que fiz às carcaças de cabras peladas que eu amava são lembradas. A loira agora é minha amiga no Facebook e não conversamos a respeito de Evergreen.

O assassinato de George Floyd durante uma pandemia mundial de coronavírus, com crianças em gaiolas e pessoas desrespeitando os doentes e moribundos, me levou a um lugar que eu não tinha estado desde os dias mais sombrios da minha juventude.

A Sociedade de Massachusetts para a Prevenção de Crueldade contra Animais (M.S.P.C.A., na sigla em inglês) telefonou para perguntar se poderíamos levar três ovelhas magricelas para a fazenda que administro. Eu disse que não, preocupada porque os funcionários e os voluntários já estavam sobrecarregados. Naquela tarde, caminhei pela casa, fiz uma doação a um grupo de defesa dos direitos civis, li pedidos cada vez mais desesperados por justiça on-line e acrescentei minha voz a eles.

À noite, meu marido chegou da cervejaria exausto e deprimido. Os funcionários da cervejaria tiveram que ser demitidos. Ele estava cuidando da linha de enlatamento ao lado do proprietário.

Contei a ele a respeito das ovelhas, sobre como me senti impotente.

“Diga-me o que precisamos para trazê-las para cá", disse ele.

No dia seguinte, ele pesquisou “abrigo para ovelhas” no YouTube e começou a trabalhar em uma casa de madeira, um lar temporário para as ovelhas, para que pudéssemos levá-las imediatamente e começar a montar um celeiro. Chegaram na semana seguinte, três ovelhas magras e desdentadas.

Uma semana depois, recebi uma ligação a respeito de um bode jovem. Nós o adicionamos ao grupo e, em poucos dias, um pequeno celeiro chegou em um caminhão. Lancei todo o meu medo, frustração e esperança nas grades da cerca, carregando água, dando remédios e fazendo carinho em orelhas. James acordou cedo para cortar cenouras e maçãs para eles. Ele cantou canções para eles e encomendou sinos com seus nomes gravados.

Em junho, a M.S.P.C.A. ligou novamente. Um antigo cavalo de carruagem precisava de um lar para idosos. Ele era imenso - tinha quase dois metros - e precisava ser cuidado por alguém com "experiência com cavalo de tração".

Desliguei e chorei, pensando em todos os cavalos grandes, cansados e de olhos gentis da minha infância, puxando arados, carroças e enfardadeiras, abaixando suas cabeças enormes para que eu pudesse esfregar seus pescoços suados. James não deu nenhum sinal de emoção quando contei a ele a respeito do cavalo de carruagem.

"Diga-me o que precisamos fazer", disse ele, e começamos a construir. James estava sujo e mal-humorado - um urbanoide tentando aprender a gerenciar todas as complexas necessidades humanas e animais que, de repente, tornaram-se sua responsabilidade.

O cavalo chegou há alguns dias - magro, um pouco desconfiado, magnífico. Já tínhamos posto mais de 100 estacas de cerca e acrescentamos cinco galinhas e dois perus. Esses animais nunca significarão para ele o que significam para mim - o cumprimento de dezenas de promessas chorosas que fiz décadas atrás.

Para ele, este é o cumprimento de apenas uma promessa: contar minhas cicatrizes, perguntar como as consegui e me amar como sou. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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