Nina Westervelt The New York Times
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Para levantar os ânimos, florista distribui arranjos pelas ruas de Nova York

'Agora, mais do que nunca, precisamos de flores na cidade', disse Lewis Miller. 'Quem não está procurando um pouco de alegria?'

Jessica Shaw, The New York Times - Life/Style

27 de julho de 2020 | 05h00

NOVA YORK — Eram 3h37 da madrugada na Atlantic Avenue, no Brooklyn quando Lewis Miller deu um suspiro de alívio. “Este aqui é meu lugar de felicidade”, disse Miller, florista de 46 anos e artista de guerrilha. Depois de arranjar as peônias corais no meio de algumas gérberas, ele se afastou para avaliar a moldura do seu coração de flores de 1,8m x 1,2m: uma calçada escura e uma faixa de pedestres branca, uma placa sinalizando proibido virar à esquerda e à direita, a marquise do Barclays Center com uma citação do reverendo Martin Luther King – “O tempo é sempre certo para fazer o que é certo” – no escuro da madrugada. “Está bom. Continuemos”, disse ele.

O coração era um dos quatro “flower flashes” (mostras repentinas de flores) – que são a marca da Lewis Miller Design e que os nova-iorquinos veriam ao despertar em 16 de junho. Embora ele venha instalando sorrateiramente esses arranjos de flores há anos, esses que surgem agora, repentinamente em torno do poste de luz de um hospital ou numa lixeira em Midtown, são recebidos com um entusiasmo particular. Usuários de redes sociais em todo o mundo têm enviado a ele centenas de cartas cordiais. Bette Midler tem elogiado o trabalho dele no Instagram.

“Nos bons tempos, as flores são fascinantes; todos sabemos disto”, disse ela. “Mas agora mais do que nunca precisamos de flores na cidade. Quem não está em busca de uma pequena alegria?” “Esta é a coisa mais linda que já vi”, disse um observador que caminhava apoiado em sua bengala pela Quarta Avenida. Irini Arakas Greenbaum, cujo trabalho inclui explorar locais para Miller (sempre estou à caça das latas de lixo da Kate Moss, disse ela), ofereceu a ele uma rosa. “Não. Já estou super bem”, disse ele. Ela insistiu. “OK, vou procurar uma garota sem teto e darei a ela. Propagar o amor”.

Miller disse ao homem para se cuidar. Depois entrou na sua ampla van transportando suas 12 mil flores. É como dirigir com 100 bolos de casamento”, disse Manny Mejia. Apesar de alguns buracos, as rosas e margaridas estavam ilesas no segundo local de instalação, em Fort Greene. Quando Tawana Schlege, florista da empresa, suavizou as curvas do coração florido com lírios, Miller viu um anúncio da Celino & Barnes na entrada do metrô.

“Será que é um número de telefone real?”, ele se perguntou, pensando em todos aqueles números oito, enquanto recolhia as pétalas caídas. Antes ele tirou um vaporizador da van para regar o arranjo de flores, porque, como tantos nova-iorquinos, os lírios precisam de uma hidratação extra. Enquanto atravessava a iluminada Ponte de Manhattan em direção ao terceiro local, no SoHo, Miller pensava no futuro.

“Qual será a aparência da nossa cidade daqui a três meses?”. Quase todos os espetáculos deste ano foram cancelados e os eventos do início de 2021 já foram adiados. Embora tenha pago do próprio bolso os arranjos passados, ele aceitou as 1,2 mil rosas doadas por um fã que tem uma fazenda no Equador, como também um financiamento da LEAD, organização que apresenta festivais de flores. “Não me oponho a receber dinheiro”, disse, referindo-se às suas instalações para a Equinox, Old Navy e um empresário que pediu um arranjo surpresa para sua esposa.

“Mas nesses casos é preciso que haja integridade, ou minha alegria acaba”. Às 4h46, na Spring Street, o ruído dos caminhões de lixo servia de serenata para a equipe de Miller enquanto instalava um coração púrpura diante de uma parede vermelha de grafite onde se lia: “Podemos estar sós, mas juntos venceremos”. “Sempre brincamos sobre como um bom “flash” é tranquilo e cortês, mas o tempero secreto de fato é a cidade. Tenho visto arte de rua por toda a parte, de Nashville a Los Angeles e não é a mesma coisa. Há determinadas coisas que funcionam melhor em Nova York”.

Mas a arte de rua nem sempre coopera. Consternado com um trecho escuro de parede que não propiciava um contraste de cores adequado, Aarakas Greenbaum debateu as opções com Miller. Mudar o local do coração? Pintar a parede com spray branco? Miller deu outra ideia, envolvendo o que alguns consideram ser o equivalente floral de um hambúrguer de uma máquina automática. “Cravos têm uma má reputação”, disse ele, acrescentando alguns brancos com toques roxos.

“São flores bonitas com cheiro de noz-moscada”. A praça de paralelepípedo na Gansenvoort Street foi a parada final, totalmente vazia às 5h21. A equipe derrubou os estêncis de um cartaz gigante do logo de Milton Glaser “EU (CORAÇÃO) NY” na rua e substituiu por flores. Miller instalou o coração vermelho, retirando uma rosa aqui, colocando uma folha de tinhorão ali.

Arakas Greenbraum subiu ao quinto andar de um prédio pela escada de incêndio para ter uma vista aérea enquanto quatro pombos perambulavam pelo local. “Gostaria que fosse parecido com a Praça de São Marcos”, disse Miller, degustando granola de café da manhã. Às 6h27, já se observava a multidão, de aves humanos, se movimentando confusamente pelas ruas. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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