Meghan Dhaliwal/The New York Times
Meghan Dhaliwal/The New York Times

Menos sexo, mais espectadores: a pandemia dá nova força às telenovelas mexicanas

Mexicanos encontram nas produções um momento de paz em meio às ansiedades provocadas pela pandemia de coronavírus

Natalie Kitroeff, The New York Times - Life/Style

19 de agosto de 2020 | 05h00

CIDADE DO MÉXICO - O caso de amor do México com o melodrama tinha acabado. Depois de décadas de reinado supremo no horário nobre, as telenovelas, as novelas icônicas do país, estavam perdendo espectadores. Os executivos da indústria as declararam obsoletas, muito piegas e simplistas para competir com programas de alto nível e maiores orçamentos.

Agora, em parte, graças à pandemia, a telenovela está mostrando sua força novamente.

Confinados em suas casas por causa do coronavírus, milhões de mexicanos têm dedicado suas noites aos melodramas tradicionais e outros clássicos kitsch, encontrando nos rostos familiares e finais felizes garantindo um bálsamo para ansiedades suscitadas por uma crise de saúde que deixou pelo menos 43 mil mortos e milhões de desempregados.

“Não há medo, nem terror, nem angústia”, disse Enrique Millán, 75 anos, a respeito das novelas que monopolizam sua atenção após a pandemia suspender temporariamente o futebol. “Posso imaginar o que vai acontecer no final de cada episódio. Não há estresse.”

Os índices de audiência das novelas aumentaram nos últimos meses, ressuscitando um gênero que moldou gerações de mexicanos e se tornou uma das exportações culturais mais importantes do país.

O início de uma crise econômica global tornou essa programação mais atraente à revelia. As novelas vão ao ar em canais abertos, tornando-as mais acessíveis do que a Netflix ou canais premium para a família mexicana média.

Mas sua atração também vem de um tipo específico de narrativa descomplicada que alivia o tédio da vida no lockdown, enquanto acalma os medos e proporciona a intimidade emocional que as interações diárias perderam por conta do vírus.

“Ligo a televisão, o tempo passa e você não sente que não está fazendo nada”, disse Minerva Becerril, que todas as noites assiste novelas e outros melodramas com sua mãe de 90 anos em sua casa nos arredores da Cidade do México. “Traz um momento de calma e você assiste cenas de amor, das quais gosto porque sou romântica.”

Minerva começa suas noites com Te Doy La Vida (Te dou a vida, em tradução livre), uma novela que apresenta um triângulo amoroso, e depois vê A Rosa dos Milagres, um drama com tons religiosos. Ela, às vezes, assiste à Destilando Amor, mas não gosta de Rubi, uma nova versão de uma novela de 2004 que foi baseada em um conto, que ela leu em um gibi dos anos 1960. “A versão da revista era melhor”, disse ela.

O ressurgimento dos melodramas no México foi uma dádiva para a Televisa, um conglomerado de mídia mexicano que outrora teve o monopólio do público, mas que tem sido derrotado por serviços de streaming e outros concorrentes nos últimos anos.

Durante o segundo trimestre, 6,6 milhões de pessoas assistiram ao canal principal da Televisa durante o horário nobre todas as noites, quando as novelas e outros melodramas vão ao ar, contra cerca de 5 milhões no mesmo período de 2019, de acordo com a rede. Os índices de audiência do canal aumentaram duas vezes mais que a audiência geral da TV no México de maio a junho.

Com base nas avaliações da Nielsen, a Televisa estima que mais de 10 milhões de pessoas assistiram ao final de Te Doy La Vida, que se tornou o episódio de telenovela mais assistido da rede desde 2016.

“De repente, a audiência está aumentando”, disse Isaac Lee, ex-executivo da Televisa e da Univision. “Ninguém sabe se isso é algo de momento, uma onda, uma tendência ou se o gosto pela telenovela está de volta.”

Quando Lee se tornou chefe de conteúdo da Televisa em 2017, a rede estava em crise. As rendas aumentaram e o acesso à Internet se espalhou pelo México ao longo das décadas, atraindo as pessoas para longe dos melodramas característicos que haviam sido o ganha-pão da Televisa por meio século.

Executivos da indústria queriam mais ação, mais violência e orçamentos maiores - os ingredientes que pareciam explicar o sucesso de dramas a respeito de traficantes de drogas na Telemundo e séries como Narcos na Netflix.

Lee começou a assistir a toda a programação da Televisa e logo percebeu o que deveria ser óbvio: ele não era o público-alvo. E nem eram os outros executivos da empresa que estavam tomando decisões em relação à programação.

“Decidi não assistir ao conteúdo”, disse ele, “porque sabia que iria estragar tudo”.

Depois de muitas conversas com os telespectadores, ficou claro que o melodrama precisava apenas de uma transformação, disse ele. A Televisa começou a modernizar suas novelas, atenuando os tapas na cara e os tons barítonos dramáticos em favor de personagens que falavam com vozes normais sobre problemas reais.

A estrela do norte deles era A Rosa dos Milagres, um drama da Televisa de uma década que há muito havia sido subestimado pelos próprios executivos da rede.

A Rosa dos Milagres não é uma telenovela, com personagens e conflitos consagrados, mas é o ápice do melodrama. Cada episódio de uma hora conta uma história independente que sempre segue o mesmo arco: as pessoas encontram problemas e rezam por ajuda à Virgem de Guadalupe. Uma rosa branca aparece, um vento santo sopra em seus rostos e logo seus problemas acabam.

O que o programa tinha que as novelas da rede não tinham era valor cultural. Os temas tratados em A Rosa dos milagres costumam ser retirados das manchetes dos jornais, como o episódio dedicado a uma família separada pela deportação dos Estados Unidos, ou outro a respeito de adolescentes que consumem bebidas alcoólicas pelos olhos - uma perigosa brincadeira que circulou pelas redes sociais.

O drama também atraiu um número surpreendente de seguidores entre os jovens mexicanos - embora muitos jurassem que eles, ao contrário de suas avós, estavam assistindo, ironicamente, para zombar das tramas improváveis. TikTok, Twitter e YouTube estão cheios de memes e vídeos ridicularizando o programa.

“Achamos que é um absurdo”, disse Héctor Ortega, 22 anos, que criou a conta do Twitter "Out of Context Rosa" (Rosa fora de contexto), onde posta clipes curtos dos momentos mais exagerados dos episódios. “Eu nem assisto o programa. Apenas vi todos os memes e o impacto que isso tem na minha geração, que não é exatamente o mercado-alvo.”

Claro, muitos dos haters acabam sendo espectadores leais. A Rosa dos Milagres teve um grande crescimento de audiência entre o público mais jovem nos últimos meses, especialmente entre os espectadores do sexo masculino com idades entre 13 e 31 anos, cujos números aumentaram cerca de 40% em comparação com o ano passado.

E quando se trata de oferecer comida reconfortante para um público ansioso, não há páreo para o melodrama à moda antiga.

"Ao contrário da Netflix, damos certeza às pessoas”, disse Carlos Mercado, o criador do programa e roteirista-chefe. “Você sabe o que vai ver em A Rosa dos Milagres, mesmo que queira desdenhar disso." / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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