Christopher Lee/The New York Times
Christopher Lee/The New York Times

Sem festas durante a pandemia, mariachis tocam sua música em funerais nos EUA

Com celebrações de aniversário e casamentos escassas, músicos são contratados para tocar em funerais, incluindo de membros das bandas

Christina Morales, The New York Times - Life/Style

21 de abril de 2021 | 05h00

Diante do arco de pedra do Centro de Retiro dos Jovens Salesianos de St. Joseph, nos arredores de Los Angeles, o escuro caixão de madeira com o corpo de Juan Jiménez era levado em um carrinho na direção de uma banda de mariachis, todos de máscara. O grupo se preparou para tocar, erguendo simultaneamente os arcos dos violinos, as mãos sobre uma harpa dourada e os dedos prontos para tocar os guitarrónes, os violões baixos.

Quando o padre acabou a oração, Jesus Guzmán regeu a banda dos Mariachi Los Camperos por quase uma hora de música: canções que expressavam dor e saudades, como Las Golondrinas (As andorinhas).

Os calendários das bandas de mariachis nos EUA costumavam estar repletos de compromissos para casamentos, festas de quinze anos e serenatas, onde a vigorosa música da cultura mexicana contribuía para animar alguns dos momentos mais alegres da vida das pessoas. Com a pandemia, estas oportunidades desapareceram; ficaram somente os funerais, um número cada vez maior dos funerais, poupando alguns mariachis da ruína financeira.

Nesse funeral, em fevereiro, as músicas eram particularmente emotivas e os músicos, sem sombreros, curvaram as cabeças  à passagem do corpo. Jiménez fora um deles, respeitado tocador de guitarrón que sucumbiu ao coronavírus aos 58 anos.

“Os seus amigos estavam todos ali ao seu lado, tocando para ele, agradecendo, continuando o seu legado“, disse Guzmán, amigo de Jiménez desde a infância e diretor musical da banda que eles chamavam de sua.

Testemunhar o número de eventos tristes que têm mantido algumas bandas de mariachis financeiramente vivas significa encarar o número angustiante de óbitos de pessoas que outrora cantavam a sua música. O número de óbitos de moradores latinos e pretos apanhados na onda feroz de contágio do coronavírus em todo o condado de Los Angeles chegou a ser o dobro ou mesmo o triplo da população branca da cidade durante o inverno no hemisfério norte.

A história se assemelha a de outros centros com grandes populações latinas, e estudos mostram que os latinos são mais vulneráveis à doença e propensos a morrer por causa do vírus. As suas comunidades e famílias são em geral mais numerosas e dependem do transporte de massa, o seu acesso à assistência médica é limitado e os seus empregos, na maioria das vezes, exigem o contato com o público.

Por isso, enquanto os caixões descem nas covas, muitas bandas de mariachis da Califórnia, Texas, Illinois e de outros estados passaram a tocar músicas que expressam dor e tristeza na tentativa de aliviar a passagem para a outra vida. Mesmo para as bandas acostumadas a tocar em funerais antes da pandemia, a onda de óbitos tem sido esmagadora. Muitas pessoas perderam toda a família, amigos, membros da banda e professores de música.

Durante dezenas de anos, as bandas familiares de mariachis e os músicos autônomos de Los Angeles desceram até a Mariachi Plaza, a leste do centro da cidade, em busca de trabalho. É ali que Christian Chavez, o secretário da Organização dos Mariachis Independentes da Califórnia, distribui caixas de alimentos a músicos com problemas financeiros desde que a pandemia acabou com os negócios.

Como muitos músicos que conheceu na plaza, Chavez não ficou imune às dificuldades financeiras causadas pela pandemia. A banda fundada por seu avô no México, Mariachi Tierra Mexicana, teve problemas. A pandemia acabou com a sua poupança em sete meses. O coronavírus obrigou Chavez e outros mariachis a tomar péssimas decisões para sobreviver. Muitos deles continuaram trabalhando em casamentos onde as pessoas menosprezavam máscaras e distanciamento social.

Mesmo assim, para muitos, funerais e enterros tornaram-se o principal meio de sustento, aliviando as dificuldades financeiras, mas exigindo outro tipo de sofrimento, até para os que costumavam tocar nestas cerimônias de maneira intermitente, entre outros eventos. O choro. As pessoas agarradas ao caixão enquanto baixava na cova. Chavez disse que, às vezes, estes momentos eram tão devastadores que ele tinha de olhar para outro lado e concentrar-se apenas no seu trompete.

Dos 400 membros ativos da organização de mariachis da Califórnia, cerca de 80 morreram por causa do vírus, possivelmente por terem aceito trabalhar em festas e restaurantes, disse Chávez.

Entre eles, seu padrinho, Dagoberto Martínez, que por 15 anos tocara a viola de mão na banda da sua família.

“Todas as vezes que eu vou trabalhar, rezo para ser um dos felizardos que voltam para casa”, disse Chavez, que está trabalhando em eventos e tocando em dezenas de funerais, em uma entrevista por vídeo. Em outubro, ele e a família ficaram gravemente doentes com o vírus.

Todos os trabalhadores  na área de artes cênicas lutaram durante a pandemia porque o desemprego pesou de maneira excessiva neste setor. O que é peculiar no caso dos membros das bandas de mariachis, contaram muitos deles nas entrevistas, é o fato de a sua música ter se tornado parte do ritual de despedida desta vida para uma população particularmente afetada pela pandemia.

Em novembro, no Texas, Miguel Guzman, dos Mariachi Los Galleros de San Antonio, teve de deixar de lado o violino e a música ao testar positivo para o coronavírus. Dias antes, ele estava com a máscara na casa de um amigo, um negociante de instrumentos musicais, comprando um violino para um aluno. Pouco depois, o amigo morreu por causa do vírus.

Guzman também ficou doente, e passou um mês no hospital. O vírus o pegou. Ele precisou constantemente de oxigênio para respirar com seus pulmões comprometidos. Perdeu quase 20kg e todos os músculos; para voltar a apenas andar precisou de fisioterapia.

Em casa, os seus dedos estavam insensíveis nas várias vezes que tentou pegar o violino, mas foi a promessa de voltar a tocar na banda com os filhos, e de escrever uma música para a esposa, que o manteve motivado para se recuperar.

Em fevereiro, Guzman finalmente voltou a tocar na banda em mais uma série de funerais e enterros. No primeiro dia de sua volta foi para o funeral do sogro de um amigo. Na semana seguinte, foi ao de um dos seus clientes de longa data, o dono de uma loja de pneus que morreu de complicações por coronavírus.

Naquele funeral, ficou de pé ao lado do caixão com a banda tocando Te Vas Ángel Mio. Ouvia o choro dos parentes, mas também o seu violino, e isto o ajudou a levar adiante a vida para os que lamentavam a perda e para si próprio.

“A música é o remédio, porque quando estou tocando, esqueço que não consigo respirar”, falou Guzman. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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