Gracia Lam The New York Times
Gracia Lam The New York Times

A pandemia pode nos poupar de outra praga: percevejos

Os insetos podem ser encontrados em praticamente qualquer lugar em que as pessoas sentam ou dormem

Jane E. Brody, The New York Times - Life/Style

29 de julho de 2020 | 05h00

A praga deste ano, o novo coronavírus, provavelmente poupará muitas pessoas de um flagelo antigo: os percevejos de cama. Com a redução drástica de viagens e de noites passadas em hotéis, motéis e outros locais externos por conta da pandemia, as chances de ser picado ou levar para casa esses convidados indesejados foram bastante reduzidas.

Mas não há motivo para ser complacente com esse inseto desagradável que existe há pelo menos quatro milênios, desafia a erradicação há mais de um século e, em circunstâncias normais, pode ser extremamente difícil de evitar. No ano passado, em uma pesquisa realizada em 50 cidades americanas pela empresa de controle de pragas Orkin, a capital Washington foi considerada a mais infestada, seguida por Baltimore, Chicago e Los Angeles.

Segundo o estudo da Orkin, a cidade de Nova York ficou em sexto lugar, depois de Columbus, no estado de Ohio, embora outra empresa especializada, a Terminex, tenha atribuído a Nova York o topo da lista – um resultado questionável – entre as 15 cidades mais afetadas dos EUA. Em apenas cinco anos, de 2004 a 2009, a Câmara Municipal nova-iorquina recebeu 5.397 reclamações por ano sobre os percevejos de cama, passando de 537 para 10.985, o que originou restrições ao descarte de colchões.

Em todo o mundo, os principais responsáveis pelo controle de pragas relataram que o número de infestações por percevejos aumentou mais de 4.500% nos primeiros anos deste século. Os insetos se tornaram especialmente problemáticos nos Estados Unidos, onde se estima que cerca de um em cada cinco americanos foi atacado por percevejos pessoalmente ou conhece alguém que tenha sido, geralmente com grandes prejuízos.

Uma amiga, cuja mala se tornou hospedeira de percevejos provavelmente depois de ficar em um guarda-volumes de um sofisticado hotel no interior do estado de Nova York, encontrou o inseto rastejando quando vestiu seu pijama e se sentou para ler, logo após chegar em casa, no Brooklyn. Ela gastou US$ 1,3 mil para dedetizar a casa e, agora, regularmente coloca em quarentena sua bagagem e o conteúdo dela no frio extremo após uma viagem para minimizar o risco de uma nova invasão.

O que minha amiga não sabia, no entanto, é que os percevejos de cama podem viver muitos meses sem se alimentar de sangue humano. Assim, esperar algumas semanas para desfazer as malas pode não resolver o problema. Os quintais do Brooklyn, ou mesmo os freezers domésticos, podem não estar frios o suficiente para matar os insetos: especialistas recomendam temperaturas inferiores a 20 ºC.

Chelle Hartzer, insectologista da Orkin, alertou sobre os percevejos. "Eles são excelentes penetras e se reproduzem rapidamente, o que torna quase impossível evitá-los." O aumento no número de viagens domésticas e internacionais nas últimas décadas contribuiu para sua onipresença atual. Para dificultar os esforços de controle, os percevejos se tornaram resistentes aos inseticidas mais utilizados, incluindo os compostos com piretroides.

Ninguém, incluindo os mais meticulosos, está imune a uma infestação de percevejos. Os insetos podem ser encontrados em praticamente qualquer lugar em que as pessoas sentam ou dormem – cinemas, escritórios, escolas, igrejas, hospitais, ônibus, trens, navios de cruzeiro e aviões, bem como hotéis e residências.

Segundo um extenso relatório de cientistas australianos publicado na revista acadêmica Clinical Microbiology Reviews, a infestação de um edifício inteiro pode começar com apenas alguns percevejos ou, possivelmente, com uma única fêmea. Uma fêmea grávida pode botar de dois a cinco ovos por dia.

Os percevejos podem ainda ser diabolicamente difíceis de localizar. O ovo desses insetos, que não voam, tem uma cor perolada e o tamanho de uma cabeça de alfinete. Os indivíduos adultos são marrons ou marrons avermelhados (caso tenham se alimentado recentemente de sangue) e do tamanho de uma semente de maçã, com cerca de 6,35 milímetros de comprimento.

Dois médicos franceses, que escreveram em junho um artigo para o The New England Journal of Medicine, apontaram que, "entre as refeições de sangue, os percevejos se escondem em locais escuros, como rachaduras e fendas, paredes, malas, roupas de cama, colchões, colchas, armações de cama, espaços sob rodapés, papel de parede solto ou descascado, interruptores e tubulação de cabos elétricos".

Embora esses insetos possam picar sem causar dor, a qualquer hora do dia, na maioria das vezes eles se escondem e saem à noite para se deliciar com o sangue de pessoas adormecidas, com frequência deixando um rastro de sangue nos lençóis. Eles não pulam nem voam, mas podem rastejar rapidamente – cerca de um metro em menos de um minuto – para um animal tão pequeno.

Os percevejos raramente transmitem doenças, embora coçar excessivamente as picadas possa causar infecções secundárias. (Por uma ótica positiva, segundo os autores australianos, as glândulas odoríferas dos percevejos secretam uma substância que inibe o crescimento microbiano e que, um dia, poderá se tornar farmacologicamente útil.)

Nem todos reagem às picadas de percevejos, por isso às vezes não suspeitam dos insetos como a causa das mordidas, enquanto o parceiro de cama aparenta não ter sido atacado. Juntamente com uma coceira enlouquecedora, saber que os percevejos estão infestando a casa pode causar transtornos.

"Privação do sono, insônia ou noites maldormidas estão comumente associadas à infestação. As consequências psicológicas podem ser extremas, resultando em pesadelos, ansiedade e falta de foco", relatam os cientistas franceses. "Pessoas atacadas por percevejos podem se isolar socialmente. Em alguns casos, mesmo quando o problema é resolvido, o trauma psicológico pode evoluir para um estado delirante, no qual os pacientes sentem as picadas e os insetos rastejando sobre eles, mesmo que os percevejos tenham sido eliminados", descreveram cientistas australianos.

Prevenir a infestação, em primeiro lugar, é o melhor método para o controle de percevejos, embora honestamente eu não consiga imaginar como seguir todas as medidas de precaução sugeridas pelos especialistas em cada novo lugar em que possa sentar ou dormir. Ao chegar a um quarto de hotel, por exemplo, o conselho é colocar a bagagem fechada sobre um suporte (nunca na cama, no chão ou em uma cadeira estofada).

Antes de retirar os pertences, verifique sinais reveladores de percevejos, como pequenas manchas marrons de excrementos nos lençóis e nos colchões. Com o celular pronto para uso, utilize o cartão-chave do quarto ou o próprio cartão de crédito para percorrer as costuras do colchão, as rachaduras na cabeceira e nos pés da cama e nas dobras de móveis estofados, e imediatamente (aja rápido, eles se movem depressa) tire uma foto de qualquer inseto que encontrar para mostrar ao gerente.

Em edifícios, os percevejos podem subir de um andar para o outro, acima ou abaixo. Por isso, avise os vizinhos caso seu apartamento esteja infestado e busque ajuda profissional para erradicar os insetos sem demora. Uma coisa que você não precisa fazer é jogar fora suas roupas, os lençóis de cama ou até mesmo seus móveis. Lave o que puder em água bem quente (60 graus Celsius – que é uma configuração superior à maioria dos aquecedores de água) e consulte um profissional especializado sobre como tratar os móveis sob suspeita de infestação.

Evite produtos de controle de pragas que prometem soluções milagrosas: use apenas pesticidas registrados na Agência de Proteção Ambiental americana. E o mais importante: evite levar os insetos para sua casa resistindo à tentação de "recuperar" móveis descartados por outras pessoas. Também não tente os demais: vede com plástico todas as roupas de cama e a mobília almofadada ao jogá-las fora.

The New York Times Licensing Group – Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times.

Tudo o que sabemos sobre:
insetocoronavírus

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.