Pandemia faz jogadores profissionais de pôquer viajarem para competir por prêmios milionários

Pandemia faz jogadores profissionais de pôquer viajarem para competir por prêmios milionários

Diante do complicado aspecto legal dos jogos de apostas pela Internet, nos EUA e no mundo, e mais os inevitáveis problemas tecnológicos, transição para partidas on-line não foi totalmente tranquila

Kashmir Hill, The New York Times - Life/Style

14 de setembro de 2020 | 05h00

Há três anos Maria Konnikova, da revista The New Yorker, inventou uma proeza brilhante para um livro sobre sorte. Noviça no jogo de cartas, ela aprendeu pôquer com um dos seus melhores jogadores, Erik Seidel, procurando aprimorar suas chances por meio do estudo e habilidades. Ela se deu um prazo de um ano para aprender, mas algo surpreendente aconteceu; começou a ganhar tanto dinheiro que deixou o livro de lado.

Depois de ganhar mais de US$ 300 mil, ela finalmente publicou The Biggest Bluff ("O maior Blefe", em tradução livre) este ano, em 23 de junho. Normalmente o livro seria lançado no meio da World Series of Pôquer, evento anual no Rio All-Suite Hotel & Casino, onde mais de 100 mil jogadores enfrentam o calor sufocante de Las Vegas para concorrer a milhões em prêmios em dezenas de torneios de cartas. Mas não este ano, durante a pandemia de coronavírus.

O pôquer não é uma grande jogada nesta era de protocolos públicos de saúde, com os jogadores reunidos na mesma mesa, respirando um diante do outro e usando cartas e fichas comuns. Em março, alguns aposentados na Flórida que costumavam jogar pôquer regularmente entre amigos, foram infectados com o vírus e três morreram. Como a NBA, a NHL e a NCAA, a World Series of Pôquer, do cassino Caesars Entertainment, teve de adiar o evento ao vivo.

Conseguiu mudar o torneio, que passou a ser on-line, mesmo com o cassino fechado, embora suas outras propriedades em Las Vegas fossem reabertas. Mas diante do complicado aspecto legal dos jogos de apostas pela Internet, nos Estados Unidos e no mundo, e mais os inevitáveis problemas tecnológicos, a transição não foi totalmente tranquila.

Na primeira parte da série, os jogadores precisavam chegar a um de dois estados americanos autorizados e, se quisessem competir por grandes somas de dinheiro, tinham de sair totalmente do país – o que os forçava a decidir se os seus ganhos potenciais valeriam o risco de viajar para o exterior. A mudança on-line implicou também os inevitáveis problemas de tecnologia.

A série teve início em julho, usando o software da WSOP. Mais de 40 mil pessoas participaram e tiveram de fornecer seu documento de identidade e prova de endereço e eram obrigadas a estar, como o determinado pelos aplicativos de geolocalização, em Nova Jersey e Nevada. Estes são os estados onde o Caesars tem licença para operar apostas on-line.

“Uma opção viável em ambas as costas”, segundo Ty Stewart, diretor executivo da WSOP; Konnikova não deixou seu apartamento no Brooklyn desde o começo de março. Seu livro foi lançado na data marcada e as vendas foram boas. Promovê-lo no circuito de pôquer não deu certo, mas refletir sobre o que ela pode controlar ajudou.

“Não sabemos quando haverá uma vacina. Não sabemos muito sobre o vírus. O que posso fazer é decidir a que informações devo prestar atenção. Você tem de prestar atenção às coisas certas no pôquer ou então vai perder”. No inicio de julho, ela e o marido viajaram 90 minutos da sua casa em Nova York, onde o pôquer on-line é ilegal, para Nova Jersey, onde é legal.

Ela passou os dias nadando e promovendo seu livro e todas as noites, às 18 horas, ficava com seu laptop ligado, sentada no terraço com vista para o mar, para participar do torneio do dia. Jogava até acabar a bateria do seu notebook ou ser obrigada a sair dali pelos mosquitos, e então entrava no pequeno estúdio alugado e jogava na mesa da cozinha até a manhã seguinte enquanto o seu marido dormia. Ela ganhou dinheiro em dois torneios, mas também enfrentou problemas técnicos. Durante os torneios, o software da WSOP congelou.

Ela conseguia ver suas cartas – numa das vezes um ás e um rei, uma das melhores mãos de cartas no torneio – mas não conseguiu fazer uma aposta. Não foi apenas ela que teve problema. Daniel Negreanu, jogador de pôquer profissional do Canadá, com mais de US$ 42 milhões ganhos, também ficou furioso com os problemas do software a ponto de pegar seu notebook e fingir golpeá-lo, xingando no site de streaming Twitch. (Ele é porta-voz do website chamado GGPôquer e mais tarde foi suspenso do Twitch por ameaçar de violência um comentarista on-line).

“Sou uma pessoa temperamental. Foi minha reação instintiva. Sei que agi como um idiota”, disse ele. A série trocou de website, o que levou a um tumulto real. Assim em agosto, quando a série passou do WSOP para o GGPôquer, os jogadores que ficaram nos Estados Unidos ficaram sem sorte especialmente porque os eventos mais lucrativos foram marcados para essa época, incluindo o principal com o prêmio mais alto, que, por uma taxa de inscrição de US$ 5 mil o jogador tinha a chance de ganhar um prêmio de US$ 3,9 milhões se chegasse em primeiro lugar. (A versão ao vivo do torneio no ano passado teve um pool de prêmios que era mais do que o dobro e um prêmio principal no valor de US$ 10 milhões, com uma taxa de inscrição de US$ 10 mil).

“Diante das restrições de viagem para e dos Estados Unidos, era impossível ter uma participação internacional, mesmo com os jogos on-line, sem uma terceira parte licenciada para atender esses clientes em seu mercado doméstico”, disse Stewart, da WSOP. E também seria um evento bem menor se permanecesse nos Estados Unidos.

O GGPôquer, lançado em 2017, está baseado no Canadá e na Irlanda, com autorização de receber apostas do Reino Unido, Malta e Curaçao, e pagou à WSOP uma taxa de licenciamento para hospedar o torneio. A partir de meados de agosto mais de 170 mil pessoas jogaram nos eventos internacionais. Konnikova não é uma delas porque recusou-se a pegar um avião por medo do coronavírus.

“Queria viajar para o Canadá. Se a fronteira estivesse aberta, teríamos ido”. O Canadá, ao lado de muitos outros países, não está admitindo a entrada de americanos por causa do número crescente de casos de coronavírus nos Estados Unidos. Algumas áreas do México permitem a vinda de americanos, mas apenas por avião, não por carro. Muitos dos mais conhecidos jogadores de pôquer, como Negreanu, Phil Hemuth, Maria Ho e o blogueiro Brad Owen foram de avião para Cabo San Lucas, no México.

Negreanu, que é canadense, poderia ter ido para o Canadá, mas ele e sua mulher preferiram a praia, de modo que alugaram um avião particular e foram de Las Vegas para Cabo San Lucas pois parecia a melhor e mais segura opção para o México. “Examinamos os dados sobre a covid e aquela cidade e vimos que era uma área muito menos afetada”, disse ele. “Há pouquíssimos países que autorizam nossa entrada”, disse Erik Seidel, um dos maiores jogadores de pôquer vistos até hoje, que desejava ir a Tóquio quando viu que o Japão não estava aceitando americanos.

Ele acabou indo para Londres, porque sua filha mora ali. Viajar para outros países para jogar em torneios não é algo raro no caso de jogadores profissionais, mas jogar na frente de uma tela de computador é inusitado. Jogar on-line, e não em uma sala junto com outras pessoas, também complica diante dos novos tipos de trapaças.

“Toda vez que você está on-line existe uma preocupação. As pessoas podem estar partilhando cartas ou terem alguém lhes aconselhando, ou usando software que diz a elas como jogar”. A série deixou muitos jogadores irritados com o fato de os Estados Unidos não terem legalizado o pôquer no plano federal.

No Twitter, jogadores sem recursos para viajar para o exterior falam de usar redes privadas virtuais, conhecidas como VPN, para tentar contornar as restrições de geolocalização e conseguirem jogar. “É um risco se você usar a rede VPN dos Estados Unidos e alguém vê-lo no supermercado em Chicago no dia seguinte. Se for pego terá seus fundos confiscados”.

“A lei dos Estados Unidos é burra, é estúpida. Eu não me importo de qual sofá você está jogando”; “A demanda é enorme. O pôquer é um jogo de habilidade”, disse Faraz Jaka, jogador profissional que voou de San Jose, Califórnia, para Cabo San Lucas no mês passado. “Quando houver mais medidas no sentido da legalização, não precisaremos rodar o globo para sentar na frente de um computador”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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