Felix Odell/The New York Times
Felix Odell/The New York Times

A pandemia expõe buracos no generoso estado previdenciário da Suécia

Décadas de cortes do orçamento e de reformas de mercado deixaram o caminho aberto para uma onda de óbitos nas casas de repouso suecas

Peter S. Goodmann e Erik Augustin Palm, The New York Times - Life/Style

08 de dezembro de 2020 | 05h00

Na imaginação popular, a Suécia não parece o tipo de país disposto a aceitar a mortalidade em massa dos avós para preservar recursos em uma pandemia.

Os suecos pagam alguns dos impostos mais altos da Terra em troca de amplos serviços do governo, inclusive casas de saúde e educação financiadas pelo Estado, mais um generosa ajuda em dinheiro aos que perderam o emprego. Quando uma criança nasce, os pais têm direito a 480 dias de licença para usarem juntos.

No entanto, entre os cerca de 6 mil óbitos relacionados ao coronavírus na Suécia até outubro, 2.694, ou mais de 45%, ocorreram  entre os cidadãos mais vulneráveis do país que residiam em casas de repouso.

Esta tragédia é em parte a história de como a rede de seguro social da Suécia, famosa pela generosidade, foi se degradando de maneira persistente ao longo dos anos.

A partir da crise financeira do início dos anos 90, a Suécia cortou os impostos e diminuiu os serviços financiados pelo Estado. Entregou a responsabilidade pela assistência aos idosos - principalmente os que vivem em suas próprias casas - a prefeituras dotadas de recursos escassos, abrindo ao mesmo tempo casas de repouso a empresas que só visam o lucro. Elas conseguiram economizar dependendo dos trabalhadores em tempo parcial e temporário, que costumam carecer de treinamento formal em medicina e na assistência aos mais velhos.

Foi assim que a equipe de enfermeiros da casa de repouso Sabbatsbergsbyn, no centro de Estocolmo, se viu às voltas com uma situação impossível.

Foi em meados de março, e vários dos seus 106 residentes, a maioria dos quais sofria de demência, já apresentavam sintomas de covid-19. Os funcionários teriam que ser separados por alas para impedir a transmissão. Mas quando a equipe apresentou seu plano aos superiores, eles o deixaram de lado, alegando um número pequeno do funcionários, disse uma enfermeira que não quis se identificar.

A clínica pertencia e era gerida pela maior operadora de casas de repouso, Attendo, que visa diretamente o lucro e cujas ações são negociadas na Nasdaq de Estocolmo. No ano passado, o faturamento da companhia foi superior a US$ 1,3 bilhão.

Nos finais de semana e nos turnos da noite, a enfermeira era muita vezes a única no trabalho. O restante da equipe não tinha equipamento de proteção adequado, disseram a enfermeira e uma ajudante, que também não quis se identificar. A administração havia fornecido as máscaras de papelão básicas - “as que usam os pintores de parede”,  disse a enfermeira - instruindo os funcionários a usar as mesmas dias a fio. Alguns usaram o plástico de pastas de arquivo e barbante para produzir seus próprios visores.

Quando a enfermeira se demitiu em maio, pelo menos 20 residentes haviam morrido, ela disse.

“A maneira como nós trabalhávamos ia contra tudo o que aprendemos na escola sobre controle de doenças”, afirmou a enfermeira. “Eu ficava envergonhada porque sabia que nós éramos os transmissores da doença”.

A vulnerabilidade em outra área foi determinante para a devastação. Nos últimos vinte anos, a Suécia  reduziu substancialmente sua capacidade hospitalar. Durante a pior fase do surto inicial, as pessoas mais velhas das casas de repouso não puderam ter acesso a hospitais pelo temor de superlotações.

Quando os residentes das casas de repouso apresentaram os sintomas de covid, as diretrizes vigentes em Estocolmo na fase inicial da pandemia encorajavam os médicos a prescrever remédios paliativos - e deixar de empreender esforços para salvar vidas em favor de manter as pessoas confortáveis em seus últimos dias - sem examinar os pacientes ou fazer exames de sangue ou de urina, disse o dr. Yngve Gustafson, professor de geriatria da Universidade Umea. Ele afirmou que esta prática equivalia a um suicídio assistido pelo médico, que é ilegal na Suécia.

“Como médico”, disse Gustafson, “sinto-me envergonhado pelo fato que certos médicos não fazem uma avaliação individual antes de decidir se o paciente deve ou não morrer”.

Nos Estados Unidos, cerca de 40% do total dos óbitos por coronavírus foram relacionados às casas de repouso, segundo um banco de dados do jornal The New York Times. Na Grã-Bretanha, foram atribuídas à covid diretamente as mortes de mais de 15 mil em casas de repouso, de acordo com dados oficiais.

Mas estes são países que se caracterizam por níveis extremos de desigualdade econômica. Calcula-se que 45 mil americanos morrem diariamente por falta de assistência médica, segundo um relatório. Os britânicos suportaram dez anos de uma austeridade punitiva que castigou o sistema nacional de saúde.

A Suécia é supostamente imune a tais perigos. No entanto, este país de apenas 10 milhões de habitantes foi devastado pelo coronavírus, com taxas de óbitos per capita tão elevadas quanto as dos EUA, Grã-Bretanha e Espanha, segundo mostram dados da Organização Mundial da Saúde.

Um fator que teria substancialmente aumentado os riscos foi a decisão da Suécia em evitar os lockdowns impostos em grande parte do restante da Europa para conter o vírus. O governo, embora tenha recomendado o distanciamento social, e muitas pessoas trabalhassem em casa, manteve as escolas abertas, assim como as lojas, os restaurantes e as casas noturnas. E não exigiu que as pessoas usassem as máscaras.

“Tem havido uma maior transmissão comunitária, e tem sido mais difícil impedir que penetre nas casas de repouso”, afirmou Joacim Rocklov, epidemiologista da Universidade Umea. “O tempo mais precioso que nós perdemos, o nosso erro, foi no começo”.

De acordo com os operadores das casas de repouso privadas na Suécia, os residentes foram as vítimas  do fracasso do governo em limitar a propagação do vírus.

“É uma transmissão comunitária total, este é o ponto fundamental”, afirmou Martin Tivéus, diretor executivo da Attendo, a companhia proprietária de Sabbatsbergsebyn em Estocolmo.

As investigações da mídia sueca concluíram que as casas de repouso privadas registraram menos mortes do que as públicas. Mas os especialistas afirmam que as casas privadas e públicas são governadas pela mesma força decisiva: as prefeituras administram as casas de repouso, e os contribuintes estão inclinados a pagar menos.

Durante dezenas de anos, gastos públicos agressivos foram a norma na Suécia, tornando o desemprego uma raridade. No início dos anos 90, as pessoas começaram a ter a sensação de que o Estado havia exagerado. De fato, estava subsidiando indústrias que não eram competitivas internacionalmente. Os salários subiam mais rapidamente do que a produtividade, provocando a inflação.

Em 1992, o banco central da Suécia elevou as taxas de juros a nada menos que 75% para asfixiar a inflação, impedindo ao mesmo tempo que a moeda nacional, a coroa, despencasse. No ano seguinte, em meio a uma restrição do crédito, a taxa de desemprego da Suécia subiu acima de 8%. A economia se contraiu, esvaziando as receitas tributárias dos municípios.

Isto ocorreu exatamente quando a esfera política passou a ser influenciada pelo pensamento de economistas como Milton Friedman, cujos princípios neoliberais confiavam na redução da ingerência do Estado e na redução dos impostos como fonte de dinamismo.

De meados dos anos 90 até 2013, a Suécia baixou o seu imposto principal sobre a renda de 84% para 54% eliminando ao mesmo tempo os impostos sobre a propriedade, a riqueza e a herança. A consequência direta foi uma queda da receita governamental equivalente a 7% da produção econômica do país

Segundo uma lei de 1992, a assistência aos idosos da Suécia passou da dependência de casas de repouso para a ênfase nos cuidados domiciliares. Parte da alteração foi filosófica. Os responsáveis pelas decisões abraçaram a ideia de que os mais velhos estariam melhor se pudessem desfrutar dos seus últimos anos de vida em suas casas, mais do que em ambientes institucionais.

Mas a mudança também foi motivada por imperativos orçamentários.

Como parte de sua economia, a Suécia gasta 3,2% ao ano com a assistência a longo prazo dos idosos, segundo a Organização da Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, em comparação a 0,5% nos EUA e 1,4% na Grã-Bretanha. Somente a Holanda e a Noruega gastam mais.

Mas os gastos agora se espalham entre uma população com mais necessidades. Como a norma agora são os cuidados domiciliares aos idosos, as casas de repouso são reservadas às pessoas mais velhas que sofrem  de doenças complexas.

A Attendo disse que tinha equipamentos de proteção suficientes para obedecer às diretrizes suecas mais do que as casas de repouso públicas, mas não tinha recursos suficientes para gerir a pandemia. Quando a companhia se deu conta de que precisava de mais, deparou-se com a escassez global.

“Levava de cinco a seis semanas para receber as encomendas fora da China”, disse Tivéus, o diretor executivo da Attendo.

A escassez nas casas de repouso suecas mostra até que ponto a matemática do orçamento prevalece em relação ao bem-estar social, afirmam os que observam a reformulação.

“O que esta pandemia fez foi revelar uma quantidade de erros do sistema que há anos estavam fora do radar”, disse Olle Lundberg, secretário-geral do Forte, um conselho de saúde que faz parte do Ministério da Saúde e Assuntos Sociais da Suécia.

“Nós dependemos totalmente da cadeia de produção global e das entregas de última hora. As seringas de que precisamos hoje deveriam ser entregues pela manhã. Não há margem de segurança. De certo modo, pode ser algo muito eficiente do ponto de vista econômico, mas é muito vulnerável. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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