Byron Smith/The New York Times
Byron Smith/The New York Times

Como a pandemia nos forçou a fazer um curso intensivo de incerteza científica

Por conta do rumo inesperado da crise do coronavírus, os americanos devem considerar novamente as reviravoltas na compreensão científica sobre o vírus

Apoorva Mandavilli, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2021 | 05h00

Quando o coronavírus surgiu no ano passado, ninguém estava preparado para sua invasão em todos os aspectos da vida diária por tanto tempo, de forma tão insidiosa. A pandemia forçou os americanos a lutar com escolhas de vida e morte todos os dias nos últimos 19 meses - e não há fim à vista.

A compreensão científica sobre o vírus muda a cada hora, ao que parece. O vírus se espalha apenas por contato próximo ou em superfícies contaminadas e, em seguida, é transmitido pelo ar. O vírus sofre mutações lentamente, mas em seguida surge em uma série de novas formas perigosas. Os americanos não precisam usar máscaras. Espere, eles precisam sim.

Em nenhum momento deste calvário o chão sob nossos pés pareceu tão incerto. Em agosto, autoridades federais de saúde disseram que começariam a oferecer doses vacinais de reforço a todos os americanos nos próximos meses. Dias antes, essas autoridades haviam garantido ao público que as vacinas continuavam seguras contra a variante delta do vírus e que essas doses não seriam necessárias.

Também em agosto, a Food and Drug Administration aprovou formalmente a vacina da Pfizer-BioNTech, que já foi dada a milhões de americanos. Alguns resistentes consideraram suspeito que a vacina não estivesse formalmente aprovada, apesar de amplamente distribuída. Para eles, “autorização de emergência” nunca pareceu suficiente.

Os americanos estão convivendo com a ciência à medida que ela se desenvolve em tempo real. O processo sempre foi fluido, imprevisível. Mas raramente se moveu nessa velocidade, confrontando os cidadãos com resultados da pesquisa assim que chegam na porta de entrada, um fluxo de entregas que ninguém pediu e ninguém quer.

Uma visita ao meu pai doente é muito perigosa? Os benefícios da educação presencial superam a possibilidade de danos físicos ao meu filho? Nossa reunião de família se transformará em um evento de alta disseminação?

Viver com um inimigo caprichoso tem sido perturbador até mesmo para pesquisadores, autoridades da saúde pública e jornalistas que estão acostumados com a natureza mutável da ciência. Eles também têm se angustiado freqüentemente pensando na melhor maneira de manter a si mesmos e seus entes queridos seguros.

Mas, para americanos frustrados, não familiarizados com o caminho tortuoso e muitas vezes contencioso das descobertas científicas, as autoridades de saúde pública parecem, às vezes, estar mudando os direcionamentos e invertendo, ou enganando, e até mesmo mentindo para o país.

Na maioria das vezes, os cientistas estão “avançando de uma forma muito gradual”, disse Richard Sever, diretor assistente da Cold Spring Harbor Laboratory Press e fundador de dois sites populares, o bioRxiv e o medRxiv, onde os cientistas publicam novas pesquisas.

“As pessoas percorrem becos sem saída e, na maior parte do tempo, você não sabe o que não sabe.”

Biologia e medicina são campos particularmente exigentes. As ideias são avaliadas por anos, às vezes décadas, antes de serem aceitas.

Os pesquisadores primeiro elaboram a hipótese e, em seguida, projetam experimentos para testá-la. Os dados de centenas de estudos, geralmente obtidos por equipes concorrentes, são analisados antes que a comunidade de especialistas chegue a uma conclusão.

Nesse ínterim, os cientistas apresentam as descobertas a seus colegas, geralmente em conferências de nicho que são proibidas para jornalistas e para o público em geral, e aprimoram suas ideias com base no feedback que recebem. Não é incomum ver os participantes dessas reuniões apontarem - às vezes duramente - todas as falhas nos métodos ou conclusões de um estudo, mandando o autor de volta ao laboratório para mais experimentos.

Quinze anos se passaram desde a descrição dos primeiros casos de HIV até a identificação de duas proteínas de que o vírus precisa para infectar as células, uma descoberta fundamental para a pesquisa da cura. Mesmo depois de um estudo ter alcançado uma conclusão satisfatória, ele deve ser submetido a uma revisão rigorosa em uma revista científica, que pode acrescentar um ano ou mais antes que os resultados se tornem públicos.

Medido nessa escala, os cientistas se familiarizaram com o coronavírus na velocidade da luz, em parte acelerando mudanças que já estavam em andamento nesse processo.

Resultados de tratamento, modelos epidemiológicos, descobertas virológicas - a pesquisa sobre todos os aspectos da pandemia aparece online quase tão rapidamente quanto os autores podem terminar seus manuscritos. Os estudos “Preprint” são dissecados online, principalmente no Twitter, ou em e-mails entre especialistas.]

O que os pesquisadores não fizeram é explicar, de uma forma que qualquer pessoa comum possa entender, que é assim que a ciência sempre funcionou.

As divergências e os debates realizados em público, ao invés de em conferências obscuras, dão a falsa impressão de que a ciência é arbitrária ou que os cientistas estão inventando coisas à medida que avançam.

“O que um não-cientista ou leigo não percebe é que há uma grande quantidade de informações e consenso sobre os quais as duas pessoas que estão discutindo concordarão”, disse Sever.

É realmente tão surpreendente, então, que os americanos se sintam confusos e desorientados, até mesmo enfurecidos, com a rápida mudança de regras que têm profundas implicações em suas vidas?

As agências federais têm uma tarefa nada invejável: criar as diretrizes necessárias para convivermos com um vírus desconhecido que se espalha rapidamente. Mas as autoridades de saúde não reconheceram com clareza ou com frequência suficiente que suas recomendações podem - e muito provavelmente mudariam - à medida que o vírus e seu conhecimento sobre ele evoluem.

“Desde o início desta pandemia, tem sido um trabalho péssimo, para dizer da melhor maneira”, disse a Dra. Syra Madad, epidemiologista de doenças infecciosas do Belfer Center para Ciência e Assuntos Internacionais da Universidade de Harvard.

Os líderes dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha prometeram muito cedo demais e tiveram que voltar atrás. As autoridades de saúde falharam na elaboração de alterações nos conselhos como algo necessário conforme os cientistas aprendem mais sobre o vírus.

E as autoridades não definiram realmente o fim da pandemia - por exemplo, que o vírus finalmente diminuirá seu domínio assim que as infecções caírem abaixo de uma certa marca.

Sem um objetivo claramente delineado, pode parecer que as autoridades estão pedindo às pessoas que desistam de suas liberdades indefinidamente.

Um retrocesso chocante foi a orientação do uso de máscara pelos Centers for Disease Control and Prevention (CDC). A agência disse em maio que as pessoas vacinadas poderiam tirar suas máscaras, conselho que ajudou a preparar o terreno para uma reabertura nacional. As autoridades não enfatizaram, ou pelo menos não o suficiente, que as máscaras poderiam ser necessárias novamente. Agora, com um novo surto de infecções, elas são.

“Pode ser muito difícil para a percepção e compreensão do público quando essas grandes organizações parecem inverter as coisas de uma forma que não é muito clara”, disse Ellie Murray, comunicadora científica e especialista em saúde pública da Universidade de Boston.

Tanto a informação quanto a desinformação sobre a covid-19 aparecem online, especialmente nas redes sociais, muito mais agora do que em crises anteriores de saúde pública. Isso representa uma oportunidade poderosa para preencher as lacunas de conhecimento de muitos americanos.

Mas as autoridades de saúde não tiraram o máximo proveito desse fato. O feed do Twitter do CDC é um fluxo robótico de anúncios. Os especialistas em agências precisam não apenas enviar mensagens, mas também responder perguntas sobre como os fatos em evolução se aplicam à vida dos americanos.

E as autoridades de saúde precisam ser mais ágeis, para que mal intencionados não definam a narrativa enquanto a orientação real fica atrasada por conta de uma burocracia tradicionalmente pesada.

“Eles não estão se mexendo na mesma velocidade que esta pandemia”, disse Murray. “Isso obviamente cria uma percepção no público de que você não pode simplesmente confiar nas fontes de notícias mais oficiais.”

A estrada a percorrer será difícil. O vírus reserva mais surpresas, e os mitos que já se arraigaram serão difíceis de apagar. Mas não é demais esperar que as lições aprendidas nesta pandemia ajudem os especialistas a explicar futuros surtos de doenças, assim como outros problemas urgentes, como as mudanças climáticas, em que ações individuais contribuem para o todo.

O primeiro passo para educar o público e ganhar sua confiança é fazer planos e depois comunicá-los honestamente - as falhas, as incertezas e tudo. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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