Meghan Dhaliwal/The New York Times
Meghan Dhaliwal/The New York Times
Natalie Kitroeff, The New York Times - Life/Style

19 de fevereiro de 2021 | 05h00

CIDADE DO MÉXICO - Um forninho elétrico talvez não seja o eletrodoméstico ideal para começar uma confeitaria como deve ser, mas estamos no meio de uma pandemia, e cada um faz o melhor que pode com o que tem. E o que dois artistas da Cidade do México tinham era um forninho elétrico que custou US$ 42.

“Estávamos quebrados”, disse Andrea Ferrero, as mãos enfiadas em uma tigela com massa para bolo. “Compramos a crédito”.

Assim como as legiões de outras pessoas no mundo todo presas em razão do fechamento do coronavírus, Andrea e seu namorado, David Ayala-Alfonso, começaram a cozinhar há vários meses para fugir do tédio interminável.

E se revelaram muito bons nessa nova atividade.

Então começaram uma conta no Instagram, Cuarentena Baking, para mostrar os seus produtos, biscoitos, bolos e rosquinhas. Desde então, conseguiram centenas de clientes. Com um negócio viável, mudaram-se do apartamento apertado para um lugar maior - com um forno de verdade.

O sucesso da dupla, uma rara notícia animadora em um país devastado pelo coronavírus, é uma demonstração do poder da cozinha como estratégia de sobrevivência na capital do México, obcecada pela comida.

 

Antes da chegada do vírus as ruas da Cidade do México já estavam repletas de bancas de tacos, de pessoas que serviam tamales de bicicleta, e carrinhos que ofereciam batatas doces assadas ou milho na espiga, lambuzados de maionese, queijo e chili em pó. A pandemia e a consequente perda de milhões de empregos em todo o país levou um número muito maior de pessoas a tentar sobreviver vendendo o produto de sua cozinha.

“No México, a cozinha de uma pessoa é o seu lar, e a comida de rua é o lar que uma pessoa leva para a rua”, disse Pati Jinich, chef mexicana e autora de um livro de culinária. “Pois pessoas sem nenhum recurso podem fazer a comida que as alimentou desde a infância ou que aprenderam a preparar - ou apenas a única coisa que elas tinham”.

Em toda a cidade, simplesmente brotaram as chamadas cozinhas fantasmas - montadas para fazer comida exclusivamente para delivery, cuja preparação muitas vezes é feita nos apartamentos das próprias pessoas.

Quando o negócio dos restaurantes familiares perdeu força na capital, Jonathan Weintraub e seu irmão Gabriel começaram a vender sanduíches de pastrami, que chamaram “Schmaltzy Bros Delicatessen”. Depois  que foi demitida, Fahrunnisa Bellak passou a fazer bagel em tempo integral, e agora está abrindo uma vitrine.

Encorajado pela esposa, Pedro Reyes, que escrevia sobre comida, decidiu embalar e vender a sua popular salsa macha, um molho picante com nozes. Segundo afirmou, o seu empreendimento tem um mercado natural na Cidade do México, onde as conversas costumam girar em torno de comida.

“A maioria das pessoas aqui gosta de comer bem e gaba-se de saber onde comer”, disse Reyes. “Isto ajuda as pessoas a abrir estas pequenas empresas, e poder dizer: “Quero comprar estes biscoitos desse sujeito e paella daquele outro”.

A popularidade da Cuarentena Baking tem muito a ver com a conta no Instagram, e todos os dias apresenta close-ups dos produtos preparados pelos proprietários, como recheios cremosos para brownies ou escorrendo dos seus bolos. Em vez de fazer publicidade como se tratasse de um luxo fora do alcance e dar asas à imaginação, ela oferece algo acessível ao consumidor por US$ 1,75 para gastar com um pouco de pura alegria.

Inicialmente, o casal postava imagens apenas para os amigos, que enviavam tequila ou húmus caseiro em troca de algumas amostras. Então os amigos dos amigos começaram a fazer encomendas.

Alguém pediu um cardápio, então eles inventaram um que incluía rosquinhas e outras massas e depois bolos e brownies. Além dos pães de fermentação natural, o casal nunca tinha feito nenhuma das outras guloseimas antes da quarentena. No começo, tudo além dos bolos era assado no forninho.

A mudança para o novo apartamento permitiu ao casal um pouco mais de controle sobre a loucura que é operar uma confeitaria em casa durante uma crise de saúde global.

“Eu costumo planejar obsessivamente”, disse Andrea Ferrero. “E depois, é o caos”.

Andrea, originária do Peru, é escultora, e Ayala-Alfonso, nascido na Colômbia, é um curador - profissões que são, pelo menos tangencialmente, relacionadas à construção de estruturas de massa e à criação de um  objeto visualmente atraente no Instagram.

Mas a sua transformação em confeiteiros profissionais não se deu sem acidentes.

Eles experimentaram com vários fornos, enviaram incontáveis encomendas incompletas ou atrasadas, e, uma vez, uma pessoa desapareceu com vários brownies e um cheesecake que deveria entregar. Eles acabam constantemente sem ingredientes.

Nos últimos meses, contou Ayala-Alfonso, andaram trabalhando para aperfeiçoar a sua arte, buscando no YouTube vídeos sobre “como fazer um bolo”, e “por que o meu bolo murcha”, ou “qual é a diferença entre bicarbonato de sódio e fermento em pó”. Recentemente, contrataram uma amiga artista, Yorely Valero, para ajudar a administrar a montanha de encomendas alguns dias por semana.

Eles criaram uma intimidade especial com os clientes. As pessoas pedem que eles escrevam sobre as caixas de brownies mensagens de amor para os apaixonados.

Uma cliente regular pediu a Andrea que não desenhasse os costumeiros corações que são a sua marca sobre uma caixa que deveria ser entregue como presente para o aniversário de seis meses a um namorado, porque poderia assustá-lo. “Eu disse: ‘Certo, boa sorte!’ “ disse Andrea.

“A gente está interagindo muito mais na mídia social por causa da quarentena, as pessoas gostam mesmo de conversar conosco”, observou Ayala. “A nossa conta serve como uma linha de apoio”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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