Andrea Mantovani/The New York Times
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Prefeito de cidade francesa causa polêmica ao anunciar merenda escolar sem carne

Alguns parlamentares franceses criticaram a decisão, que o prefeito diz ter sido tomada apenas para simplificar o horário do almoço durante a pandemia

Roger Cohen, The New York Times - Life/Style

09 de abril de 2021 | 05h00

LYON, França – Grégory Doucet, o polido prefeito de Lyon pertencente ao Partido Verde, não chega a parecer um revolucionário. Mas ele abalou a França ao anunciar em fevereiro que os cardápios de merenda para as 29 mil crianças das escolas do ensino fundamental da cidade deixarão de incluir carne.

Um verdadeiro ultraje! Trata-se de uma ordem de caráter ecológico que poderá assinalar o fim da gastronomia francesa, quando não da própria cultura francesa! Os ministros do governo do presidente Emmanuel Macron se revoltaram. Se Lyon, a cidade famosa pelo focinho de boi e pelas orelhas de porco, das linguiças e dos rins, fizer algo do tipo, o fim do mundo deverá estar próximo.

“A reação tem sido realmente espantosa”, afirmou Doucet, 47. “A minha decisão foi puramente pragmática”, insistiu, piscando nervosamente – apenas uma maneira de acelerar os almoços em tempos de distanciamento social oferecendo um único cardápio em lugar dos tradicionais dois pratos.

Não é bem assim, vociferou Gérald Darmann, o ministro do Interior. Ele tuitou que abandonar a carne constitui  “um insulto inaceitável aos produtores e aos açougueiros franceses” que revela uma atitude “elitista e moralista”. Julien Denormandie, o ministro da Agricultura, definiu a adoção do almoço sem carne do prefeito algo “vergonhoso do ponto de vista social”, “e aberrante do ponto de vista da nutrição”.

Tudo isto fez com que a ministra da Transição Ecológica, Berbara Pompili, falasse das posições “pré-históricas”, repletas de “clichês banais” destes homens, que foi o mesmo que chamar os seus dois colegas de gabinete de neandertais.

Isto contribuiu para esquentar o debate a respeito de algumas coisas pouco claras do governo e do partido de Macron, A República em Marcha, que constitui um casamento difícil da direita e da esquerda. A crescente popularidade dos Verdes, que governam não apenas Lyon, mas também Bordeaux e Grenoble, acentuou o choque cultural entre os que lutam por um ambiente urbano e os defensores da tradição francesa do campo.

Além disso, nada é mais indigesto para o francês do que o desentendimento na questão da comida.

É preciso lembrar que o prefeito lançou a medida em uma cidade com uma intensa tradição gastronômica.  

Na Boucherie Française, nas margens do Ródano, um estabelecimento centenário, a cultura da carne de Lyon está plenamente exposta. O fígado e os rins de vitela brilham atrás dos vidros, cortes de carne bovina assada envolvida em gordura de porco são abundantes; as linguiças, algumas com pistaches, assumem formas cilíndricas; o patê em um invólucro de massa revela um recheio de foie gras; e pés e orelhas de porco testemunham as inclinações carnívoras da cidade.

“O prefeito comete um erro”, disse François Teixeira, um açougueiro que trabalha na França há 19 anos. “Isto não é nada bom para a imagem de Lyon”.

Certamente, o anúncio do prefeito chegou em um momento muito sensível. A direita na França expressou indignação pelo fato de o país estar sendo forçado por um regime militaresco, por meio de um dogmatismo ambiental politicamente correto, rumo a um futuro de bicicletas, carros elétricos, a uma dieta vegana, a alimentar-se exclusivamente de produtos locais, ao crescimento negativo para salvar o planeta, e a uma falta de alegria geral – muito distante da prática de engordar gansos à força para deleite pessoal.

Segundo Doucet, que se define um “flexitarista”,  uma pessoa a favor dos vegetais, mas que também come um pouco de carne, o Ministério da Educação forçou a mão. Dobrar a distância social nas escolas para 2 metros, obrigou o prefeito a acelerar o almoço oferecendo apenas um prato.

“Há uma equação matemática”, afirmou. “Você tem o mesmo número de mesas, mas deve acomodar  menos crianças nelas, e não pode começar a pausa para o almoço às 10 da manhã”.

Mas por que motivo abolir a carne? O prefeito, que tem um fiho de 7 anos no fundamental,  revira os olhos. “Não passamos diretamente para um cardápio vegetariano! As crianças podem comer peixe ou ovos diariamente.” Como um número considerável de estudantes já não comia carne, prosseguiu, “escolhemos apenas o menor denominador comum”.

Não se tratou, segundo Doucet, de uma decisão ideológica, embora ele pretenda que ao longo do seu mandato de seis anos o cardápio da escola chegue a “uma proporção maior de proteínas vegetais”.

E continuou: “Na maior parte do tempo, atualmente, não temos muitas escolhas. Não temos mais a opção de ir a um museu, ao teatro, ao cinema. É indecente que a oposição da direita diga que eu estou menosprezando as nossas liberdades no contexto de um estado de emergência”.

Macron adotou uma medida equilibrada entre a adesão a um futuro Verde e, como afirmou no ano passado, a rejeição do “modelo amish” para a França.

Lançando a sua grande rede, como sempre antes das eleições regionais de junho, o presidente pretende apelar para os produtores agrícolas conservadores atraindo, ao mesmo tempo, alguns votos dos Verdes. Em uma recente visita a uma fazenda, ele criticou asperamente as tentativas de criar uma nova agricultura baseada em “invectivas, proibições e demagogia”. E, uma aparente alusão ao fiasco de Lyon, afirmou que “o bom senso” deveria predominar nas dietas equilibradas para as crianças, observando: “Perdemos muito tempo em divisões idiotas”.

O seu governo propôs uma emenda constitucional, a primeira desde 2008, que, se aprovada em um referendo, reforçaria a ideia de que a França “garante a preservação da diversidade ambiental, biológica e luta contra a mudança climática”.

A direita expressou a sua oposição à mudança, que ainda deverá ser revista pelo Senado de tendência direitista. Outro projeto de lei estabelece possíveis reformas para um futuro mais verde que incluem a proibição da publicidade dos combustíveis fósseis e a eliminação de alguns voos domésticos de curta distância.

Doucet não se deixa impressionar.

“Macron não é um ecologista. Ele é um conservador moderno”, afirmou. “Ele sabe que existe um problema, por isso está disposto a fazer algumas mudanças, mas ele não mede o tamanho do problema. Pode me indicar uma medida forte que ele já tenha tomado?”

Por enquanto, o almoço sem carne continua sendo servido nas escolas de Lyon. As crianças não têm reclamado. Em março, um tribunal administrativo de Lyon rejeitou uma tentativa de alguns pais, sindicatos agrícolas e políticos conservadores locais de derrubar a decisão do prefeito, determinando que “a simplificação temporária” da escola não representa um risco para a saúde das crianças. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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