Lauren Fleishman / The New York Times
Lauren Fleishman / The New York Times

Animais se aproveitam da falta de turistas em mansão inglesa durante a pandemia

Propriedade que foi local das filmagens de 'Wolf Hall' esteve fechada para visitantes durante grande parte do ano passado, mas apenas a visitantes humanos, na verdade

Peter Wilson, The New York Times - Life/Style

08 de abril de 2021 | 05h00

SOMERSET (Inglaterra) - Uma coisa foi quando veados começaram a vagar ao redor da mansão pela primeira vez em décadas e uma família de doninhas apareceu nas margens de seu fosso. Mas, quando uma colônia de morcegos passou a residir no telhado de Barrington Court, ficou claro que os lockdowns do coronavírus no Reino Unido estavam causando mudanças profundas na mansão Tudor repentinamente tranquila no condado de Somerset, cerca de 200 quilômetros a sudoeste de Londres.

"Ficamos muito surpresos ao encontrar excrementos de morcego na casa principal, já que o local sempre foi muito barulhento e ativo para que os morcegos se instalassem", disse Keith Weston, gerente de operações da casa e de seus 32 hectares.

O lockdown da pandemia trouxe algumas surpresas para a pequena equipe que tenta proteger a casa de 480 anos, que serviu de cenário para a série de TV Wolf Hall, baseada nos livros de Hilary Mantel sobre a corte de Henrique VIII.

Propriedade movimentada, que normalmente atrai mais de 120 mil visitantes por ano, Barrington Court não ficava tão tranquila havia pelo menos um século. Mesmo durante a Segunda Guerra Mundial, a casa principal, elegante construção de pedra calcária cor de mel, permaneceu ocupada e serviu de refúgio para estudantes evacuados de uma cidade litorânea em Kent, por medo de uma possível invasão.

A rara ausência de seres humanos abriu caminho para outros visitantes que teriam sido comuns nos primórdios da propriedade, quando ela contava com um parque de cervos medieval. "Moro e trabalho aqui há mais de 40 anos e nunca tinha visto veados no pomar da ala leste, bem ao lado da casa. É uma família de cinco animais, que normalmente fica na floresta ou na zona rural. De uma hora para a outra, como não havia trânsito de pessoas nem de aviões no céu, os animais silvestres ficaram mais ousados e começaram a vir direto para o meio da propriedade", contou Christine Brain, a jardineira-chefe.

Quando a propriedade foi fechada pela primeira vez, em março do ano passado, as toupeiras, os texugos e as raposas que normalmente são vistos no local se tornaram mais ativos, e logo se juntaram a eles arminhos, furões, doninhas e novas aves.

A casa ainda está fechada, assim como os vários prédios menores, parques e campos, deixando as visitas humanas restritas a passeios de fim de semana nos 3,6 hectares de jardins elaborados, onde houve muitas outras mudanças.

"Temos mariposas Jersey que eu nunca tinha visto aqui e orquídeas selvagens surgindo de repente em áreas em que não conseguimos cortar a grama", disse Brain, que é jardineira-chefe desde 1978, mas nunca teve tanto trabalho como durante o lockdown, quando a maioria dos cerca de 20 funcionários da equipe foram colocados em licença. Weston, o gerente de operações, teve de se mudar com a família de sua casa em Yeovil para uma das casas menores na propriedade, para ajudar com a carga de trabalho. "O dinheiro havia acabado e só podíamos fazer o que era essencial, como controlar as ervas daninhas e impedir que as plantas saíssem do controle", comentou Brain.

A perda de pessoal e de financiamento obrigou a equipe a replantar, em vez de comprar novas mudas, sempre às 6h30 da manhã, para evitar o calor de um verão excepcionalmente quente.

Weston corta grama com um trator e ajuda a patrulhar a propriedade, afastando as gralhas que fizeram ninho nas chaminés da casa principal e verificando a segurança contra incêndios e a segurança geral. (Os telhados de chumbo de cinco igrejas locais foram roubados durante o lockdown.)

A equipe reduzida também teve de colocar baldes sob as goteiras dentro da casa de dois andares e monitorar o calor e a umidade para ajudar a preservar os interiores e os painéis de madeira, de valor inestimável. Uma pesquisa de casas inglesas históricas fechadas ao público em 2020 descobriu um aumento de 11% no número de mariposas e outros insetos que representam uma ameaça a tapetes e tapeçarias, levando os funcionários de Blickling Hall, propriedade em Norfolk, a introduzir pequenas vespas que atacam ovos de mariposa (na esperança de reduzir sua população).

Entre os muitos visitantes de Barrington Court antes da pandemia estavam inúmeros turistas norte-americanos atraídos pela história medieval da propriedade e por sua conexão com a adaptação dos romances de Mantel para a TV.

Algumas das cenas mais importantes foram filmadas aqui em 2014, e a morte do cardeal Wolsey foi realizada em uma sala logo depois da entrada principal da casa. O terreno era usado para representar os passeios do rei no Windsor Great Park.

A propriedade remonta pelo menos ao século XI, mas a casa atual foi construída a partir de 1538 por Henry Daubeney, que teria vivido por algum tempo na infância com o jovem Henrique VIII. Daubeney foi nomeado conde pelo rei Henrique, mas caiu em desgraça depois de se envolver na queda da quinta esposa do rei, Catherine Howard, em 1541.

O enorme custo de manutenção da propriedade ajudou a levar Daubeney à falência e tem sido um problema constante para os proprietários subsequentes. No início do século XX, estava quase abandonada, com um agricultor que arrendava as terras morando em uma ala e suas galinhas e seu gado em outra.

A construção foi resgatada em 1907 pelo National Trust, a instituição inglesa que mantém o patrimônio histórico do país; Barrington Court foi sua primeira aquisição de uma casa de campo e jardim. O portfólio do National Trust agora inclui 200 propriedades desse tipo, mas, no início, os custos paralisantes de manutenção de Barrington Court quase convenceram a organização a ficar longe das mansões.

A salvação veio em 1920, com o coronel Arthur Lyle, da refinadora de açúcar Tate & Lyle, que tinha o hobby incomum de colecionar painéis de madeira antigos e interiores de castelos e grandes casas. Lyle estava procurando uma casa que pudesse guardar seus tesouros, e Barrington Court, que estava arruinada, era o lugar ideal. "Tivemos sorte, porque ele colecionava painéis de madeira em vez de selos", disse Weston.

A família Lyle assinou um contrato de arrendamento por 99 anos e gastou uma fortuna na propriedade, enchendo a casa principal com relíquias, como uma porta de monastério esculpida com ornamentos, a escadaria de um castelo escocês e salas e salas com painéis medievais. Os retoques feitos pela família incluem um pomar, uma horta e três jardins murados plantados em 1925, com a ajuda da designer Gertrude Jekyll, influência lendária na jardinagem da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos. (O sobrenome de Jekyll é conhecido até mesmo para pessoas que não são ligadas à jardinagem, já que seu irmão mais novo, Walter, era amigo de Robert Louis Stevenson, que pegou o sobrenome emprestado ao escrever o livro O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde.)

Com quase 80 anos e problemas de visão, Jekyll não podia viajar para Barrington. Em vez disso, mandava trazer para sua casa, em Godalming, Surrey, a 200 quilômetros de distância da propriedade, latas de biscoitos com solo de várias partes dos jardins, para que pudesse sentir o solo com os dedos e dizer quais plantas seriam melhores para cada parte dos jardins.

Atualmente com 63 anos, Brain foi contratada pela família Lyle aos 21 anos para liderar a equipe de jardinagem da propriedade, constituída de seis pessoas. Continuou trabalhando no local quando a família Lyle devolveu o arrendamento ao National Trust, em 1991. Embora o lockdown tenha ajudado a recuperar o solo, ao forçar uma redução no plantio, a equipe reduzida não teve tempo para descansar, segundo ela: "O jardim está sempre em constante estado de deterioração, lutando para voltar ao seu estado natural; por isso, se você negligenciar uma macieira por apenas um ano, ela pode se tornar um pesadelo. Tivemos de fazer o máximo de trabalho possível por conta própria e atrasamos um pouco os trabalhos de conservação e reparos."

Para Brain, manter a propriedade durante a pandemia tem sido uma verdadeira batalha, mas também uma grande diversão. "A vida selvagem obviamente gostou, mas nós também. Nenhum de nós vai se esquecer deste momento."

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