Brittainy Newman/The New York Times
Brittainy Newman/The New York Times

Como a pandemia está mudando nossa prática de exercícios físicos

Muitos de nós estão se movimentando menos desde o início da pandemia. Mas outros, inclusive muitos idosos, estão se movimentando mais

Gretchen Reynolds , The New York Times - Life/Style

19 de outubro de 2020 | 05h00

Você está se exercitando menos ou mais desde o começo da pandemia do coronavírus? Segundo um novo estudo sobre atividade física realizado na Grã-Bretanha, a maioria das pessoas – e isto não deve surpreender – têm estado menos ativa fisicamente desde o início da pandemia.

No entanto, algumas pessoas, estão se exercitando muito ou mesmo mais do que antes, e supreendentemente, uma elevada porcentagem tem mais de 65 anos. As conclusões do estudo ainda não foram revistas, mas acrescentam consideráveis evidências de todas as partes do mundo de que o coronavírus está modificando a maneira como nos movimentamos, embora não necessariamente de acordo com o que prevíamos.

Os lockdowns por causa da pandemia e as outras medidas de contenção dos últimos seis meses, e quem sabe até quando durarão, alteraram quase todos os aspectos da nossa vida, afetando o trabalho, a família, a educação, o humor, as expectativas, as interações sociais e a saúde.

Nenhum de nós deveria se surpreender então, ao saber que a pandemia também pode ter transformado os nossos hábitos quanto a se, quando e como devemos nos exercitar. Entretanto, a natureza destas mudanças continua muito confusa e mutável, segundo vários estudos recentes.

Em um dos últimos, os pesquisadores afirmam que nas primeiras semanas depois do início dos fechamentos impostos nos Estados Unidos e em outras nações, as buscas no Google relacionadas ao termo “exercício” registraram um pico e continuaram elevadas durante meses.

E, ao que consta, muitas pessoas usam as informações obtidas com estas buscas exercitando-se realmente mais. Uma pesquisa online realizada em 139 países pela RunRepeat, uma companhia que analisa os tênis usados na corrida, mostrou que a maioria das pessoas que costumavam exercitar-se antes do início da crise sanitária informaram que se exercitavam mais frequentemente nas primeiras semanas.

Uma pesquisa separada que ouviu quase 1.400 adultos japoneses verificou que, na grande maioria, eles disseram que permaneceram inativos nas primeiras semanas dos fechamentos, mas em junho, estavam caminhando e exercitando-se como sempre. No entanto, um estudo menos otimista de junho, que usou dados anônimos de mais de 450 mil usuários de um aplicativo de contagem de passos do smartphone, concluiu que, em todo o mundo, os passos diminuíram consideravelmente depois do início dos fechamentos.

Os passos médios diários declinaram cerca de 5,5% nos primeiros dez dias de fechamentos em um país, e em cerca de 27% no final do primeiro mês. Mas a maioria destes estudos e pesquisas se baseava em pessoas que lembravam dos seus hábitos referentes aos exercícios físicos, possivelmente não ser tão confiáveis, ou considerou resultados agregados, sem analisar as diferenças por idade, grupo socioeconômico, gênero e outros fatores, que poderiam mostrar variações importantes das mudanças dos hábitos das pessoas durante a pandemia.

Portanto, para o novo estudo, que ainda não foi revisto pelos pares, os pesquisadores do University College de Londres recorreram aos dados de um aplicativo de smartphone que acompanha a atividade física na Grã-Bretanha e em outras nações.

O aplicativo usa GPS e outras tecnologias para assinalar por quantos minutos as pessoas caminharam, correram ou pedalaram, e permite que os usuários acumulem pontos de exercício que podem ser usados para prêmios monetários ou de outro tipo. (Um dos autores do estudo trabalha para a indústria fabricante do aplicativo, mas a companhia não forneceu informações sobre os resultados ou análise da pesquisa, segundo outros autores do estudo.)

Os pesquisadores reuniram dados anônimos de 5.395 usuários do aplicativo que vivem na Grã- Bretanha cuja idade varia de adolescentes a idosos. Todos eles usavam o aplicativo desde pelo menos janeiro de 2020, antes que a pandemia se alastrasse naquele país. Os pesquisadores usaram os dados do aniversário dos usuários e os códigos de área para dividir as pessoas por idade e local e saber quanto haviam se exercitado em janeiro.

Em seguida, começaram a fazer comparações, primeiramente com os primeiros dias das restrições de distanciamento social em várias partes da Grã-Bretanha, depois com o fechamento mais rigoroso que se seguiu e, por fim, com os dados de julho-agosto quando a maior parte dos fechamentos do país foi flexibilizada. Não surpreende que tenha sido constatado que quase todos os hábitos mudaram quando a pandemia começou.

A grande maioria trabalhou menos, principalmente quando começou o fechamento total – independentemente do gênero ou da situação socioeconômica. A queda foi mais acentuada entre as pessoas que eram mais ativas antes da pandemia e entre as pessoas até os 40 anos de idade (que nem sempre eram a mesma pessoa). Depois que os fechamentos cessaram ou foram flexibilizados, a maioria das pessoas começou a se exercitar um pouco mais frequentemente, mas, em geral, apenas as de idade acima dos 65 anos voltaram aos minutos de exercitação anteriores ou os superaram.

Os resultados são surpreendentes, afirma Abi Fisher, professora adjunta de atividade física e saúde do University College de Londres, que supervisionou o novo estudo, “principalmente porque 50% do grupo de mais idade tinha mais de 70 anos”. Evidentemente, estas pessoas idosas, como os outros homens e mulheres do estudo, usaram um aplicativo de exercício físico, o que os distingue da vasta maioria de pessoas em todo o mundo que não usa estes aplicativos.

O estudo analisou também exercícios “formais” como caminhar, correr ou pedalar e atividades não mais leves como passear ou dedicar-se à jardinagem, que também podem beneficiar a saúde, e mais provavelmente também mudaram durante a pandemia. O estudo não mostra por que motivo os hábitos em matéria de exercício diferiram durante a pandemia, embora de certo modo, uma mescla de circunstâncias e psicologia possa ser um fator.

Pessoas idosas provavelmente tinham mais tempo livre para se exercitar do que os adultos jovens que também precisam cuidar de crianças pequenas, trabalhar, e têm outras responsabilidades durante a pandemia, afirma Fisher. Eles também podem ter tido outro tipo de preocupações, como sobre o seu sistema imunológico e a saúde em geral, fazendo com que levantassem e se mexessem.

“Embora nãos seja uma surpresa o fato de os fechamentos conturbarem os esquemas de exercícios físicos das pessoas”, disse Fisher, “não podemos simplesmente pressupor que todos voltarão quando as restrições acabarem. Precisamos ajudar as pessoas a voltar aos seus exercícios regulares, evidentemente dentro nos limites das atuais restrições impostas pela pandemia”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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