Nadia Shira Cohen/The New York Times
Nadia Shira Cohen/The New York Times

Festas de casamento estão de volta, e fabricantes de doces da Itália comemoram

Os doces de amêndoas cobertas de açúcar, conhecidos como ‘confetti’, são os favoritos das noivas, e também do Vaticano

Jason Horowitz, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2021 | 05h00

SULMONA, Itália - Os funcionários cobriram com água açucarada as amêndoas que tostavam em bacias giratórias de cobre. Em seguida, as fizeram tombar em grandes cubas de chocolate, recolheram os cuspidos pelas máquinas empacotadoras e encheram caixas com doces brancos, azuis, rosa e verdes.

À medida que a Itália retira a proibição das festas de casamento que dura mais de um ano, a produção de confettis - tradicionais doces de amêndoa recoberta de açúcar que as noivas distribuem aos convidados - volta com toda força, e em Sulmona inteira está havendo uma corrida ao açúcar.

“Estamos no caminho”, disse Mario Pelino, cuja fábrica de confettis, a Confetti Pelino, parece a fábrica Wonka no fértil vale do Abruzzo - empoleirado nos altos montes Apeninos.

Sulmona é o local de nascimento de Ovídio, o poeta da Roma antiga que escreveu A arte de amar. Talvez tenha se destacado como ponto de cruzamento das grandes migrações de ovelhas da Itália. É também maravilhosa para caminhadas, e alho vermelho especial. Mas a maioria dos italianos a conhece particularmente como a pátria dos confettis, o berço ancestral das lembrancinhas distribuídas nas festas de casamento, às vezes conhecidas como amêndoas da Jordânia, amadas no sul da Itália e pelas avós italianas em toda parte.

Recentemente, as lojas de doces ao longo do Corso Ovídio estavam floridas com buquês coloridos de confettis, embrulhados em plástico colorido e amarrados juntos para que as amêndoas parecessem pétalas de girassóis, margaridas e açafrões. Os lojistas encheram saquinhos plásticos transparentes com as tradicionais amêndoas super doces em vista dos próximos casamentos. As futuras noivas estão prontas para a temporada dos confettis.

“Dê uma volta”, disse a costureira Giada Di Natale, 27, enquanto provava um vestido que escolheu mais de um ano atrás para a festa de noivado,  durante a qual os confettis costumam ser oferecidos.

Ela deveria ter se casado no dia 18 de julho de 2020, mas foi obrigada a adiar o seu “sim” até a mesma data deste verão (no hemisfério norte).

“Todas as manhãs, a primeira coisa que fazia no celular era digitar em ‘Notícias’ e ‘Casamentos’”, contou Giada.

Em maio, o primeiro-ministro da Itália, Mario Draghi, pediu um pouco mais de paciência em um país onde os casamentos diminuíram consideravelmente ao longo das décadas e a taxa de natalidade é uma das mais baixas da Europa.

Giada contou que ela e o noivo já tinham decidido adiar a formação de uma família, e que emagreceu durante o ano por causa da ansiedade. A história foi diferente para muitas mães de noivas, disse Antonella D’Alessandro, proprietária da loja onde Giada experimentou o seu vestido. Ao contrário, elas pediram frequentemente que as filhas deixassem os vestidos para depois da “longa prisão em casa”, falou Antonella.

Finalmente, no dia 17 de maio, o governo italiano tomou a grande decisão e determinou que as recepções de casamento poderiam voltar em junho, com as restrições de distanciamento social. Giada disse que imediatamente fez as suas encomendas de flores de confettis vermelhas na fábrica Pelino, para combinarem com os seus sapatos.

A notícia foi recebida com alegria também na Prefeitura, onde costumam ser realizados os casamentos.

“Naturalmente, expusemos os nossos confettis”, disse Manuela Cozzi, a secretária do Turismo da cidade.

Daniela Napoleone 38, que se declarava “a futura noiva de 2020”, esperava recentemente em frente à catedral de Sulmona para falar com um padre. Ela e o seu parceiro há 19 anos, com o qual ela tem dois filhos, planejam casar em setembro, mas deveriam ter casado em junho de 2020.

"Ele finalmente me pediu em casamento", contou, "e aí explodiu a pandemia". O noivo, Alessio Fazi, 43, deu de ombros.

O padre, Domenico Villani, os levou ao seu escritório, decorado com um grande jarro de vidro repleto de confettis. “Fico comendo o tempo inteiro”, explicou.

Daniela contou que os seus parentes de Nápoles, onde os confettis são extremamente populares, responderam à grande novidade sobre o seu plano de casamento perguntando se haveria um bufê com os confettis em algum cantinho, com uma variedade de sabores e cores.

"De um jeito ou de outro", garantiu,"estarão lá".

O Vaticano ainda festeja com confettis, uma tradição que, segundo conta a produtora artesanal Confetti Rapone, ajudou a compensar a queda do número de casamentos durante o lockdown. A companhia informou que, na pandemia, os prelados da igreja fizeram grandes encomendas de confettis para festejar os seus aniversários da ordenação - prateados para o 25º aniversário, dourados para o 50º.

Sulmona tem uma história com a igreja. A sua abadia, hoje um endereço popular para os casamentos, foi construída sobre uma caverna onde Celestino V viveu como ermitão depois de renunciar ao papado no século 13. As lojas de confettis estão repletas de fotos de João Paulo II e de Bento XVI aceitando pacotes elaborados e abençoando os confeiteiros.

“Os papas são gulosos”, comentou Pelino, cuja família faz confettis desde 1783.

Apesar da queda de 90% dos negócios em 2020, Pelino continua a grande indústria da cidade. Mario Pelino, químico de profissão, falou que está muito satisfeito por ter por fim entrado em um negócio da família que existe para fazer os clientes sorrir, tanto os habitantes da cidade, quanto o emir do Qatar, que gastou uma cifra fabulosa por ocasião do casamento da filha.

“Sessenta mil euros de confettis!”, contou Pelino.

Juntamente com o renovado otimismo dos fabricantes de doces aqui, há uma corrente de amarga rivalidade.

A loja art nouveau de Confetti Rapone é pintada em deliciosas cores pastel rosa e azul, e está repleta de cestos de flores de confettis e jarras igualmente cheias de doces. Os armários com portas de vidro verde contêm um caleidoscópio de doces, inclusive confettis de sabor de açafrão patenteado, e também uva, cereja, limoncello, uísque e gengibre, para limpar o paladar entre os pratos de carne e peixe servidos nas recepções.

“A nossa clientela é toda de gente influente”, disse Luigi Giammarco, 76, da família Rapone, mostrando menosprezo pelos outros doceiros de Sulmona. “Há as Fiats 500 e há as Ferraris”.

Na loja, os cartazes mostram a lista da clientela VIP de papas, o motorista do papamóvel, e George Clooney, que se hospedou na cidade durante as filmagens de O Americano. Se acreditarmos nos confeiteiros da cidade, Clooney se alimentou quase exclusivamente das suas amêndoas açucaradas.

Na loja de William Di Carlo, na mesma rua, Enrica Ricci falou que ao contrário de alguns outros “cujo nome não vou mencionar”, os seus produtos são naturais. “Nós prezamos a qualidade”.

À pergunta se o anúncio do governo da liberalização dos casamentos contribuiu para os negócios, Francesco Di Carlo, descendente do fundador da companhia, começou a responder, mas Enrica entusiasmada interrompeu. “Eu posso falar”, disse, e contou que estava recebendo telefonemas de casais de noivos da Itália inteira.

A marca, que era a dos confeiteiros oficiais da família real italiana outrora, também se diversificou, além dos casamentos, noivados, comunhões e outros importantes eventos da vida, afirmou.

“Estes”, falou, oferecendo alguns pistaches cobertos de açúcar verde, “você pode comer com uma cerveja”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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