Joshua Bright The New York Times
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Temendo ‘pandemia dupla’, autoridades de saúde pressionam por vacinação urgente contra gripe

Doença respiratória potencialmente letal lota os pronto-socorros e unidades de terapia intensiva, partilhando alguns sintomas com a covid-19

Jan Hoffman , The New York Times - Life/Style

01 de setembro de 2020 | 05h00

Conforme as autoridades de saúde do hemisfério norte se preparam para o outono e o inverno, o espectro de um novo surto de covid-19 dá calafrios. Mas há uma possibilidade que elas temem ainda mais: uma temporada de gripe forte, resultando em uma “pandemia dupla".

Até uma temporada de gripe leve poderia sobrecarregar hospitais que já lidam com os casos de covid-19. E ainda que as autoridades não saibam ainda que grau de severidade devem esperar este ano, elas temem que muitas pessoas deixem de lado a vacina contra a gripe, aumentando o risco de surtos mais amplos. A preocupação com uma pandemia dupla é tão grande que autoridades de todo o mundo estão começando a campanha de vacinação contra a gripe antes mesmo que a vacina esteja disponível nas clínicas e consultórios. 

Robert Redfield, diretor dos Centros para a Prevenção e o Controle de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, tem insistido no tema, insistindo que as lideranças corporativas encontrem maneiras de vacinar seus funcionários. O CDC costuma comprar 500 mil doses para adultos sem seguro-saúde, mas, esse ano, foram encomendadas 9,3 milhões de doses adicionais.

Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas, tem implorado às pessoas que tomem a vacina da gripe “para que ao menos amenizem os efeitos de uma dessas duas infecções respiratórias potenciais".

Na Grã-Bretanha, o primeiro-ministro Boris Johnson tem feito sua própria campanha em defesa da vacina da gripe. No mês passado, ele descreveu como “malucos" aqueles que se opõem e anunciou a maior campanha de vacinação contra a gripe da história do país. Em abril, um dos poucos motivos para os quais a Austrália relaxou sua rigorosa quarentena foi para permitir que os cidadãos se vacinassem contra a gripe.

A vacina contra a gripe raramente é exigida nos EUA, a não ser em algumas instalações de saúde e creches, mas, esse mês, o sistema da Universidade da Califórnia anunciou que, por causa da pandemia, será exigido que seus 230 mil funcionários e 280 mil alunos tomem a vacina contra a gripe até 1.º de novembro.

A gripe é uma doença respiratória potencialmente letal que lota os pronto-socorros e unidades de terapia intensiva, partilhando alguns sintomas com a covid-19: febre, dor de cabeça, tosse, dor de garganta, dores musculares e cansaço. Os médicos acreditam que a gripe pode deixar os pacientes mais vulneráveis a um ataque sério de covid-19, e a possibilidade de contrair ambas ao mesmo tempo seria desastrosa.

A temporada da gripe de 2019-20 foi moderada nos EUA, de acordo com o CDC. Mas uma temporada moderada ainda tem seu custo. Em estimativas preliminares, o órgão disse que o número de casos ficou entre 39 milhões e 56 milhões, resultando até 740 mil hospitalizações e algo entre 24 mil e 62 mil óbitos decorrentes da gripe.

De acordo com o CDC, a temporada da gripe ocorre no outono e no inverno do hemisfério norte, chegando ao auge entre dezembro e fevereiro, e estava chegando ao fim quando a pandemia teve início nos EUA, em março.

Mas, agora, o combate proativo à gripe durante a pandemia em andamento traz desafios significativos — não apenas na aplicação segura da dose, mas também ao convencer a população a tomar uma vacina da qual a maioria dos americanos costuma desconfiar, suspeitar e evitar.

Com a impossibilidade de acesso a muitos lugares onde a vacina contra a gripe costumava ser oferecida e aplicada em massa — incluindo escritórios e fábricas que a ofereciam gratuitamente aos funcionários em suas instalações e clínicas de saúde nas escolas — as autoridades têm entrado em contato com as secretarias de saúde locais, prestadores de serviços de saúde e corporações para organizar a distribuição. 

De agora até 31 de outubro, campanhas públicas vão tomar as redes sociais, outdoors, comerciais de TV e rádio. Como será mais difícil o acesso à vacina este ano, as pessoas são orientadas a se vacinarem o quanto antes, embora a imunidade diminua com o tempo. Haverá barracas oferecendo a vacina contra a gripe em estacionamentos e clínicas temporárias em edifícios escolares vazios.

Por causa desses esforços, os fabricantes de vacinas projetam que um recorde de 98 milhões de doses de vacina contra a gripe serão aplicadas este ano nos EUA, cerca de 15% mais do que no ano passado. O sistema de saúde da Kaiser Permanente vai enviar lembretes a mais de 12 milhões de seus clientes, usando cartões postais, e-mails, mensagens de texto e telefonemas.

Farmácias e até supermercados devem desempenhar um papel maior do que em anos anteriores. Nessa semana, as redes de farmácias Walgreens e CVS passarão a oferecer a vacina contra a gripe. A Walgreens vai organizar clínicas de vacinação adicionais em centros comunitários e igrejas. Para reduzir o tempo de contato, a CVS permite que os clientes preencham os formulários digitalmente.

Em Nova York, onde são registradas em média 2 mil mortes decorrentes da gripe todos os anos, a secretaria de saúde tem entrado em contato com centenas de farmácias independentes para aplicar a vacina, pois essas se localizam frequentemente em bairros mais afastados, muito afetados pelo coronavírus. A secretaria de saúde oferece um localizador de posto de vacinação online bastante detalhado.

“O acesso é um problema para todas as vacinas adultas", disse L.J. Tan, estrategista-chefe do grupo Immunization Action Coalition, que trabalha para aumentar a taxa de vacinação e foi um dos primeiros a falar na possibilidade de uma pandemia dupla. “Os adultos podem pensar, ‘Se for fácil tomar a vacina, quem sabe eu a tome’.”

Mas, por mais difícil que seja aplicar com segurança a vacina às pessoas, talvez mais difícil ainda seja convencer as pessoas a tomá-la. Na temporada de gripe de 2018-19, somente 45,3% dos adultos americanos com mais de 18 anos tomaram a vacina, sendo que no grupo dos 18 aos 50 anos essa proporção foi consideravelmente menor. O ceticismo em relação a essa vacina é forte, particularmente entre os negros e imigrantes, por causa de uma desconfiança antiga e da discriminação na saúde pública. 

Um estudo de 2017 publicado na revista Vaccine apontou que, comparados aos brancos, “os americanos negros apresentam maior probabilidade de denunciar obstáculos à vacinação, hesitar diante das vacinas em geral e, mais especificamente, diante da vacina contra a gripe, maior probabilidade de acreditarem em teorias da conspiração e de usar o naturalismo como alternativa à vacinação".

Outra razão alegada pelas pessoas para não tomar a vacina é o fato de pensarem que esta as deixa doentes. “Quem diz que não quer se vacinar para não ficar gripado não teve a gripe e não sabe como ela é", disse Patsy Stinchfield, diretora sênior de prevenção a infecções no hospital pediátrico de Minnesota.

“O que sentimos é a resposta imunológica do corpo aos antígenos do vírus", disse Patsy, integrante do grupo de trabalho do CDC para o influenza. “Talvez a pessoa se sinta um pouco gripada, e isso é positivo. É uma forma de o corpo dizer, ‘Estou pronto para a gripe, e não ficarei tão doente se contrair uma gripe de verdade’.”

Campanhas públicas vão descrever a vacina como uma arma fundamental durante a pandemia. “Espero que as pessoas concluam que, não havendo vacina contra a covid-19, esta seria um fator incontrolável, ao passo que há acesso à vacina contra a gripe, uma proteção que está ao alcance”, disse Stinchfield. “É uma forma de se proteger.”

Outras campanhas devem enfatizar a responsabilidade da família e da comunidade. Em geral, a adesão à campanha de vacinação contra a gripe entre pessoas com idade entre 18 e 49 anos é baixa. Em Vermont, por exemplo, chega a aproximadamente 27%.

Christine Finley, diretora do programa estadual de imunização, acredita que essa proporção vai melhorar por causa da quarentena ordenada em decorrência da pandemia, que manteve todos em casa. “As pessoas estão mais cientes do quanto os riscos que decidem correr podem afetar os demais", disse ela. “Com frequência, estão cuidando de filhos pequenos ou dos pais mais velhos.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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