Karsten Moran/The New York Times
Karsten Moran/The New York Times

'Se não vier turista, não tenho negócio': a crise do turismo em Nova York

Os voos internacionais para Nova York caíram até 93%. Pessoas e empresas do setor do turismo da cidade estão à beira do abismo

Ceylan Yeginsu e Derek M. Norman, The New York Times - Life/Style

18 de dezembro de 2020 | 05h00

NOVA YORK – Do lado de fora do Terminal 4 do Aeroporto Internacional Kennedy, nenhum sinal da longa fila de táxis amarelos da cidade de Nova York que nos anos anteriores rodava a toda velocidade para atender à demanda de passageiros. As linhas circundantes onde os passageiros faziam fila para chamar o táxi estão vazias. Onde uma dúzia de táxis costumava esperar para pegar viajantes, havia apenas dois numa quinta-feira de novembro.

Os motoristas esperam por horas para pegar um único cliente. “Não consigo fazer viagens. Não tem voos chegando, não tem turistas visitando a cidade e tem menos gente nas ruas”, disse Jean Metellus, 71 anos, morador do Queens que dirige seu táxi desde 1988. “Então não tem dinheiro. Mas ainda temos que pagar as contas”.

A pandemia de coronavírus e as restrições globais a viagens implementadas em março para desacelerar a disseminação do coronavírus dizimaram a indústria do turismo dos Estados Unidos, levando consigo o sustento de milhões de pessoas. A U.S. Travel Association, grupo comercial que promove viagens nacionais e internacionais, projeta que o país verá o número de visitantes internacionais cair quase 80% este ano, para apenas 18,6 milhões, em comparação com 79 milhões de desembarques no ano passado.

Embora a queda tenha sido devastadora para destinos turísticos populares como Orlando e Los Angeles, em nenhum lugar dos Estados Unidos o impacto é mais visível do que em Nova York, que atraiu mais de 13,5 milhões de visitantes internacionais no ano passado.

Há muitos anos, a cidade é o destino urbano mais popular dos Estados Unidos. Em julho, nos cinco aeroportos regionais do estado, as chegadas internacionais caíram 93% em comparação com julho de 2019, de acordo com dados da Autoridade Portuária. Só no Kennedy, o número de pousos internacionais caiu 70% em seis meses, para 2.121 em julho, bem abaixo dos 7.034 de janeiro.

Em agosto, menos de 400 mil passageiros internacionais chegaram ao Kennedy, uma queda de 89% em relação aos mais de 3,5 milhões durante o mesmo mês do ano anterior. O setor de alimentos e bebidas da cidade perdeu quase 200 mil empregos desde março. A taxa de ocupação dos hotéis caiu para cerca de 40%, uma queda de mais de 80% em relação a agosto de 2019, de acordo com a empresa de análise STR.

A demanda por táxis e aplicativos de viagem em junho caiu 71%, de acordo com a Comissão de Táxis e Limusines da Cidade de Nova York, embora recentemente esses números tenham começado a se recuperar. Cenas chocantes de toda a cidade revelam o impacto devastador da ausência de turismo.

Na Times Square, as vibrantes placas das ruas ainda brilham, mas mais da metade dos hotéis da área fecharam e o tráfego de pedestres diminuiu. No Columbus Circle, motociclistas de pedicab ficam curvados sobre o guidão, olhando para o celular. Os ônibus de turismo vermelhos continuam fazendo circuitos diários, mas passam por monumentos abandonados e vazios, enquanto seus agentes vasculham as calçadas em busca de turistas locais.

As lojas de souvenirs em Manhattan, que recebiam até 30 clientes por hora, agora estão vazias, sem compradores para as malas, bugigangas e camisetas “I Love New York” estilizadas com símbolos de coração. “Se não vier nenhum turista, não tenho negócio”, disse Prince Mahamud, que administra uma loja de souvenirs na Canal Street em Chinatown. “Souvenir é coisa de turista”, disse ele, ajeitando uma pequena estatueta de plástico da Estátua da Liberdade. “Nenhum nova-iorquino compra essas coisas”.

Uma indústria cambaleando

Em 2019, o setor do turismo de Nova York marcou seu décimo ano consecutivo de crescimento, arrecadando quase US $ 7 bilhões em impostos estaduais e locais e garantindo mais de 403 mil empregos, de acordo com a NYC & Company, a agência de marketing de turismo da cidade. O fluxo de turistas e dos dólares que eles traziam secou em março. Nenhum bairro foi poupado.

“As viagens e os turistas sumiram, os maiores eventos do verão americano foram cancelados, a Broadway está às escuras e os hotéis e restaurantes viram suas reservas despencar”, disse Scott M. Stringer, o controlador da cidade de Nova York, que trabalha como chefe de auditoria da cidade. “Os últimos meses foram muito difíceis”, disse um porteiro da seção residencial do Plaza Hotel, ajustando sua máscara azul e apontando para a entrada de hóspedes fechada. “Todo mundo sumiu”.

Ele não se referia apenas aos hóspedes do hotel, mas também aos colegas de trabalho, que ainda estão sem emprego porque o hotel continua fechado. Em agosto, a controladoria projetou uma perda de pelo menos US $ 1,5 bilhão em todas as vendas tributáveis de turismo para 2021. Nacionalmente, a U.S. Travel Association prevê uma queda de 75% nos gastos com viagens internacionais até o final do ano, de US $ 155 bilhões em 2019 para US $ 39 bilhões.

“O turismo na cidade, especialmente o turismo internacional, não retornará aos níveis pré-pandêmicos até que haja uma sensação de que viajar é seguro, e muitas lojas e restaurantes não conseguirão sobreviver a uma perda prolongada”, disse Stringer, acrescentando que “um apoio federal massivo” seria necessário para enfrentar a enorme escala do problema.

Desolação na Times Square

O impacto da perda é mais visível na Times Square, onde o comércio depende muito mais de turistas e funcionários de escritório. Os outdoors continuam piscando, mas muitas das principais atrações e das lojas de varejo e restaurantes estão fechadas. Sem as habituais multidões, as luzes brilhantes do bairro apenas acentuam o vazio do espaço. Oficialmente, a área da Times Square emprega cerca de 180 mil trabalhadores, fornece 15% da produção econômica da cidade e gera US $ 2,5 bilhões em receita tributária, de acordo com dados de 2016 coletados pela Times Square Alliance, um grupo comercial local.

Antes da pandemia, cerca de 380 mil pedestres passavam pela área por dia, número que chegava a 450 mil nos dias de pico. Durante o lockdown da cidade, o número de transeuntes caiu em mais de 90%.

A Alliance descobriu que dos 46 hotéis na área, pelo menos 26 – entre eles o Hilton, com 478 quartos na Times Square – fecharam as portas. Os varejistas se saíram melhor: só se fecharam 48 de 151. Mas 90 dos 162 restaurantes da área estão fechados. Esses números incluem alguns fechamentos permanentes ao lado de outros que ainda planejam reabrir.

A Broadway era uma atração histórica da região. Todos os anos, os espetáculos contribuem com mais de US $ 15 bilhões para a economia local e sustentam 97 mil empregos, de acordo com a Broadway League, um grupo comercial. Este ano, após fechar em março, os teatros não têm planos de reabrir até 2021, no mínimo. Monique Scott, 30 anos, atriz freelancer com foco em teatro musical, veio para Nova York com o sonho de se apresentar em público.

Sem espetáculos disponíveis, ela agora está trabalhando em meio período numa academia de ginástica para sobreviver. “Muitos artistas estão no limbo”, disse Scott. “Estamos todos de mãos atadas, sem conseguir trabalhar no nosso ofício. Tivemos que descartar todas as coisas pelas quais trabalhamos tanto, pelas quais temos dívidas”.

Os serviços sofrem mais

O setor de lazer, bares e restaurantes é o mais afetado em termos de perdas de empregos, de acordo com dados do departamento de trabalho do estado. O emprego no setor caiu dois terços entre fevereiro e abril.

Os serviços de hospedagem e alimentação perderam 252 mil empregos, ou 68,9% do nível de fevereiro, mas desde então se recuperaram em 36%, ou 89.800 empregos. Ainda assim, 174 mil pessoas que trabalhavam em serviços de alimentação e bebidas nos cinco distritos ficaram sem trabalho em agosto, de acordo com dados publicados pelo Federal Reserve Bank de St. Louis. No terminal Grand Central, mais da metade dos restaurantes, padarias e pontos de café da manhã estão fechados.

O hub de transporte, que zumbia a qualquer hora do dia, agora está tão silencioso que um visitante recente conseguia ouvir o barulho de uma mala de rodinhas distante. O Grand Central Oyster Bar depende muito dos viajantes e passageiros. Os restaurantes de Nova York conseguiram abrir para o jantar com 25% da capacidade em novembro, mas, sem o intenso tráfego de passageiros no terminal, o Oyster Bar, está praticamente vazio.

“Reduzimos cerca de 90% de todas as vendas, talvez até mais”, disse Sandy Ingber, o chef executivo. “Mandamos e-mails para 25 mil pessoas do nosso banco de dados. E, mesmo assim, não temos ninguém aqui”.

O caminho para a recuperação pode ser local

A NYC & Company, agência de viagens da cidade, foi forçada a dispensar 42% de sua equipe, mas agora está repensando o turismo na cidade, com uma iniciativa lançada para atrair residentes locais e viajantes domésticos.

“O maior desafio é que o impacto do vírus se tornou muito prolongado e queremos lembrar aos nova-iorquinos que Nova York ainda é a maior cidade do mundo e que temos as ferramentas para reconstruí-la. E vamos reconstruí-la”, disse Fred Dixon, presidente e executivo-chefe da NYC & Company. A agência está oferecendo reembolsos de até US$ 100 para compras Mastercard, incluindo US$ 10 de volta a cada US$ 20 gastos em experiências na cidade e US$ 25 de volta a cada US$ 100 gastos em hotéis.

Os hotéis que reabriram desde o lockdown também estão relatando interesse local, especialmente daqueles que buscam experiências de luxo. “Estamos abrindo nosso caminho por meio desses novos desafios, um dia de cada vez”, disse Isabelle Hogan, a concierge-chefe do The Mark Hotel no Upper East Side de Manhattan.

“Ficamos surpresos ao ver que, embora Nova York esteja sentindo falta do ‘turismo’, a experiência de hotel de luxo ainda é um desejo para os habitantes locais que querem uma mudança de cenário ou estão se mudando de casa”. Roger Dow, presidente e executivo-chefe da U.S. Travel Association, diz que a retomada das viagens internacionais será gradual e que, enquanto isso, a necessidade mais urgente é o auxílio federal. “O que as pessoas precisam entender é que o setor de viagens é composto, na verdade, por 83% de pequenas empresas”, disse Dow.

“Mesmo que você tenha os grandes nomes das companhias aéreas, empresas de cruzeiros e empresas hoteleiras, a maioria são pequenas empresas, restaurantes, lojas, guias turísticos, todas as pessoas que realmente não podem se dar ao luxo de aguentar muito tempo”.

O caminho para a recuperação pode ser longo

Em Chinatown, os turistas exploravam as ruas movimentadas, repletas de mercados de peixes, barracas de frutas, restaurantes e comércio local. Lojas de bugigangas e barracas de souvenirs se enfileiram ao longo da Canal Street, exibindo estatuetas e brinquedos eletrônicos. “Geralmente, tinha tanta gente aqui e, dá uma olhada agora, não tem ninguém”, disse Mahamud, lojista na Canal Street. “Era uma área para visitantes. É central e Chinatown é famosa”.

O morador de Brooklyn de 34 anos cortou o preço da maioria de seus produtos quase pela metade para tentar atrair mais compradores. As canetas de US$ 5 agora está por US$ 3. Brinquedos de US$ 15 a US$ 20 hoje são vendidos por US$ 5. Seu negócio costumava faturar cerca de US$ 2 mil por dia, mas agora, disse ele, ganha apenas cerca de US$ 200 a US$ 240 por dia.

“Espero que melhore até o Natal”, disse ele. “Mas as pessoas estão com medo. E, se as pessoas não têm dinheiro, não vão comprar. As pessoas estão sofrendo para pagar aluguel e comprar comida. Então ninguém vem aqui”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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