Royal Brunei Airlines via The New York Times
Royal Brunei Airlines via The New York Times

Empresas aéreas vendem voos com 'destino a lugar nenhum'

Pessoas com vontade de viajar estão pagando por voos que pousam no mesmo lugar de onde partiram horas antes

Tariro Mzezewa, The New York Times - Life/Style

03 de outubro de 2020 | 05h00

Em agosto, Nadzri Harif, um DJ da estação de rádio Kristal FM, do Brunei, pisou em um aeroporto pela primeira vez em seis meses. Ele disse que a experiência foi um deleite. É claro que o deslocamento pelo aeroporto internacional de Brunei foi diferente, com máscaras, divisórias de vidro e protocolos de distanciamento social em vigor, mas nada poderia superar a empolgação de embarcar em um avião novamente.

Mas tratava-se de um voo sem destino. Harif é uma das milhares de pessoas no Brunei, em Taiwan, no Japão e na Austrália que começaram a comprar passagens para voos que decolam e aterrissam no mesmo lugar. Algumas empresas aéreas chamam isso de “voo panorâmico”; outras são mais diretas, descrevendo-os como “voos para lugar nenhum”.

“Não tinha me dado conta do quanto eu senti falta de viajar - de avião - até o momento em que a voz do capitão soou no sistema de falantes, dando-nos as boas-vindas e fazendo os alertas de segurança de praxe", disse Harif a respeito dos 85 minutos passados com a Royal Brunei Airlines. 

Em seu voo sem destino, que a empresa aérea chama de programa de “jantar aéreo”, a Royal Brunei serve pratos da culinária local para os passageiros enquanto sobrevoam o país. Em um momento em que a maioria das pessoas se encontra presa em casa sem poder viajar, e a indústria global de viagens aéreas foi dizimada pela pandemia, os voos que decolam e retornam ao aeroporto horas mais tarde permitem que os funcionários das empresas aéreas sigam trabalhando. A prática também satisfaz aquele desejo de viajar - nem que seja apenas o ato de embarcar novamente em um avião.

Embora a maioria das pessoas encare a viagem aérea como meio para se alcançar um fim, cuja única finalidade seria ir de um lugar ao outro, alguns dizem que essa é uma parte emocionante da experiência de viajar. Para essas pessoas, os voos sem destino são um alívio em um ano em que praticamente todas as viagens foram canceladas e as pessoas passaram a temer empresas aéreas que não observam o distanciamento social e o uso de máscaras.

A Royal Brunei já fez cinco desses voos desde meados de agosto, e como o Brunei teve poucos casos do coronavírus, a empresa não está exigindo dos passageiros que usem máscaras, mas dos funcionários, sim. No início desse mês, a empresa aérea taiwanesa EVA Air preencheu todos os 309 assentos do seu A330 Dream jet inspirado na Hello Kitty para uma viagem de dia dos pais, e a japonesa All Nippon Airways teve um voo de 90 minutos com temática havaiana e 300 passageiros a bordo. A Qantas anunciou um voo para lugar nenhum sobre a Austrália. Os assentos se esgotaram em 10 minutos.

“Muitos de nossos clientes mais frequentes estão acostumados a viajar de avião a cada quinze dias, e dizem sentir falta da experiência de voar tanto quanto das viagens em si", disse Alan Joyce, diretor executivo da Qantas Airways, em comunicado, quando a empresa aérea anunciou seu voo de sete horas em outubro, partindo e aterrissando em Sydney.

As passagens para esse voo tiveram preços entre AU$ 787 e AU$ 3.787, ou cerca de US$ 575 a US$ 2.765. Os passageiros farão uma viagem pela Austrália, sobrevoando o Território do Norte, Queensland e Nova Gales do Sul. A empresa aérea também retomou recentemente seus populares voos panorâmicos com destino à Antártida que não pousam na Antártida, mas permitem que os passageiros se desloquem, observando o continente a partir de diferentes ângulos.

A empresa de viagens Antarctica Flights contrata voos charter da Qantas para fazer a rota. Dezenas de australianos acessaram o Instagram da empresa aérea para manifestar o desejo de verem mais viagens do tipo. Algumas empresas de viagens na Índia, na Austrália e nos Estados Unidos disseram que seus clientes procuram voos para lugar nenhum nos últimos meses conforme muitos se dão conta que as viagens não voltarão a ser como antes por algum tempo ainda.

Loveleen Arun, agente de viagens de Bangalore que cria viagens de luxo voltadas para turistas indianos, disse ter recebido contatos de clientes nervosos procurando voos desse tipo na Índia. “Um dos meus clientes disse dias atrás, ‘tudo que eu quero é sentar na janela e ver as nuvens passando. Sinto falta dessa imagem. Tudo que eu quero são nuvens brancas de algodão doce!’”, disse Loveleen. “Algumas pessoas querem apenas arrastar as malas pelo aeroporto e fazer check-in.”

Quando os pais de Nadiah Hamid a obrigaram a embarcar com eles no voo para lugar nenhum da Royal Brunei, ela pensou que a ideia de sobrevoar a própria casa era “ridícula", disse ela, mas mudou de opinião pouco depois do começo do voo, pois a viagem lhe permitiu ver seu lar de outra forma.

“Normalmente, quando voamos, não sabemos ao certo onde estamos, e foi bom ter alguém contextualizando a paisagem do nosso país, e a vista foi realmente linda", disse Nadiah, 22 anos. Não faltaram críticas a esses voos, com grupos ambientais e viajantes recorrendo às redes sociais para expressar sua frustração.

Eles dizem que uma indústria que já tinha impacto negativo no meio ambiente antes da pandemia continua a prejudicar a natureza com esses voos desnecessários. Em 2018, a aviação civil global respondeu pela emissão de 918 milhões de toneladas de dióxido de carbono - o equivalente às emissões anuais de Alemanha e Países Baixos somadas.

Rob Jackson, do departamento de ciências da terra da Universidade Stanford, calculou que as emissões globais podem ter queda de 7% se a quarentena persistir em partes do mundo pelo restante do ano. Uma porta-voz da Qantas disse em e-mail que a empresa adquiriu compensações de carbono para aliviar o impacto do voo de sete horas, e a Royal Brunei Airlines disse que está usando o Airbus A320neo, com emissões mais baixas do que muitos outros aviões comerciais. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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