Tiziana Fabi/AFP
Tiziana Fabi/AFP

Papa se concentra em futuro da fé católica no Hemisfério Sul

Estratégia visa evitar que Igreja Católica perca terreno na região

Jason Horowitz, The New York Times

02 Junho 2018 | 10h15

CIDADE DO VATICANO - Quando cerca de um terço da população católica da Irlanda foi assistir à celebração da Missa pelo papa João Paulo II em Dublin, em 1979, o divórcio, a homossexualidade e o aborto eram ilegais no país. A Irlanda, assim como grande parte da Europa, obedecia aos ensinamentos do catolicismo.

Em agosto, o papa Francisco voltará à Irlanda para um Encontro Mundial das Famílias, do qual participarão os ativistas da Igreja mais ligados ao movimento contrário ao aborto. Mas depois do histórico repúdio da proibição do aborto em uma votação esmagadora, no dia 26 de maio, eles se encontrarão em um país que faz claramente parte do movimento secular de saída da Europa do aprisco católico.

Em toda a Europa ocidental, o poder outrora enorme da Igreja se enfraqueceu, principalmente por causa dos escândalos sexuais que o clero infligiu a si próprio e da sua incapacidade de fazer frente à mudança dos tempos e de preservar os católicos contemporâneos. A frequência à Igreja despencou, as paróquias estão se fundindo, e há escassez de novas vocações. Os casamentos entre pessoas do mesmo sexo aumentam, e o aborto foi amplamente legalizado.

Entretanto, Francisco não soou o alarme. Ele parece resignado a aceitar o fato de que a Europa católica retrocedeu ao passado da Igreja.

Ele desviou sua atenção do futuro da fé para o hemisfério ocidental do qual é filho. No centro da visão de Francisco está a proximidade dos sacerdotes com os pobres e desamparados aos quais ele acredita que a Igreja deve servir.

Esta guinada suscitou as críticas dos católicos conservadores, como os da Polônia, o país mais conservador do continente, que se aliaram a um governo nacionalista contra os migrantes.

Mas o pontífice argentino claramente acredita que enfatizar um fraco ministério pobre da Igreja para os marginalizados do mundo é uma mensagem global mais autêntica e mais atraente do que a defesa das raízes cristãs da Europa.

Tratar o Hemisfério Sul contra o flagelo dos escândalos dos abusos sexuais, do secularismo crescente e de um clero distante da realidade que devastou o catolicismo na Europa exigirá toda a atenção do papa.

Talvez isto explique por que Francisco, embora tenha se calado no caso da Irlanda antes da votação, em maio se concentrou em um escândalo de abusos sexuais no Chile, que ameaça a credibilidade da Igreja naquele país.

“O escândalo dos abusos sexuais e a negligência dos bispos chilenos provocou um enorme dano”, afirmou Juan-Carlos Cruz, um sobrevivente de abusos sexuais que recentemente esteve com o papa. Ele esperava que o Vaticano responsabilizasse os bispos e que desse a esta estratégia uma chance de sucesso no Chile. O fato de não ter falado da crise, segundo Cruz, causou um “rápido aumento do secularismo em países nos quais era forte a esperança de uma expansão”.

Também na América Latina e na África, há sinais de que a Igreja está perdendo terreno em um amplo mercado religioso.

No Brasil, país que tem a maior população católica do mundo, os evangélicos que pregam o evangelho da prosperidade competem acirradamente com o catolicismo, que, segundo as projeções, deverá se tornar um credo de minorias em 2030. Francisco realizou sua primeira viagem apostólica ao Brasil depois de sua eleição.

Enquanto Francisco vê a preocupação pelos pobres como a maior esperança da Igreja, o seu predecessor Bento XVI, um alemão, via o secularismo como a maior ameaça ao futuro da Igreja. Sua homilia antes da eleição contra a “ditadura do relativismo” contribuiu para a sua subida ao trono de Pedro, e o seu pontificado foi considerado por muitos um esforço extremo para salvar a Europa e suas raízes cristãs. Mas a erosão europeia continuou inelutavelmente, e Bento renunciou ao trono em 2013.

Para suceder-lhe, os cardeais escolheram o primeiro cardeal não europeu em quase 1.300 anos. Segundo os analistas, a Igreja reconhecera que o seu futuro estava em outra parte.

Na Itália, muitas paroquias católicas agora são dirigidas por sacerdotes nascidos fora do país, e o papa declarou que talvez esteja na hora de fundir algumas das centenas de paróquias de todo o país.

Na maior parte do Luxemburgo católico, o governo, liderado por um primeiro-ministro gay, aboliu no final do ano passado o ensino religioso nas escolas públicas. Em 2012, a Arquidiocese de Viena consolidou suas 660 paróquias em 150.

Somente um em cada cinco católicos assiste à missa na Espanha hoje. Na França, um em cada 10.

Na Irlanda, a votação sobre o aborto foi o último salto que distanciou os fiéis de uma Igreja que há muito dominava a cultura do país. A Irlanda já tinha aprovado em plebiscito a legalização do casamento gay.

“A influência da Igreja católica sobre as pessoas diminuiu”, afirmou Mary McAuliffe, professora do University College Dublin. “É um fato inegável”.

A Polônia é o país mais católico da Europa. Cerca de 40% dos católicos assistem à missa aos domingos, quase todos são batizados, e ela atualmente exporta sacerdotes para outros países europeus.

Monsenhor Edward Staniek, um padre polonês que está preocupado em proteger os valores tradicionais católicos, disse no início deste ano que orava para que Francisco concordasse com a sua maneira de pensar o problema ou então “tivesse uma rápida passagem para a casa do Pai”.

Na Hungria, muitas autoridades da Igreja se aliaram ao primeiro-ministro contrário à imigração, Viktor Orban, de formação protestante e que antes se mostrava ambivalente a respeito da religião, mas agora afirma: “A identidade europeia tem suas raízes no cristianismo”. Enquanto isto, os populistas na Itália afirmam que Francisco está abandonando essencialmente a luta pela identidade cristã da Europa.

Se a votação esmagadora da Irlanda preocupou Francisco, não o demonstrou no domingo, depois da votação. Ele sorriu tranquilo ao abençoar os fiéis na Praça de São Pedro e os instou a orar pela África.

Kilvia Passos, 47, saudou o papa erguendo a bandeira da sua terra, o Brasil. E disse que apesar da crescente concorrência dos evangélicos em seu país, o Brasil continua profundamente católico. Mas até pouco tempo atrás, também a Irlanda e o resto da Europa afirmavam o mesmo.

“O que nos preocupa é o que está acontecendo aqui”, ela disse.

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