CJ Gunther/EPA, via Shutterstock
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Papa Francisco reformula a Igreja Católica, contra onda global populista

Ao nomear cardeais e mais de mil bispos, Francisco está reconstruindo a Igreja à sua imagem

Jason Horowitz, The New York Times

26 de outubro de 2019 | 06h00

ROMA - O papa Francisco e sua defesa da abertura - em relação a imigrantes, muçulmanos e gays - pode ter perdido a influência em um cenário global em que populistas e a extrema direita dominam o debate. Mas, dentro da Igreja, a história é outra. Em 5 de outubro, Francisco nomeou 13 novos cardeais que refletem suas prioridades pastorais em uma gama de temas, incluindo imigração, mudança climática, inclusão de católicos gays, diálogo inter-religioso e compartilhamento do poder da Igreja fora de Roma, com bispos da África, Ásia e América do Sul.

As nomeações significaram um marco para Francisco, que atingiu um ponto crítico de influência para moldar o futuro da Igreja de acordo com sua imagem. Nessa manobra, Francisco já nomeou mais da metade dos membros do Colégio dos Cardeais, onde uma maioria de dois terços dos membros com menos de 80 anos é necessária para a eleição do sucessor dele. Quanto mais longa for a vida de Francisco, mais importante se torna seu pontificado.

“Quanto mais o pontificado durar, mais presentes estarão os cardeais com o espírito do papa Francisco”, afirmou o cardeal Jean-Claude Hollerich, de Luxemburgo, que foi um dos nomeados ao posto recentemente. Francisco já deixou claro quais são as prioridades de sua pauta.

Ao contrário de seus predecessores, que combateram a dissidência e promoveram bispos e cardeais que enfatizavam a fé na doutrina da Igreja, Francisco quer uma Igreja inclusiva, que recebe de volta ao rebanho os católicos que se sentiam geograficamente, pastoralmente e ideologicamente alienados. Essa missão lhe rendeu a inimizade dos conservadores da Igreja, para quem ele está diluindo os ensinamentos eclesiásticos em nome de um acolhimento indigno.

Francisco completará 83 anos em dezembro e, dada sua idade, tem se dedicado ao papado com certa urgência desde que assumiu o pontificado, seis anos atrás, frequentemente reconhecendo sua própria finitude. Ainda que o alcance mundial de sua voz tenha aparentemente diminuído nesta era de políticos populistas, seu efeito dentro da Igreja pode ser duradouro.

Ao nomear cardeais e mais de mil bispos, Francisco está reconstruindo a Igreja à sua imagem. Essa Igreja descentraliza o poder, direcionando-o a bispos ao redor do mundo, e está disposta a enfrentar os desafios globais ao lado de outras religiões - e também dos ateus.

Enquanto críticos liberais argumentam que Papa Francisco não agiu com rapidez suficiente para reformar a Igreja, especialmente em se tratando do papel das mulheres, seus apoiadores ressaltam que ao menos ele está disposto a falar a respeito do tema, além de reconsiderar a posição da Igreja em relação a casamentos de sacerdotes, homossexualidade e celibato.

Mais concretamente, ele remodelou o Colégio dos Cardeais, tornando-o menos branco, menos italiano e diminuindo a representatividade da Cúria Romana, organismo que controla a burocracia que rege a Igreja. Em vez de Roma, Francisco voltou seu olhar para as novas ramificações da Igreja, tonando-a mais latino-americana, asiática e africana. Entre os novos cardeais estão prelados de Marrocos, Indonésia, Guatemala e República Democrática do Congo.

E, em um gesto revelador para um pontífice que mantém uma tensa relação com seus oponentes conservadores nos Estados Unidos, Francisco novamente ignorou os tradicionais seminários americanos para o Colégio dos Cardeais, especialmente aqueles ocupados por conservadores.

O arcebispo Charles Chaput, da Filadélfia, um crítico veemente de Francisco, chegou aos 75 anos, idade de aposentadoria para o posto, em setembro, sem ter sido nomeado cardeal. Os conservadores na poderosa Igreja Católica americana afirmaram que a ênfase de Francisco na abertura pastoral está erodindo a doutrina da fé.

Francisco os afastou do poder, ignorou suas reclamações e, na maioria das vezes, não demonstrou se importar com suas ameaças de ruptura. “Rezo para que não haja nenhum cisma”, afirmou ele no mês passado. “Mas não tenho medo.” O cardeal Hollerich, 61 anos, um jesuíta como Francisco, é um dos mais insistentes críticos do nacionalismo. Ele afirmou que Francisco é claramente contrário aos esforços tradicionalistas de restabelecer uma sociedade católica isolada do restante do mundo.

Os esforços dos oponentes de Francisco de impedir sua ação, afirmou ele, podem beneficiá-lo. “Quanto mais ele é atacado”, afirmou o cardeal Hollerich, “mais livre ele se torna”. O reverendo Michael Czerny, de 73 anos, um jesuíta canadense de origem checa nomeado cardeal por Francisco este mês, é um colaborador próximo do papa.

O cardeal Czerny afirmou que o resultado de um Colégio dos Cardeais moldado por Francisco é a disposição de encarar assuntos difíceis seguindo “um modo, um estilo, um espírito” consistentes com o Concílio Vaticano 2º. Aquela histórica conferência de bispos de todo o mundo, nos anos 1960, estimulou a abertura na Igreja. Re-examinou temas como a liturgia e o celibato sacerdotal, que não é uma questão de doutrina, mas uma tradição da Igreja que tem aproximadamente mil anos.

Aquela abertura desencadeou, porém, uma onda de críticas dos conservadores que durou quase meio século. Em se tratando da possibilidade de ordenação de homens casados, o cardeal Hollerich afirmou que, se bispos de parte do mundo afirmarem que isso é necessário, “Acho que a igreja apostólica deveria considerar o pedido.”

Mesmo considerando pessoalmente o celibato como um “grande dom” para o sacerdócio, ele acrescentou que isso “não significa que talvez essa deveria ser a única maneira”. Ele disse que não está nada sozinho nessas posições. E Francisco nomeou cardeais outros bispos considerados abertos à mudança.

O cardeal Matteo Zuppi, de Bolonha, 64 anos, é o único italiano entre os novos nomeados ao colegiado anteriormente dominado pela Itália. Seu tio-avô foi um cardeal já considerado para a candidatura ao papado, mas o cardeal Zuppi segue Francisco, dedicando muito de seu tempo aos pobres. O cardeal Zuppi afirmou que os novos cardeais do papa mostram que Francisco quer uma Igreja “missionária”, que “não se feche em si mesma”. De acordo com ele, os novos cardeais ajudarão a Igreja a viver “no nosso presente”.

Francisco, o primeiro papa sul-americano da história, tem nomeado cardeais do Hemisfério Sul sistematicamente. “O papa quer dar prioridade às periferias”, afirmou o bispo Fabien Raharilamboniaina, de Madagascar. “Porque esse é o futuro da Igreja.” A recente visita de Francisco à África gerou menos interesse do que suas primeiras viagens. O cardeal Zuppi afirmou que Francisco talvez esteja menos influente na política internacional. “Infelizmente, as palavras do papa são frequentemente ignoradas” pelo mundo secular, afirmou ele. “É um problema.”

Mas ele argumentou que a influência de Francisco pode ser maior no logo prazo do que imediatamente. Alguns analistas sugeriram que Francisco mudará a Igreja o quanto puder durante seu pontificado, dado que, independentemente de quantos cardeais nomear, nada garante que o próximo papa seguirá seus passos. Alguns dos novos cardeais vêm de culturas africanas e asiáticas muito mais conservadoras. 

“Não é automático um Colégio dos Cardeais conservador eleger um papa conservador ou vice-versa”, afirmou Sandro Magister, um experiente especialista no Vaticano. “Francisco foi eleito por cardeais que foram nomeados por dois conservadores, João Paulo 2.º e Bento 16.”

Até o cardeal Czerny concordou. “O eleito pelo mais recente conclave escolhe as pessoas que provavelmente serão a maioria dos eleitores no próximo”, afirmou ele. “Isso tem ocorrido há dois mil anos, e os papas não são todos iguais, como podemos notar.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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