Aamir Qureshi/Agence France-Presse - Getty Images
Aamir Qureshi/Agence France-Presse - Getty Images

Paquistão combate 'tráfico de esposas' para a China

Acusações vêm das alegações de que mulheres foram forçadas à prostituição ou levadas sob falsos pretextos

Salman Masood e Amy Qin, The New York Times

09 de junho de 2019 | 06h00

ISLAMABAD, PAQUISTÃO - Os pais de Rabia Kanwal tinham certeza de que seu casamento com um rico muçulmano chinês que ela acabara de conhecer daria a ela um futuro confortável, longe das dificuldades de suas vidas no Paquistão. Mas ela teve uma premonição. "Eu não estava animada", disse Kanwal, 22 anos, que mora em um bairro pobre em Gujranwala, na província oriental de Punjab. "Eu senti que algo de ruim ia acontecer."

Casamentos arranjados são comuns no Paquistão, mas este era incomum. O noivo, que disse ser um rico criador de aves, conheceu a família de Kanwal durante uma estadia de um mês com um visto de turista. Ele teve que usar um aplicativo de tradução para se comunicar com eles, mas, acima de tudo, ele causou uma impressão favorável.

Kanwal casou-se. Mas após se mudar para a China com o marido em fevereiro, ela afirmou estar decepcionada com o que encontrou: ele era um agricultor pobre, não um rico fazendeiro. Muito pior, ele não era muçulmano. Em poucos dias, com a ajuda da embaixada paquistanesa, ela voltou para casa e se divorciou. A situação dela teve um final relativamente feliz.

O Paquistão foi abalado por acusações de que pelo menos 150 mulheres foram levadas para a China como noivas sob falsos pretextos - e não apenas mentiram para elas, mas, em alguns casos, elas foram forçadas a se prostituir. Outras disseram que foram obrigadas a trabalhar em bares e clubes, uma prática inaceitável na conservadora cultura muçulmana.

A China tem uma das proporções de gênero mais distorcidas do mundo, com 106,3 homens para cada 100 mulheres a partir de 2017. Essa diferença é um produto de quase três décadas da política chinesa de filho único e uma preferência por garotos em vez de garotas; uma combinação que causou um número incontável de abortos forçados e infanticídios femininos.

Como os meninos da era da política do filho único começaram a chegar à idade do casamento, a demanda por noivas estrangeiras aumentou. O governo paquistanês reprimiu os corretores matrimoniais, prendendo pelo menos duas dúzias de chineses e paquistaneses e acusando-os de tráfico humano. A embaixada chinesa negou que as noivas paquistanesas estivessem sendo maltratadas na China.

Investigadores paquistaneses disseram que homens na China pagaram aos intermediários para organizar os casamentos. Os chineses cobriram os custos das cerimônias e, em alguns casos, pagaram milhares de dólares às famílias das mulheres. O marido de Kanwal, Zhang Shuchen, disse que pagou cerca de US$ 14.500 a um corretor matrimonial chinês para ajudá-lo a encontrar uma noiva.

Nada disso é ilegal no Paquistão. As acusações de tráfico de seres humanos vêm das alegações de que as mulheres foram forçadas à prostituição ou levadas para a China sob falsos pretextos. Kanwal conheceu o marido no escritório do corretor matrimonial em Islamabad. De acordo com a Kanwal, ele disse à sua família que era muçulmano.

Em fevereiro, após o casamento, o casal chegou ao povoado de Dongzhang, na província de Shandong, onde ela viu a fazenda de patos do marido. Não era a grande propriedade que havia imaginado, mas uma fazenda modesta onde ele morava com seus pais e irmãos. "Eles nem eram muçulmanos e ele fingiu o tempo todo", disse ela. "Não havia nem mesmo banheiros apropriados em sua casa. Eu fiquei nervosa e comecei a chorar.”

Shuchen, 33 anos, disse que foi direto com ela, embora tenha se convertido ao islamismo no papel, ele não era um verdadeiro seguidor. Ele disse que agora ganhava cerca de US$ 2.900 por mês, muito mais do que os US$ 180 que o fazendeiro chinês médio ganhava. O New York Times não pôde verificar sua renda, mas em uma recente visita, um repórter encontrou um complexo residencial recém-construído com vários quartos e lustroso piso de cerâmica.

Kanwal conseguiu enviar um e-mail à embaixada paquistanesa. Sua permanência na China durou oito dias. Na mesma época, a agência de casamento local que muitos homens da região de Dongzhang haviam consultado para ajudar a encontrar esposas paquistanesas foi fechada. Mas, de acordo com os moradores de Dongzhang, ainda há várias mulheres paquistanesas na área.

Dizem que duas esposas paquistanesas de um povoado vizinho estão grávidas. "Não há meninas aqui", disse a mãe de Zhang, quando perguntada por que tantos homens locais foram ao Paquistão para encontrar esposas. "Nós não podíamos ter mais filhos, então todos queriam garotos." / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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