Rizwan Tabassum/Agence France-Presse - Getty Images
Rizwan Tabassum/Agence France-Presse - Getty Images

Karachi, no Paquistão, é a quinta pior cidade do mundo para se viver

População reclama da podridão que cerca o território; alguns centímetros de chuva podem inundar a cidade

Mohammed Hanif, The New York Times

02 de novembro de 2019 | 06h00

Caminhando por uma praia, recentemente, conheci um homem que alimentava formigas. Quando o vi arqueado, espalhando pequenos grãos sobre um arbusto, supus que ele estivesse jogando veneno para matar ratos. Depois pensei: já vi pessoas fazendo coisas estranhas nas praias de Karachi, mas ninguém se dá ao trabalho de matar nada. O mar já contém veneno suficiente para isso.

“O que as formigas comem?”, perguntei-lhe quando me disse o que estava fazendo. “Semolina”, afirmou. Como sabia disso? Eu sempre tinha acreditado na máxima islâmica de que Deus promete dar sustento a todos, até aos insetos. Achei que o homem era louco por desperdiçar sua compaixão com a espécie errada.“Tenho feito isso há três anos”, afirmou ele. “Elas parecem gostar.”

Ele estava indiferente em relação à imundice que o cercava. Não estava preocupado com os sacos plásticos que esvoaçavam ao vento nem com a textura oleosa da cinzenta água marinha. Não se importava com o Playa’s Bar nem com o Bruno’s, dois restaurantes chiques que foram construídos e abandonados antes mesmo da inauguração.

Ver esse homem e sua demonstração de desprendida bondade em meio à sujeira deveria ter me deixado feliz: ele resumia a generosidade da cidade que adotei como minha. Mas a caridade extremada daquele homem também representava o que há de errado em uma das mais populosas cidades do mundo.

Em setembro, Karachi ganhou mais uma elevada posição em uma classificação da Economist Intelligence Unit - como quinta pior cidade do mundo para se viver. Os pobres de Karachi podem discordar, já que provavelmente nunca tiveram a chance de conhecer outra cidade. Mas os ricos de Karachi reclamam bastante de sua podridão. Mas também, qualquer um que tenha observado o estilo de vida deles, nosso estilo de vida, dirá que eles são a podridão.

Karachi se tornou um lixão. Bastam alguns centímetros de chuva para inundar a cidade. Os bueiros estão entupidos de lixo. Canos de esgoto rompidos transbordam em razão do plástico acumulado. Os canais naturais que deveriam levar a água da chuva ao mar foram aterrados, e as pessoas construíram casas sobre eles. Bem próximo aos bairros ricos, há pilhas de lixo. Há muita indignação, muita revolta, a respeito desse lixo, mas ninguém parece muito interessado em falar a respeito de quem o produz.

Eu vejo lixo na minha rua todos os dias. As pessoas que mais reclamam do lixo são as que mais o produzem - e depois pedem a seus empregados que o levem para fora e o joguem na esquina. São os mesmos que nos passam sermões a respeito do dever cívico, das pessoas que se apropriam do espaço público da cidade. Mas eles são (ou nós somos) os privilegiados, porque nosso lixo é coletado. Há bairros em Karachi que nunca foram nem sequer visitados pelas autoridades municipais. Nunca mesmo.

A desigualdade nas grandes cidades é bem comum e muito acentuada, mas as elites de Karachi a levaram a um novo patamar. Parecem se importar somente com a remoção da sinalização de limite de velocidade das ruas, com o espaço para estacionar seus carros e com seus condomínios fechados, para proteger seus carros e suas famílias. E com a distância que desejam manter da ralé.

Ainda assim, apesar das abismais diferenças entre os índices de Karachi e de outras cidades do mundo, trabalhadores de todos os cantos do Paquistão ainda migram para lá - para acabar batendo na porta dos ricos, atuando às vezes como escravos modernos, às vezes como coletores de lixo autônomos.

Em Karachi, vemos crianças perambulando em meio ao tráfego de veículos e em centros comerciais cujas vitrines exibem modelos clássicos de Rolls-Royce - crianças tão pequenas que se esquecem que foram colocadas lá para mendigar e começam a brincar entre si. Mesmo assim, o que nos causa repulsa não é o fato de, nesta cidade, crianças a partir de três anos serem forçadas a viver em tamanha miséria; o que nos causa repulsa é ver uma criança defecando na sarjeta.

Nesta cidade, as mansões abrigam em média duas pessoas e meia, que são servidas por uma média de seis empregados - que vivem acampados em barracas erguidas do lado de fora. O alto desemprego significa que o trabalho é barato: o preço de um jantar para dois em um café em estilo francês na cidade equivale ao salário mensal de uma babá. As pessoas que pregam responsabilidade cívica são frequentemente as mesmas que construíram pequenos fortes para viver, à prova da cidade. A falta de serviços civis os afeta bem pouco; na verdade, são eles os responsáveis pela falta desse tipo de atendimento.

Minha rua é repleta de políticos e burocratas que passam as vidas entrando e saindo pelas portas   do poder público. Assim que alguma falta de energia ocorre no bairro, mil geradores são acionados - o ronco dos equipamentos me faz lembrar aquela sequência de Apocalypse Now, em que helicópteros em formação de ataque aparecem de repente na tela, prestes a bombardear um sereno vilarejo. No meu bairro, poderia chover fogo do céu, mas os ar-condicionados manteriam nossas salas de estar a estáveis 18°C.

Apesar de nossa paixão por ar-condicionados e nossa compulsão pela ideia de ter duas babás por bebê, temos consciência da mudança climática: estamos na briga para banir as sacolas de plástico. Só não nos preocupamos em pensar em uma alternativa para os milhões de trabalhadores que recebem nelas seu chá e suas refeições.

É evidente que as pessoas que produzem a maior quantidade de lixo fazem pouco para resolver esse problema - a não ser pagar miseravelmente seus empregados para descartar esse lixo suficientemente longe delas, para que não sintam seu fedor. Para elas, o shopping center construído sobre um aterro no Mar da Arábia não é um problema; mas um menino de três anos defecando em público do outro lado da rua é. Essas são as pessoas que não conseguem perceber a diferença entre lixo e pessoas trabalhadoras. Alguns têm de coletar o lixo para ganhar a vida - e são então tratados como lixo.

Pelas ruas dos bairros abastados de Karachi, meninos pequenos caminham com bolsas maiores do que eles penduradas nos ombros. Eles vasculham os detritos que jogamos fora, separando plásticos, garrafas de vidro vazias, de uísques escoceses contrabandeados, latas de Heineken amassadas, caixas de pizza feitas de papelão e tudo mais que possa ser reciclado ou vendido. De noite, com suas bolsas cheias, eles conseguem cerca de 200 rúpias (menos de US$ 1,30), o suficiente para duas refeições ou, para alguns deles, a dose diária de drogas. Nunca vi viciados mais trabalhadores do que eles em minha vida.

“O que você faz para ganhar a vida?”, perguntei ao homem que alimenta as formigas. Ele me contou que possui algumas dezenas de garrafas usadas de coca-cola e sprite, as enche com a água marinha poluída e espera. As pessoas que caem no mar e depois querem se enxaguar para se livrar do fedor pagam 20 rúpias (cerca de US$ 0,13) por uma garrafa cheia daquela mesma água marinha. É um modelo de negócio muito sustentável. O homem que alimenta as formigas sabe que Deus prometeu sustento para todos, mas prefere não se arriscar.

Mohammed Hanif é autor dos romances “O Caso Das Mangas Explosivas”, “Our Lady of Alice Bhatti” e “Red Birds”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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