Andrea Mantovani/The New York Times
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Para a França, as vinhas americanas ainda significam uvas azedas

Autoridades francesas tentaram proibir os resistentes híbridos americanos por 87 anos, mas mudanças climáticas e o movimento natural do vinho estão ajudando os vinicultores renegados

Norimitsu Onishi, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2021 | 05h00

BEAUMONT, França - As vinhas já foram demonizadas por causarem loucura e cegueira, e foram proibidas décadas atrás. As autoridades francesas, brandindo dinheiro e sanções, quase as exterminaram.

Mas lá estavam elas. Em uma encosta de uma estrada sinuosa em um canto perdido do sul da França, a safra proibida estava prosperando. No início de uma noite recente, Hervé Garnier inspecionou seu campo com alívio.

Em um ano em que geadas e doenças no mês de abril dizimaram a produção geral de vinho da França, as uvas Garnier - uma variedade híbrida americana chamada jacquez, proibida pelo governo francês desde 1934 - já estavam ficando vermelhas. Exceto por uma onda de frio no início do outono, tudo estava a caminho de uma nova safra.

“Realmente não há nenhuma razão para sua proibição”, disse Garnier. "Proibido? Eu gostaria de entender o porquê, especialmente quando você vê que a proibição não tem sentido.”

Garnier é um dos últimos retardatários em uma longa luta contra o estabelecimento vinícola francês e seus aliados em Paris. O governo francês tentou arrancar a jacquez e cinco outras variedades de vinhas americanas do solo francês nos últimos 87 anos, argumentando que são ruins para a saúde física e mental - e produzem um vinho ruim.

Mas, nos últimos anos, a resistência das variedades americanas ajudou vinicultores de guerrilha como ele, à medida que as mudanças climáticas causam estragos nos vinhedos da Europa e os vinhos naturais feitos sem o uso de pesticidas têm crescido em popularidade.

Apesar da promessa da França em 2008 de reduzir pela metade o uso de pesticidas, ele continuou a crescer na última década. Os vinhedos ocuparam pouco mais de 4% da área agrícola da França, mas usaram 15% de todos os pesticidas do país em 2019, de acordo com o Ministério da Agricultura.

Essas vinhas garantem safras abundantes, sem irrigação, sem fertilizantes e sem tratamento ”, disse Christian Sunt, membro do Forgotten Fruits, grupo que luta pela legalização das uvas americanas. Mostrando vinhas proibidas, incluindo as variedades clinton e isabelle, em uma propriedade na região sul de Cevenas, perto da cidade de Anduze, ele acrescentou: “Essas vinhas são ideais para fazer vinho natural”.

As uvas americanas há muito desempenham um papel central na tumultuada e emocional história do vinho entre a França e os Estados Unidos - ameaçando alternadamente a produção francesa e reavivando-a.

Tudo começou em meados de 1800, quando as vinhas nativas dos Estados Unidos foram trazidas para a Europa, com um piolho conhecido como filoxera. Enquanto as vinhas americanas eram resistentes à praga, as europeias não tiveram nenhuma chance. Os piolhos vorazes atacaram suas raízes, impedindo o fluxo de nutrientes para o resto da planta - e causando a maior crise da história do vinho francês.

Os piolhos destruíram milhões de acres, fecharam vinhas e mandaram franceses desempregados para a Argélia, uma colônia francesa.

Depois de um quarto de século assistindo impotente ao colapso da cultura tradicional do vinho na Europa, as melhores mentes do mundo do vinho tiveram uma epifania. A cura estava no veneno: as vinhas americanas.

Alguns vinicultores enxertaram as vinhas europeias nos resistentes porta-enxertos americanos. Outros cruzaram vinhas americanas e europeias, produzindo o que ficou conhecido como híbridos americanos, como a jacquez.

Diante da aparente extinção, a indústria vinícola da França se recuperou.

“Isso deixou uma marca até hoje”, disse Thierry Lacombe, um ampelógrafo, ou especialista em vinhas, que leciona na Montpellier SupAgro, uma universidade francesa especializada em agricultura. “Não foi a única vez que os americanos, nossos amigos americanos, vieram salvar os franceses.”

O mundo do vinho francês dividiu-se entre os defensores do processo de enxerto e das uvas híbridas.

Os enxertadores continuaram produzindo vinho de pinot, merlot, cabernet sauvignon e outras uvas clássicas europeias. Os híbridos americanos, eles costumavam dizer, cheiravam a urina de raposa.

Mesmo assim, os híbridos americanos prosperaram em toda a França. Mais resistentes e fáceis de cultivar, eram especialmente populares em áreas rurais como Cevenas. As famílias plantaram-nos nas encostas onde era impossível cultivar outras safras. Eles deixam-nos crescer em cima de árvores, cultivando batatas embaixo, como uma forma de tornar cada centímetro de terra produtivo. Os moradores colhiam e faziam vinho juntos, usando uma adega comum.

Com a França inundada de vinho, os legisladores resolveram urgentemente o problema perto do Natal de 1934. Para reduzir a superprodução, eles baniram as seis vinhas americanas - incluindo híbridas como a jacquez e uvas puras americanas como a isabelle - principalmente com o fundamento de que produziam vinho ruim. A produção para consumo privado seria tolerada, mas não para venda comercial.

O governo planejou continuar banindo outros híbridos, mas parou por causa da reação contra a proibição inicial, disse Lacombe. Então, a guerra forneceu outro adiamento.

Foi apenas na década de 1950 - quando os híbridos ainda eram cultivados em um terço de todos os vinhedos franceses - que o governo realmente começou a combater as seis uvas proibidas, disse Lacombe. Ofereceu incentivos para arrancar as vinhas ilícitas e ameaçou os produtores com multas.

Em seguida, condenou as uvas americanas como prejudiciais ao corpo e à sanidade, com argumentos “não completamente honestos para tentar reprimir uma situação que estava escapando do governo”, disse Lacombe.

“Na verdade, os atuais defensores dessas vinhas têm razão em sublinhar todas as inconsistências históricas e governamentais”, ele acrescentou.

A clinton e a jacquez poderiam ter tido uma morte silenciosa se não fosse por um movimento de volta à terra que, a partir dos anos 1970, trouxe pessoas como Garnier para Cevenas.

Com a crescente ameaça das mudanças climáticas e a reação contra o uso de pesticidas, Garnier espera que as uvas proibidas sejam legalizadas e que a indústria vinícola da França se abra a uma nova geração de híbridos - como a Alemanha, a Suíça e outras nações europeias já se abriram.

“A França é uma grande região vinícola”, ele disse. “Para permanecer assim, temos que nos abrir. Não podemos ficar presos no que já sabemos.” /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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