Victor Moriyama / The New York Times
Victor Moriyama / The New York Times

Para alguns, há dinheiro brotando dos incêndios no Brasil

Muitos dos fogaréus foram provocados por fazendeiros, uma poderosa força na economia do País, no intuito de limpar a terra e abrir espaço para pastagens

Clifford Krauss, The New York Times

06 de novembro de 2019 | 06h00

ALTAMIRA, BRASIL – Enquanto milhares de incêndios provocados pelo homem devastam sua imensidão, a floresta amazônica se transformou em um caos de fumaça nas ultimas semanas, com estradas e aeroportos envolvidos por uma névoa densa. Os governos locais declararam estado de emergência e aconselharam a população a não sair de casa.

Para praticamente todos na Amazônia – e para os defensores do meio ambiente no mundo todo – estes incêndios são um desastre, não só por representarem ameaças à saúde, mas também por destruírem uma floresta que tem um papel essencial na absorção do dióxido de carbono, e por contribuir para  impedir que as temperaturas subam ainda mais. Entretanto, para um grupo seleto, a fumaça cheira a dinheiro. Muitos destes fogaréus foram provocados por fazendeiros, uma poderosa força na economia do país, no intuito de limpar a terra e abrir espaço para pastagens.

Desmatamento por pecuaristas

O Brasil cria cerca de 200 milhões de cabeças de gado, ao que se calcula em 450 mil quilômetros quadrados de floresta transformados em pastos nas últimas décadas, afirma a School of Forestry de Yale. Os especialistas atribuem aos pecuaristas 80% do recente desmatamento na região, o que gerou ao surgimento de campanhas de âmbito internacional para pressionar os frigoríficos a deixarem de comprar gado das fazendas que utilizam esta prática.

Os incêndios são uma maneira rápida e ilegal de transformar a mata densa em pastagens. A execução da lei – as multas, quando cobradas, raramente são pagas – torna o risco calculado de pôr fogo na floresta um método fácil para os proprietários de enormes fazendas, que em geral moram em cidades a centenas de quilômetros de distância.  Os donos das fazendas menores, que vivem em sua terra, em geral não costumam pôr fogo no mato em grande escala.

Lenaldo Batista Oliveira, de 63 anos, dono de uma pequena fazenda no estado do Pará, disse que viu mitos incêndios ao longo dos anos, mas hoje está cada vez mais preocupado com o tamanho da destruição que vê ao seu redor. “Eles acham que podem queimar à vontade,” queixou-se, referindo-se aos seus vizinhos "poderosos".

Os vaqueiros e os empregados das fazendas que trabalham a terra em troca de salários míseros reagem de maneiras diferentes aos incêndios: alguns são contrários, enquanto outros os consideram um mal necessário para continuarem empregados. “Acordamos sem conseguir respirar direito”, disse Roberto Carlos da Silva, um peão de 48 anos da Fazenda Nossa Senhora, no estado do Pará. “Abrir mais terras para o gado só é bom para os ricos. Os pobres só sofrem para aguentar a fumaça enquanto se matam de trabalhar para apagar o fogo."

Miguel Pereira, de 52 anos, é um vaqueiro que cuida das vacas da fazenda. Ele disse que também não gosta da fumaça, mas mantém uma postura diferente: “Se você só protege o meio ambiente, então os fazendeiros deveriam afundar sob o peso dos gastos. Por outro lado, se não consegue desmatar um pouco, não tem como criar mais gado. Você precisa criar uma situação que seja boa para todos os lados.”

Regulamentação

Existem regulamentações do governo contra o desmatamento, mas elas são administradas ao acaso, na melhor das hipóteses, porque sua aplicação é dificultada pela imensidão e as distâncias da Amazônia. Desde janeiro deste ano, o policiamento deixou de se tornar uma prioridade com a posse do presidente Jair Bolsonaro (PSL), um populista de direita que colocou o desenvolvimento à frente das preocupações ambientais.

Três grandes frigoríficos brasileiros comprometeram-se a não comprar o gado diretamente de fazendas que usam terra desmatada ilegalmente. Mas o gado é frequentemente “lavado” ao longo das cadeias de fornecimento; muitas vezes, nasceu em uma fazenda em que a floresta foi arrasada ilegalmente, e engordou em outra recentemente formada por um incêndio, antes de ser vendido a uma última fazenda que obedece às convenções ambientais internacionais. A maior parte da carne bovina é consumida internamente, embora seja exportada em grandes quantidades, principalmente para a China.

Os fazendeiros que afirmam que não queimam novas áreas de floresta acham que deixarão de lucrar e se sentem frustrados com a lei. “Estou perdendo dinheiro porque eles não me deixam abater mais arvores”, argumentou Valdemar Gamba, cuja família é dona de 200 cabeças de gado. Os pecuaristas estão preocupados porque os incêndios tornam a vida mais difícil para eles e para os seus animais. “Vivemos graças às árvores e o tempo está  ficando mais quente porque as elas estão diminuindo”, destacou Luiz Rodriguez, de 53 anos, peão de uma fazenda que cuida  de um rebanho de 350 cabeças no estado do Pará. “Até o gado está sofrendo, porque o clima está ficando cada vez mais seco." / MARIANA SIMÕES CONTRIBUIU PARA A REPORTAGEM

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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