Jonno Rattman/The New York Times
Jonno Rattman/The New York Times

Para aprender os segredos das abelhas, conte-as uma a uma

O declínio das populações de abelhas é uma crise iminente, mas há uma escassez de dados científicos. Pesquisadores hiperlocais, com redes e cadernos, podem ser essenciais

Oliver Whang, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2021 | 05h00

Durante todo o final do verão e início do outono (no hemisfério norte), Max McCarthy, um estudante de pós-graduação na Rutgers University, caminhou pelas terras úmidas no norte de Nova Jersey com uma rede para apanhar abelhas, as quais marcou com minúsculas canetas coloridas. Três pontos, cada um de uma cor diferente, nos minúsculos tórax das abelhas antes de soltá-las novamente. Ele escreveu essa informação em seus cadernos, contando os insetos um por um.

Não são abelhas quaisquer. McCarthy está caçando uma abelha rara, a Andrena parnassiae. A espécie só é encontrada perto de uma planta com flores chamada grama de Parnassus, que, no nordeste dos Estados Unidos, só cresce em terras úmidas alcalinas, ou pântanos.

Marcando as abelhas, McCarthy, junto com sua supervisora Rachael Winfree, ecologista da Rutgers, está tentando ver com que facilidade esses insetos podem se mover entre fragmentos de habitat e até que ponto. Como seu ecossistema é perturbado por mudanças climáticas, desenvolvimento e espécies invasoras, como os insetos irão se adaptar?

Os pesquisadores esperam que seus dados sobre essa espécie pouco conhecida esclareçam uma questão urgente e complexa: o declínio dos polinizadores.

Os polinizadores, que incluem as abelhas, executam papéis vitais nos ecossistemas naturais. Quase 90% das plantas com flores dependem de polinizadores animais para se reproduzirem, e cerca de 35% das safras do mundo também dependem de polinizadores. O valor econômico das abelhas é estimado em dezenas, senão centenas, de bilhões de dólares. Embora polinizadores domesticados como as abelhas possam ser usados como substitutos agrícolas, eles não podem preencher completamente o papel dos polinizadores selvagens.

Apesar desta gravidade, a escala de declínio dos polinizadores não é bem compreendida. O que a comunidade científica sabe vem de uma pequena seleção de estudos locais e evidências anedóticas de naturalistas mais antigos.

“Há alguns fortes indícios de que as populações de polinizadores diminuíram drasticamente, mas estamos apenas começando a entender quão profundo e amplo é o problema”, disse David Wilcove, professor de biologia da conservação e políticas públicas da Universidade de Princeton que não está envolvido na pesquisa de McCarthy e Winfree.

Entender quais espécies estão em declínio, por que e como elas reagem às mudanças de habitats pode ajudar os cientistas a antecipar esses tipos de mudanças ambientais. “As pessoas não gostam de contar insetos, mas as pessoas que os contam podem nos dizer coisas que ninguém mais pode”, acrescentou Wilcove.

As abelhas são os polinizadores mais robustos da América do Norte. Mas nos Estados Unidos, a única longa pesquisa com abelhas foi sobre o gênero Bombus, a mamangaba, e é difícil saber se esses dados são relevantes para as centenas de outros grupos de abelhas do país. A Pensilvânia é o único Estado com uma lista parcial de suas espécies de abelhas nativas.

Existem razões técnicas para esta escassez de dados sobre a população de abelhas. As abelhas são pequenas, “e a identificação é muito difícil”, disse Winfree. Para rastrear seu movimento e contar o tamanho da população, ela explicou, as abelhas devem ser monitoradas individualmente.

O que pode ajudar os pesquisadores é estreitar onde as abelhas poderiam estar. Mas as abelhas que polinizam apenas plantas específicas, como os mirtilos, também são difíceis de rastrear, porque as plantas geralmente estão muito disseminadas.

McCarthy, contudo, é capaz de saber a localização de cada população de A. parnassiae no norte de Jersey porque são sempre encontradas em torno da grama do Parnassus, que só cresce em pântanos. "Há muitas abelhas que são especializadas, mas poucas que são especializadas em plantas que também são especializadas", ele disse.

Embora McCarthy esteja apenas em seu segundo ano de pesquisa, ele provavelmente sabe mais sobre o comportamento da A. parnassiae do que qualquer outro cientista vivo - em parte porque a espécie é rara (só foi documentada em alguns estados) e em parte porque poliniza em pântanos , que têm pouco valor agrícola. Winfree até mesmo apontou, enquanto estava ao lado de um Parnassus em flor, que McCarthy foi o primeiro a detectar a abelha na área. Ela não tinha sido vista em Nova Jersey até o ano passado.

A dupla dirigiu até um pequeno pântano no final do verão às margens do White Lake, em Hardwick Township. McCarthy tinha caminhado pela área por 30 minutos, capturando 10 abelhas com movimentos treinados de sua rede. Sentado sob uma árvore com um dos insetos na mão, ele espiou suas costas cobertas de pólen através dos óculos. Arrancando um espinho de um arbusto berbere-japonês nas redondezas ele raspou a poeira amarela, revelando três pontos pintados embaixo. Azul, amarelo e branco. Ele já havia marcado essa. Ele escreveu “BYW” em seu caderno e soltou a abelha.

É um trabalho tedioso, mas McCarthy e Winfree esperam que suas descobertas - sobre o tamanho da população local e se os insetos estão se movendo entre pântanos - possam servir como um ponto de dados na questão global do declínio dos polinizadores. Quão resilientes os animais serão à destruição do habitat? Com que rapidez estão morrendo? Para responder a essas perguntas, comece com uma única abelha. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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