Caitlin Ochs para The York Times
Caitlin Ochs para The York Times

Para esses americanos, fazer e decorar biscoitos é uma forma de terapia

A doceira Katy Metoyer encontrou no próprio empreendimento um modo de superar o luto

Kim Severson, The New York Times

19 de dezembro de 2018 | 06h00

HOLLADAY, UTAH - Dez anos atrás, Georganne Bell era uma solitária esposa de militar na Coreia do Sul, com dois filhos e um forno tão pequeno que não cabia nem uma forma de bolo. Assar bolos sempre fora sua forma de expressar criatividade, mas, sem um forno decente, tudo o que ela podia fazer eram cookies. E eles logo viraram sua obsessão. Ela sentia algum consolo no ritmo com que aplicava glacê na superfície branca dos biscoitos. 

“Tem alguma coisa no glacê que é extremamente calmante”, disse ela. “Naquele instante, você se esquece do resto do mundo”. Os cookies também salvaram Katy Metoyer. A mãe de dois filhos começou a fazê-los quando o filho mais novo foi para a escola. Logo depois, seu pai morreu, inesperadamente. 

Nos dez meses seguintes, Metoyer, 47 anos, mal saiu de casa. Em vez disso, decorou o que ela calcula terem sido mais de 10 mil cookies. “Eu fazia uns 50 de cada vez, ficava olhando para eles, depois jogava tudo fora”, disse ela. “Era meu vício, minha terapia”. O que começou como uma maneira de se sentir melhor acabou transformando essas duas mulheres em estrelas - pelo menos no campo estreito e aconchegante dos padeiros amadores que se referem a si mesmos como cookiers, ou fazedores de cookies.

Há dezenas de milhares de pessoas que talvez se identifiquem como cookiers. Algumas vendem cookies para vizinhos. Outras transformaram suas garagens em pequenas empresas. E, no topo dessa lista, estão aquelas que poderiam ser melhor chamadas de famosas: mulheres como Bell e Metoyer, que ganham até 7 dólares por biscoito e 450 dólares por um dia inteiro de aula de decoração.

A elite do cookie tem sites com tutoriais e conselhos que atraem tráfego suficiente para render milhares de dólares por mês. Seus cortadores de cookies são cobiçados e suas contas no Instagram bombam. Para as profissionais, é uma questão de explorar os limites do desenho com um arsenal de utensílios que podem incluir canetas para colorir alimentos, prata comestível, pistolas de spray e embalagens.

É difícil identificar exatamente quando começou a última moda de decoração de cookies, mas provavelmente foi há cerca de 10 anos, quando cozinheiros e outros entusiastas começaram a se encontrar online. As pessoas que iniciaram a tendência eram, na maior parte, mães que não trabalhavam fora de casa, mas tinham pouco interesse em outros ofícios.

Agora são mães conservadoras de Michigan, médicos gays da Geórgia, mórmons de Utah e surfistas da Califórnia, todos em busca da criatividade nos cookies. A única vez em que muitos deles se encontram é na CookieCon, que começou em 2012 com 200 cookiers em Salt Lake City, Utah. A próxima será em março, em Reno, Nevada. Os 800 estandes esgotaram em menos de um dia e a lista de espera continua crescendo.

A CookieCon se tornou uma das experiências mas transformadoras da vida de Arlene Chua. Seus desenhos são menos extravagantes e mais técnicos. Querem ser arte, não o lanchinho da tarde. Em uma das muitas noites sem dormir que se seguiram à morte da mãe, ela encontrou um vídeo de decoração de cookies no Facebook. Passou o ano seguinte decorando biscoitos.

Ela ganhou um ingresso para a CookieCon e passou quase dez horas decorando um cookie que conquistou o terceiro lugar na convenção. “Isso me colocou no mapa dos cookies”, ela disse. Chua continua impressionada com o fato de algo que começou como um alívio para o sofrimento ter se tornado a coisa em que ela mais pensa. Sim, os cookies. Mas também os cookiers, que ela descreve como uma tribo extraordinária, que consegue deixar de lado as diferenças culturais e políticas. “Não sei explicar”, disse ela. “Estamos todos conectados pelos cookies, e é isso que importa”.

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