Jeenah Moon/The New York Times
Jeenah Moon/The New York Times

Para evitar lesões na corrida, não mexa muito em sua rotina, diz estudo

Corredores que fizeram de oito a mais mudanças em suas rotinas de corrida tiveram alto risco de lesões, especialmente se estavam sentindo-se estressados

Gretchen Reynolds, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2021 | 05h00

Segundo um novo estudo sobre como os corredores se machucaram durante os lockdowns relacionados à covid no ano passado, para evitar lesões, os corredores devem tentar não mudar suas rotinas de corrida com muita frequência ou muito rapidamente.

E à medida que saímos das restrições da pandemia, manter seus hábitos regulares de exercícios pode ser especialmente importante se você ainda está se sentindo sozinho, ansioso ou desorientado de algum modo. Estresse, isolamento e outras reações psicológicas comuns à pandemia aumentaram os riscos de lesões, mostrou o estudo, sugerindo que nossos estados mentais e emoções - não apenas nosso treinamento - podem afetar nosso afastamento.

A maioria dos corredores infelizmente está familiarizada com as dores, distensões e consultas ortopédicas que acompanham a corrida frequente. Os corredores se machucam mais do que em muitos outros esportes recreativos, incluindo ciclismo e natação. Segundo algumas estimativas, até dois terços dos corredores sofrem anualmente uma lesão grave o suficiente para deixá-los mancando por uma semana ou mais.

O motivo dos corredores serem tão frágeis permanece incerto. Alguns estudos apontam para aumentos repentinos e substanciais na quilometragem. Outros encontram pouca ou nenhuma correlação entre quilometragem e lesão e, em vez disso, citam a intensidade; aumente suas sessões de intervalo, essa ciência sugere, e você se machucará. Ou, como indicam outras pesquisas, as trilhas de concreto podem ser as culpadas; ou os tênis de sola grossa; ou os modelos minimalistas; ou possivelmente as esteiras, as corridas em grupo, uma forma de corrida excêntrica ou simplesmente o azar.

Mas um grupo de cientistas da Auburn University, no Alabama, e de outras instituições que pesquisam exercícios se sentiu cético em relação ao foco de muitas pesquisas anteriores, que geralmente buscavam isolar uma única causa provável de danos relacionados à corrida. Sendo eles mesmos corredores, os pesquisadores suspeitaram que a maioria das lesões envolve uma complexa rede de gatilhos - alguns óbvios, outros sutis, com interações esquivas entre eles. Eles também reconheceram que, até que entendamos melhor por que as lesões por corrida acontecem, não temos como evitá-las.

Então veio a pandemia, que mudou de forma abrupta e profunda muitas coisas em nossas vidas - incluindo, para muitos de nós, a forma como corremos. Diante dos lockdowns, da ansiedade, trabalho e estudo remotos, começamos a correr mais ou menos do que antes. Com mais força ou mais suavidade, talvez sem nossos parceiros habituais e em terrenos desconhecidos.

Sentindo que uma gama tão ampla de mudanças apressadas e misturadas nos padrões de corrida das pessoas poderia fornecer um experimento natural sobre a forma com a qual nos machucamos, os pesquisadores decidiram perguntar aos corredores o que havia acontecido com eles durante o lockdown.

Sendo assim, para o novo estudo, que foi publicado em junho na revista Frontiers in Sports and Active Living, eles organizaram uma série de questionários on-line extensos investigando estilos de vida, ocupações, humores, hábitos de corrida e lesões por corrida das pessoas, antes e durante os lockdowns locais relacionados à pandemia. Eles então convidaram adultos com qualquer experiência em corrida para responder, fossem eles corredores recreativos ou profissionais.

Mais de 1.000 homens e mulheres responderam, e suas respostas foram esclarecedoras para os pesquisadores. Cerca de 10% dos 1.035 corredores relataram ter se machucado durante o lockdown, com alguns fatores de risco individuais surgindo nos dados. Os corredores que aumentavam a frequência de seus treinos intensos tendiam a se machucar, por exemplo, assim como aqueles que se moviam para trilhas de outras superfícies, provavelmente porque não estavam familiarizados ou por que fizeram tentativas em terrenos irregulares.  

Os corredores que relataram terem menos tempo para se exercitar durante o lockdown também enfrentaram riscos elevados de lesões, talvez porque tenham trocado treinos longos e suaves por mais breves e fortes ou por que suas vidas, em geral, pareciam estressantes e preocupantes, afetando sua saúde e sua forma de corrida.

Mas, de longe, o maior contribuinte para o risco de lesões foi modificar um cronograma de corrida estabelecido de várias maneiras simultâneas, quer isso significasse aumentar - ou reduzir - a quilometragem ou intensidade semanal, mover-se para ou de uma esteira, entrar ou sair de um grupo de corrida. O estudo descobriu que os corredores que fizeram oito ou mais alterações em seus treinos normais, não importa quão grandes ou pequenas fossem essas alterações, aumentaram muito a probabilidade de lesões.

E, curiosamente, o humor das pessoas durante a pandemia influenciou o quanto elas alteraram sua corrida. Os corredores que relataram se sentirem solitários, tristes, ansiosos ou geralmente infelizes durante o lockdown tenderam a reajustar suas rotinas e aumentar o risco de lesões com mais frequência do que aqueles que relataram se sentir relativamente calmos.

Tomados como um todo, os dados sugerem que "devemos olhar para os componentes sociais e outros aspectos da vida das pessoas" ao considerar por que os corredores - e provavelmente as pessoas que praticam outros esportes também - se machucam, disse Jaimie Roper, professora de cinesiologia na Auburn University e autora principal do novo estudo. O humor e a saúde mental provavelmente desempenham um papel maior no risco de lesões do que a maioria de nós poderia esperar, ela disse.

Este estudo se baseia, no entanto, nas memórias e na honestidade de um grupo auto selecionado de corredores dispostos a se sentarem na frente de um computador para responder perguntas invasivas. Eles podem não representar a todos nós. O estudo também foi observacional, o que significa dizer que os corredores que mudaram seus treinos também costumavam ser corredores com lesões, mas não significa que as mudanças necessariamente causassem essas lesões.

Talvez o mais importante, os resultados não insinuam que devemos sempre tentar evitar ajustes em nossas rotinas de corrida. Ao invés disso, “seja focado no que você muda”, disse Roper. “Concentre-se em uma coisa de cada vez” e faça alterações graduais. Aumente a quilometragem, por exemplo, em apenas 10% ou 20% por semana e adicione uma única sessão nova de intervalo, não três. E se você estiver se sentindo particularmente estressado, talvez não deva alterar nada por enquanto, praticando quaisquer exercícios familiares que pareçam toleráveis e divertidos. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times

Tudo o que sabemos sobre:
corrida de rua

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.