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Para executivos, 'Game of Thrones' não termina no episódio final

Série da HBO quer seguir caminho de 'Harry Potter' e produzir novos conteúdos

Jeremy Egner, The New York Times

14 de abril de 2019 | 06h00

O maior sucesso da HBO de todos os tempos, Game of Thrones, terá sua temporada final transmitida a partir deste domingo, e pelo menos uma das personagens centrais da história gostaria que esse fosse um fim definitivo. “É um fenômeno que ninguém previu, e entendo a motivação de alguém que pense, ‘Vamos fazer mais 1.500 capítulos, já que a receita funciona”, disse recentemente Emilia Clarke, que interpreta Daenerys Targaryen. “Só acho que não deveriam fazer isso.”

Mas as tendências da cultura pop e as pressões do mercado podem contrariá-la, e o piloto de uma história anterior já está em fase de planejamento. O futuro será definido pela resposta a uma pergunta essencial: afinal, Game of Thrones é uma série ou um universo? Com base no número de espectadores, impacto na indústria e atenção global, Thrones é um dos maiores sucessos da história da TV. Mas, conforme as corporações gigantes compram umas as outras e planejam novas plataformas de conteúdo ilimitado em uma batalha cada vez mais frenética pelos olhos e dólares do público do entretenimento, grandes sucessos não são mais suficientes.

Assim, apesar de restarem apenas seis episódios na épica saga de Jon Snow, Daenerys Targaryen, Tyrion e seus amigos, é provável que nossa exploração de Westeros esteja apenas começando. Pensemos no caso de Star Wars. Depois que a Disney comprou a Lucasfilm em 2012 por US$ 4 bilhões, a empresa passou a extrair de tudo da franquia, planejando múltiplas trilogias para o cinema, filmes independentes e séries para a TV, além de uma presença de imenso destaque nos parques temáticos da Disney.

Ou o caso de Harry Potter (que, como Game of Thrones, é parte do império da WarnerMedia): depois de oito filmes adaptados a partir dos livros, a série já está se aprofundando numa história anterior Animais Fantásticos, e também conta com atrações turísticas em todo o mundo.

Ou o mais poderoso de todos os universos da cultura pop: as histórias da Marvel (também pertencente à Disney), que ainda este mês concluirá a série Vingadores com Vingadores: Ultimato, mas, em junho, deve estender a série X-Men com Fênix Negra, estrelando a atriz Sophie Turner (a Sansa Stark de Game of Thrones). Assim, a incrivelmente popular (e lucrativa) série Game of Thrones não seria uma candidata perfeita a receber tratamento semelhante?

Os que defendem essa abordagem incluem praticamente cada detalhe envolvendo o programa. Em fevereiro, a AT&T recebeu autorização final para a fusão de US$ 85,4 bilhões com a empresa dona da HBO, Time Warner, e deve lançar uma plataforma de conteúdo via streaming (WarnerMedia) para concorrer com serviços a serem apresentados pela Disney - que acaba de fechar um acordo de US$ 71,3 bilhões pra a compra da 21st Century Fox - e pela Apple, além das concorrentes já estabelecidas Netflix, Amazon e Hulu.

O executivo John Stankey, da AT&T, encarregado de administrar a WarnerMedia, disse que a HBO terá um orçamento maior para a programação, com o objetivo de aumentar a produção. “Queremos ampliar nosso investimento em conteúdo diferenciado", disse ele em meados do ano passado em reunião para falar do lucro da empresa. Ainda está em aberto o quanto desse conteúdo será ligado a Thrones (se é que haverá conteúdo do tipo). 

A AT&T não quis responder. Thrones é adaptada a partir da série Crônicas de Gelo e Fogo, criada por George R.R. Martin, cuja história é tão densa que renderia dúzias de séries e filmes. “É um universo rico demais para não aproveitarmos", disse Casey Bloys, presidente de programação da HBO. “Por outro lado, não quero produzir nada disso por obrigação.”

A produção do piloto da história anterior, criada por Martin e Jane Goldman, começará em meados deste ano. Situado milhares de anos antes dos acontecimentos de Game of Thrones, o roteiro vai explorar a história dos Caminhantes Brancos e da família Stark, estrelando Naomi Watts e Miranda Richardson. A ideia é uma das muitas histórias anteriores encomendadas pela HBO, que não excluiu a possibilidade de iniciar a produção de alguma delas no futuro.

E, a partir do ano que vem, os fãs de Thrones terão o mesmo privilégio de seus colegas de Star Wars, Harry Potter e universo Marvel: conhecer uma versão em carne e osso da sua fantasia. A atração turística Game of Thrones Studio Tour, englobando 10.200 metros quadrados, deve ser inaugurada no primeiro semestre de 2020 na Irlanda do Norte, onde boa parte da série foi filmada. 

Inspirado no estúdio de Harry Potter explorado pela Warner Bros. nos arredores de Londres, o projeto vai transformar os Estúdios Linen Mill, em Banbridge, onde partes de Thrones foram filmadas, em uma exposição interativa mostrando os cenários, figurino, objetos de cena e armas usados na série.

É importante destacar que há obstáculos para o potencial de Game of Thrones de se tornar o próximo Star Wars. Um deles é o teor decididamente adulto do conteúdo - cenas de nudez, sexo e violência impedem a adesão de fãs mais novos, uma demografia que consome avidamente as maiores franquias (a HBO diz que isso vai manter Thrones relevante mesmo que não sejam rodadas novas séries, pois novas gerações poderão descobrir a saga).

Outro obstáculo é a própria HBO. A rede se tornou um dos nomes mais importantes da televisão por causa do seu bom gosto e compromisso com a qualidade. É conhecida por abandonar vários pilotos que não alcançaram seu padrão de qualidade, e só se envolverá na produção de uma série a partir do capítulo anterior se esta for condizente com as expectativas criadas por Thrones, disse Bloys.

Há uma facção pouco interessada em novas versões de Game of Thrones: os astros do programa. Nikolaj Coster-Waldau, que interpreta Jaime Lannister, disse não ter nenhum interesse em voltar a Westeros. Mas, embora o elenco esteja no auge da popularidade no universo cultural, alguns sabem o quanto as coisas podem mudar rápido. “Daqui a cinco anos", disse Coster-Waldau, “seremos todos guias turísticos da Game of Thrones-lândia". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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