Victor Llorente / The New York Times
Victor Llorente / The New York Times

Para expressar o som da alma de um país ele inventou novos instrumentos

Criações do compositor, inventor e escritor guatemalteco Joaquín Orellana são temas de exposição

Corinna da Fonseca-Wollheim, The New York Times - Life/Style

10 de março de 2021 | 05h00

NOVA YORK - Num conto o compositor, inventor e escritor guatemalteco Joaquín Orellana imagina um músico que, insatisfeito com os instrumentos da civilização ocidental, decide criar o som da fome. Possuído pelo desejo de expressar o sofrimento do seu povo, aos poucos ele vai se esvaindo de fome e depois grava sua voz alterada e desvairada. No seu delírio vê as partituras adquirirem vida com gritos angustiados e violentos - o som da fome.

Orellana, 90 anos, é um dos compositores mais respeitados do seu país e sua obra é tema de uma exposição fascinante no Americas Society, intitulada The Spine of Music, que mostra instrumentos - esculturais, surrealistas e obscuramente sensuais - que ele inventou. Como o protagonista do seu conto, Orellana procura expressar o sofrimento de um país traumatizado pelo genocídio e pela guerra civil, evitando usar os materiais da música ocidental.

Muitos compositores escrevem música para instrumentos que já existem. Uma exceção foi Wagner, que criou um instrumento híbrido, entre tuba e trompa, para o seu ciclo do Anel. O compositor Harry Partch inventou instrumentos adaptados ao seu sistema de afinação nada ortodoxo. Em uma entrevista por vídeo da Cidade da Guatemala, Orellana falou do seu processo como uma libertação da imaginação musical das formas pré-concebidas.

“O compositor está impregnado da sua realidade social. O compositor é um filtro e sua sensibilidade social está integrada nesse filtro”. Quando ideias musicais inundam a imaginação do compositor, acrescentou, “nessa mente auditiva estão os conceitos e imagens de um contexto social, uma realidade sociopolítica, e a música está inevitavelmente comprometida com essas coisas”.

Orellana começou seus experimentos com materiais de produção de som nos anos 1970. Ele estudou violino e composição no Conservatório Nacional na Cidade de Guatemala, mais tarde ganhou uma bolsa de dois anos para estudar no Centro Latino-americano de Altos Estudos Musicais, em Buenos Aires, Argentina. Esse Centro era um íman para compositores inovadores de todo o continente, com um estúdio de música eletrônica de última geração que despertou a imaginação do compositor.

Ele não tinha recursos técnicos similares quando retornou à Guatemala. E se alienou da cena musical para se centralizar nas tradições folclóricas expressas através de um instrumento nacional, a marimba.

A marimba fascinava Orellana. Ela muito provavelmente chegou ao país através das rotas da escravidão da África Ocidental e foi acolhida pela população rural na Guatemala como símbolo das esperanças, sofrimentos e injustiças do seu país. Ele desconstruiu o instrumento, dando-lhe novas formas.

Orellana chama suas invenções de “útiles sonoros”, ou ferramentas sonoras. “Por meio deles a marimba se estende no espaço acústico e físico como numa espécie de Big Bang”.

A primeira ferramenta sonora a saudar os visitantes na galeria Americas Society é uma imbaluna esquelética, com um teclado em forma de meia lua sustentada por amplificadores de som pontiagudos. (os nomes das invenções de Orellana com frequência são palavras compostas poéticas. Imbaluna é uma palavra composta de “marimba” e “luna” ou lua em espanhol)

O “circumar” tem a forma de uma grande chaleira com as teclas da marimba suspensas no sentido perpendicular ao chão. E as teclas estão suspensas seguindo a forma sinusoidal, parecida a uma montanha russa. Os dois instrumentos são tocados passando uma baqueta ao longo do interior do instrumento num movimento contínuo - o que exige o uso total do braço e do torso do intérprete e produz um som tilintante. Sebastián Zubieta, diretor musical da Americas Society, disse que, nas criações de Orellana “é o gesto que dá forma a elas”.

Esses instrumentos - e outros criados similarmente, usam carrilhões de metal ou varas de bambu e podem ter um som muito parecido ao da música eletrônica. Zubieta diz que não é por acaso que os sons criados num instrumento sinusoidal ou circular se assemelhem àqueles criados através de um sequenciamento ou looping eletrônico. “É como uma fita velha. É uma solução de pouca tecnologia para um desejo vanguardista”.

O engenho das invenções de Orellana com frequência oscila entre o lúdico e o cruel. O periomin é uma espécie de cadeira de balanço que, quando colocado em movimento produz carrilhões de vento balançando, de um lado para o outro, fios de contas de plástico, que soam como uma cascata de vidro. O pinzafer é uma grande placa de ferro com a forma de uma cauda de lagosta suspensa em uma estrutura de ferro. Quando se passa um arco, com cordas de piano, por um recorte serrado isto produz um gemido metálico e surdo. E quando esse arco é passado sobre o tubarc, um tubo de metal fixado numa estrutura retangular, o som resultante é de um apito agudo que faz ranger os dentes.

Em suas composições Orellana usa muito as suas invenções juntamente com cantos corais, sons de ambiente gravados e instrumentos ocidentais. Em 2017, ele compôs a Sinfonia do Terceiro Mundo para o evento Documenta 14, em Atenas. Encheu o palco de coros infantis e adultos, uma orquestra sinfônica e suas ferramentas de som. Foi uma réplica da Sinfonia nº 9 de Dvorak, com o subtítulo Do Novo Mundo.

Para a exposição da Americas Society ele compôs uma nova peça exclusivamente para as suas criações. Intitulada Pontos e Eflúvios a ideia é que a peça seja interpretada por quatro percussionistas dentro da galeria e em certos momentos membros do público serão convidados a participarem com gritos, urros e choros numa linguagem que Orellana inventou.

Devido às limitações impostas pela pandemia. Zubieta gravou cada parte da composição; a peça editada, com o tilintar de alfinetes e o torvelinho de estrondos assombram a galeria em intervalos regulares. Um vídeo mostra alternadamente cenas de Orellana em gestos ritualísticos da música e imagens da sua partitura gráfica, que, com garranchos rítmicos, grupos de pontos e diagramas coreográficos, nos remetem à visão, no seu conto, de pentagramas de partituras se dispersando.

Fazendo uma retrospectiva da sua carreira, Orellana afirmou: “Compor música para mim nunca foi um processo determinado, mas uma maneira de me libertar das obsessões: a obsessão de manifestar o som e uma necessidade compulsiva de tirá-lo de mim.

“Cheguei à conclusão de que o que estou tentando fazer é libertar o som”. /TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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