Wissam Nassar para The New York Times
Wissam Nassar para The New York Times

Para manifestante de Gaza, viver ou morrer é a ‘mesma coisa’

Esperança é uma commodity rara em Gaza, região que é pouco mais do que uma prisão a céu aberto

Iyad Abuheweila e David M. Halbfinger, The New York Times

03 Maio 2018 | 15h15

GAZA - Ninguém notaria Saber al-Gerim na multidão de palestinos, protestando contra Israel ao longo da cerca fortemente vigiada que ajudou a transformar a Faixa de Gaza em uma prisão a céu aberto. Não por sua aparência jovem.

Aos 22 anos, ele usa jeans rasgados e tênis branco, tem um corte de cabelo moderno e carrega uns quilos a mais por causa dos muitos meses sem trabalho. Não por sua raiva.

Gritando “Allahu akbar!”, jogando pedras ou tentando puxar um cabo preso à cerca de arame farpado de Israel, na esperança de arrebentá-lo, ele é apenas mais um na multidão, protagonista de um drama só seu.

Esse rapaz, filho de um morador de rua, está a poucos metros de Israel, diretamente na linha de fogo. Os soldados, os únicos israelenses que Gerim já viu de perto, podem ser vistos através da fumaça dos pneus que queimam, indo e vindo pelas trincheiras no alto dos bancos de areia, às vezes lançando bombas de gás lacrimogêneo, outras vezes abrindo fogo.

Gerim, bem ao alcance dos disparos, retomando o fôlego entre jogar uma pedra e outra, grita de volta: “Queremos voltar!”

Não importam as causas antigas nem as imediatas - sobre incitamento e militância, sobre cerco e controle, sobre quem fez o que primeiro a quem. Uma coisa está bem clara. Mais de uma década de privação e desespero, com poucas esperanças de alívio, levou milhares de jovens de Gaza a se lançarem a um protesto que ninguém acha que realmente possa alcançar seu objetivo declarado: o retorno aos lares que seus antepassados deixaram em 1948 e que agora é Israel.

Desde que os protestos começaram, em 30 de março, pelo menos 46 pessoas foram mortas e outras centenas ficaram gravemente feridas, segundo a secretaria da Saúde de Gaza.

Com taxa de desemprego de 64% entre os jovens, Gaza, sob um bloqueio mantido por Israel e Egito há anos, apresenta inúmeros homens como Gerim, aos quais restam apenas as mais sombrias opções.

Eles podem buscar educação e formação para vidas e carreiras que agora parecem fora de alcance ou esperar por uma chance de emigrar. Podem se juntar a grupos como o Hamas ou a Jihad Islâmica, dedicando-se ao conflito armado contra Israel em troca de um meio de vida e alguma sensação de propósito e pertencimento. Ou podem ficar em casa, enfrentar o tédio fumando shisha, uma mistura de melaço com tabaco ou coisas mais fortes, e esperar que as coisas mudem.

Gerim não se considera nem terrorista nem combatente da liberdade. Ele não é muito de rezar nem de falar de política; diz que não pertence ao Hamas, nem ao Fatah, nem a qualquer outra facção. É um jovem que não tem nada para fazer, para quem os protestos ofereceram a chance de fazer churrasco com amigos até de madrugada, dormir até tarde no dia seguinte, ser útil para cantar canções de amor, de martírio e de luto. E atacar um inimigo odiado a tarde toda.

“Não me importa se eles atiram em mim ou não”, disse em um momento de tranquilidade. “Vida ou morte - é tudo a mesma coisa”.

Os protestos, que têm uma programação de festival, com jogos, shows e performances ao ar livre - e carnificina toda sexta-feira -, devem chegar ao clímax em 15 de maio, dia em que os palestinos relembram a Nakba, ou catástrofe, de sua fuga e expulsão, quando Israel foi fundada, há 70 anos.

O protesto - que nasceu da página de um jovem ativista no Facebook e era uma iniciativa popular antes de ser adotado, organizado e divulgado pelo Hamas, grupo islâmico que governa Gaza - não forçou os israelenses a alterar sua política básica. O país continua a tratar o pequeno enclave costeiro como um vírus mortal, que deve ficar em quarentena.

Mas o protesto tem sido um sucesso em um aspecto importante: lançou luz sobre o problema sem solução que é Gaza e lembrou a um mundo que parecia mais preocupado com crises mais urgentes que seus 2 milhões de habitantes, privados de água limpa, liberdade de ir e vir e fornecimento constante de eletricidade, estão sempre a ponto de cair no desespero.

Gerim é bastante estoico para um rapaz de 22 anos, mas talvez seja só uma reação à adversidade: seu pai sofre com transtornos mentais, diz Gerim, dado a estourar de fúria diante de qualquer decepção. Sua família - dois irmãos mais novos, sua irmã e seus pais - compartilha um único quarto, sem camas. O chão da cozinha é de areia.

Certa noite, pouco tempo atrás, os manifestantes estavam voltando para casa. E, então, Gerim cantava mais uma vez - agora uma melodia libanesa sobre o cansaço dos conflitos. “Já chega”, ele murmurou suavemente em árabe. “Chega de misérias, promessas e palavras. Os alunos da escola, os sinos da igreja, o soldado, o cavaleiro e os chamados de oração - todos rezam pela paz duradoura”.

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