Vincent Tullo para The New York Times
Vincent Tullo para The New York Times

Para o cérebro, arte e pornografia são o mesmo?

Pesquisadores debatem as origens neurológicas do prazer

Heather Murphy, The New York Times

12 Maio 2018 | 11h00

Está em andamento uma batalha pelo prazer. Psicólogos, neurologistas e neurocientistas estão forjando alianças em torno da questão da semelhança ou diferença entre o prazer que obtemos da arte e aquele que origina dos doces, do sexo ou das drogas.

O debate teve início com um artigo opinativo intitulado “Viciados em prazer por todos os lados!” publicado no ano passado na revista Proceedings of the Royal Society B. No artigo, Julia F. Christensen, neurocientista da Universidade de Londres, argumentava que muitos de nós foram transformados em “zumbis viciados no prazer, cedendo nosso livre arbítrio em troca da próxima dose de dopamina” proporcionada pelas redes sociais, a pornografia e o açúcar.

Ela ofereceu uma solução pouco convencional: a arte, que, de acordo com ela, cria um envolvimento que nenhum desses outros prazeres é capaz de proporcionar, ajudando a “desfazer os efeitos maléficos das ansiedades e desejos disfuncionais”.

Marcos Nadal, psicólogo da Universidade das Ilhas Baleares, e Martin Skov, neurocientista do Centro Dinamarquês de Pesquisa em Ressonância Magnética, escreveram numa resposta publicada na mesma revista em março que esta linha de raciocínio “é negada por numerosas evidências mostrando que, em sua origem e função, o prazer obtido com a arte não é diferente daquele proporcionado pela comida, pelas drogas ou pelo sexo”.

O comentário deles levou outros a tomar o partido da Dra. Christensen. “Acha que o prazer é igual ao de uma pitada de açúcar na língua?” escreveu no Twitter o Dr. Anjan Chatterjee, neurologista da Universidade da Pensilvânia.

Isso destaca as disputas que envolvem o campo emergente da neuroestética, o estudo dos processos neurais responsáveis pela nossa reação ao belo e produção de objetos belos:

  • A Equipe 1 acredita que, do ponto de vista neurobiológico, a experiência prazerosa proporcionada pela arte é idêntica àquela proporcionada pelos doces ou pelo sexo.

  • A Equipe 2 acredita que a produção e contemplação da arte pode trazer recompensas neurobiológicas únicas.

Falando em nome da Equipe 1, o Dr. Nadal disse que “os humanos parecem usar apenas um sistema de prazer para avaliar o quanto uma experiência sensorial é prazerosa ou não". Ele acredita que isso demonstra que, embora comer um lanche e ver uma escultura tragam sensações diferentes, nossos cérebros processam o prazer da mesma forma.

A Dra. Christensen disse não estar questionando se um único sistema de recompensa processa todos os prazeres. Isso não elimina a possibilidade de a arte ativar sistemas neurais adicionais “ligados a processos da memória, da consciência de si e do raciocínio que acrescentam ao prazer algo mais".

E, levando em consideração o fato de passarmos nossas vidas em busca de prazeres, diz ela, é importante tentar compreender um dos prazeres que “não induzem estados de ansiedade sem satisfação” nem causam problemas de saúde, em vez disso levando as pessoas a “pensar e vivenciar as coisas de outra maneira".

Tudo isso pode levar à pergunta: se os prazeres são tão semelhantes, por que as pessoas não têm orgasmos com a comida ou a arte? Na verdade, de acordo com Debra Herbenick, do Centro de Promoção da Saúde Sexual da Universidade de Indiana, algumas pessoas disseram ter sentido orgasmos comendo um tomate maduro, caminhando descalças em assoalhos de madeira e até fazendo flexões de braço.

 

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