Karen Reyes
Karen Reyes

Para os bichos-preguiça, segredo da sobrevivência está nas árvores

Machos e fêmeas de áreas onde havia mais embaúbas tinham mais filhotes

Veronique Greenwood, The New York Times

05 Fevereiro 2019 | 06h00

Nos pés de cacau de uma plantação no leste da Costa Rica, bichos-preguiça de três dedos constroem seus lares, subindo lentamente até os galhos mais altos para se banhar nos raios do sol da manhã. Eles também se alimentam das folhas da embaúba, que faz sombra nos pés de cacau.

Faz tempo que os cientistas sabem que essa árvore é importante para a dieta dos bichos-preguiça. Sua folhagem é altamente nutritiva, está disponível o ano todo e é fácil de digerir. Mas, num estudo publicado recentemente na revista Proceedings of the Royal Academy B, pesquisadores informam que a população de bichos-preguiça com mais embaúbas no seu habitat da plantação de cacau teve mais filhotes e apresentou maior probabilidade de sobreviver.

Essas descobertas indicam que a árvore pode ajudar a garantir a boa saúde das populações de bichos-preguiça mesmo em ambientes que foram afetados pelos humanos, como fazendas. Isso também mostra como animais que ocupam um nicho ecológico, tradicionalmente considerados frágeis, podem resistir a mudanças nas circunstâncias se o recurso do qual dependem estiver disponível.

Os professores Jonathan Pauli e M. Zachariah Peery, da Universidade do Wisconsin, em Madison, e seus colegas acompanharam um grupo de bichos-preguiça na Costa Rica. Os animais estão equipados com coleiras que transmitem um sinal de rádio indicando sua localização. A equipe também recolheu amostras de DNA e desvendou a árvore genealógica dos bichos-preguiça, determinando quais indivíduos têm mais descendentes.

O principal autor do estudo, Mario Garcés-Restrepo, mapeou os números de várias árvores em cerca de 40 dos territórios preferidos pelos bichos-preguiça para verificar a existência de uma correlação entre a densidade de uma determinada espécie e o número de descendentes de um animal, bem como suas chances de sobrevivência.

Embora a sobrevivência dos jovens bichos-preguiça não esteja ligada à embaúba, as árvores pareceram ser importantes para os adultos. Os cinco adultos que morreram no decorrer do estudo habitavam áreas onde o número de embaúbas era nitidamente inferior ao observado na área dos animais sobreviventes. 

Machos e fêmeas de áreas onde havia maior disponibilidade de embaúbas tinham mais filhotes, principalmente no caso dos machos. Isso pode decorrer não apenas da nutrição oferecida pela árvore, mas também da visibilidade, já que nas embaúbas a estrutura dos galhos e folhas possibilita bastante espaço para ver e ser visto. “Os bichos-preguiça são vistos frequentemente tomando banho de sol pela manhã", explicou Pauli, e, se estiverem chamando ou se exibindo para parceiros de acasalamento, disse ele, “estar entre árvores abertas facilita essas oportunidades reprodutivas".

Esse entendimento daquilo que os bichos-preguiça precisam para se desenvolver pode ser importante nas áreas habitadas pelo animal. A região em torno da plantação de cacau está mudando. “A paisagem está diferente", disse Pauli, com o plantio de mais campos de abacaxi, que cresce em espaços abertos e desmatados. É possível que as áreas disponíveis para os bichos-preguiça diminuam no futuro.

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