Ellie Smith/The New York Times
Ellie Smith/The New York Times

Para Sutton Foster, o crochê é uma estratégia de sobrevivência

Em seu novo livro, 'Hooked, a atriz da Broadway e 'Younger' se abre sobre como ela colou e cruzou seu caminho para sair da ansiedade e da perda

Elisabeth Egan, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2021 | 05h00

Sutton Foster está encerrando uma temporada no Barbican Centre, em Londres, em que interpreta Reno Sweeney no musical Anything Goes, papel pelo qual ganhou um prêmio Tony há dez anos, enquanto prepara sua volta à Broadway ainda este ano para contracenar com Hugh Jackman em Vendedor de Ilusões.

Mas, antes de falar mais sobre isso, ela queria me mostrar uma toalha de lavabo. "Não tinha nenhuma toalhinha aqui no apartamento. Por isso pensei: 'Bom, vou fazer algumas!'", disse Foster em entrevista gravada em Londres. Ela planeja dá-las de presente de Natal.

Quando não está interpretando no palco ou na tela (recentemente, estrelou a série televisiva Younger), é muito provável que Foster esteja fazendo crochê, ponto cruz, assando biscoitos, desenhando ou cuidando do jardim, hobbies que ela explora em sua nova coleção de ensaios, Hooked: How Crafting Saved My Life (Enredada: como o artesanato salvou minha vida, em tradução livre).

Os capítulos têm como tema o artesanato, mas o livro não fala só de colas para decupagem e tecidos para patchwork. Foster, de 46 anos, escreve sobre como o fato de manter as mãos ocupadas a ajudou a lidar com o estresse e a pressão da carreira e com os altos e baixos de uma vida na qual ela nem sempre recebeu aquilo de que precisava de sua família, de entes queridos ou dos colegas. "Minha família é toda ansiosa – também sou. Minha mãe tinha agorafobia e ganho a vida no palco. É complicado. E, ainda assim, quando me sinto ansiosa ou sobrecarregada, faço crochê, ou colagem, ou ponto cruz. Esses hobbies literalmente preservaram minha sanidade mental em alguns dos momentos mais desafiadores da minha vida", revelou Foster.

Há momentos leves, como quando descobrimos que Foster fez uma capinha de rolo de papel higiênico com formato de polvo de crochê para dar de presente de casamento a Hilary Duff, sua colega na série Younger. Mas esses momentos se intercalam com revelações mais densas, como a de que o bordado de cestas que ela fez em ponto cruz para a mãe foram um escape para a dinâmica tóxica que vivenciou em alguns elencos no início de sua carreira.

Ela compartilha conosco a história dos biscoitos em formato de boneco de neve que preparou com a família de seu primeiro marido, Christian Borle, e a colcha floral que crochetou, quadradinho por quadradinho, quando esse casamento chegou ao fim. Ela descreve os círculos interconectados que desenhava com canetas de tinta acrílica durante seus tratamentos de fertilidade, e a manta de bebê de crochê listrada que fez enquanto esperava a mãe biológica de sua filha entrar em trabalho de parto.

Foster aprendeu a crochetar sozinha aos 19 anos, e estima que tenha sempre entre oito e dez projetos em andamento. Seu fornecedor de fios enviou três caixas de materiais da marca Lion Brand para Londres, e depois pegou um avião para assistir a Anything Goes. (Você entende o grau de importância disso se já foi iniciante em certo tipo de loja de artesanato, em que os clientes costumam ser classificados em avançados, intermediários e invisíveis.) Às vezes, Foster tira inspiração de algum livro ou busca ajuda no YouTube, mas também desenvolve peças próprias.

Criada na Geórgia, e mais tarde no Michigan, Foster iniciou sua carreira de atriz como muitos outros atores de sua geração, em uma produção amadora do musical Annie. Depois de se apresentar em turnês nacionais de Grease e Os Miseráveis, participou de produções de ambos os espetáculos na Broadway, além de montagens de Annie e O Pimpinela Escarlate. Em 2002, ganhou seu primeiro Tony pela atuação no musical Thoroughly Modern Millie.

Assim como Liza Miller, a personagem sempre alegre que interpreta em Younger, Foster exalava energia e entusiasmo durante a entrevista, até que nossa conversa se voltou para sua mãe. A partir de então, começou a falar devagar, de olhos fechados, escolhendo minuciosamente cada palavra.

A saúde de Helen Foster começou a decair quando Sutton e seu irmão, Hunter, eram adolescentes. Tinha um relacionamento conturbado com Sutton e ficou sem falar com Hunter por quase uma década; consequentemente, a relação dos irmãos com o pai foi prejudicada. Desde a morte de Helen Foster, em 2013, Sutton e Hunter vêm aproveitando um novo capítulo com o homem a quem chamam de Papa Bob, e Hooked inclui suas dicas para cultivar o tomate perfeito. (Nº 9: "Colha os tomates quando estiverem quase maduros, mas não totalmente, para que outros tomates possam crescer.")

"O artesanato foi a maneira mais autêntica que encontrei de contar a história da minha mãe. Foi um modo de costurar todas as facetas da minha vida de uma forma que soasse verdadeira para mim hoje", contou Foster.

No livro, ela transporta os leitores para sua casa esquálida na Flórida, onde sua mãe passou os últimos anos de vida. "Acendi a luz e fiquei sem ar. Todas as janelas haviam sido cobertas com sacos de lixo pretos, presos às paredes com fita adesiva", ela escreve. Sua mãe ficou acamada durante meses, negando-se a buscar tratamento médico.

"Isso explicava a comadre e os tapetes higiênicos no chão ao lado da cama. Ela sofria de uma doença mental que nunca foi tratada, que nunca foi reconhecida", disse Hunter Foster em entrevista telefônica. Depois de mencionar que passa o maior tempo possível ao ar livre, ele acrescentou: "Não me permito acordar depois de certo horário, porque minha mãe passava metade do dia na cama."

O relacionamento de Hunter e de sua irmã com a mãe provavelmente surpreenderá alguns leitores, segundo Sutton Foster. "É uma parte de nossa história que as pessoas não conhecem. É um lado obscuro: a doença da minha mãe, e nós simultaneamente tendo de protegê-la e sentindo medo dela. Ninguém falava disso, e agora tenho essa liberdade." Na parede atrás dela, via-se um pôster que dizia "Respire".

Foster escreveu Hooked em parceria com Liz Welch, coautora dos bestsellers escritos por Malala Yousafzai, Elaine Welteroth e Shaun King. "Sutton é atriz de musicais da Broadway, e minha mãe também era. Sutton é mãe adotiva, e também sou. Sinceramente, acho que teríamos nos tornado melhores amigas de qualquer jeito. O crochê foi a metáfora perfeita para tudo isso, foi como juntar os diferentes fios de uma vida incrivelmente interessante e surpreendente", comentou Welch.

Suzanne O'Neill, vice-presidente e editora executiva da editora Grand Central, afirmou: "Quando se está escrevendo um livro de memórias, é muito difícil escarafunchar as próprias histórias, e Sutton topou compartilhar tudo, até mesmo momentos difíceis. Ela queria que o livro fosse excelente e mergulhou no projeto. Para ela, tratava-se de uma obra de arte, e ela trabalhou muito para torná-lo o livro que é hoje."

Em Hooked, Foster se lembra de ter visto Patti LuPone, a quem idolatrava, cantando Being Alive na TV quando tinha 16 anos e de ter ficado hipnotizada. "A confiança dela era ao mesmo tempo assustadora e excitante", escreve. Sua mãe, que recentemente havia parado de dirigir e de sair para fazer compras, disse a ela: "Você é capaz de fazer o mesmo."

Mais tarde, ela conheceu Patti LuPone, que também interpretou Reno Sweeney em Anything Goes, e LuPone inspirou uma das colagens favoritas de Foster: uma colorida combinação de pedaços de papel sobre uma placa de madeira de compensado, soletrando a palavra BADASS (fodona).

LuPone afirmou a respeito de Foster: "É uma criatura linda, que emana uma luz muito positiva. Somos atraídos por almas sofredoras, só para descobrir a razão de seu sofrimento. Também somos atraídos pela luz, e a luz é muito mais energizante. Você vê alguém no palco que faz com que se sinta melhor. Essa é a Sutton."

Foster deve estrear Vendedor de Ilusões em dezembro, no papel de Marian Paroo, ao lado de Jackman, como Harold Hill. Mas, antes de embarcar em mais relaxantes projetos artesanais nos bastidores do Teatro Winter Garden, ela terá tempo de se instalar na casa de fazenda em Orange County, na Califórnia, para onde se mudou com seu marido Ted Griffin, roteirista de cinema, e sua filha de quatro anos, Emily.

Ela planeja levar pelo menos uma peça de seu passado para essa nova fase da vida: um bordado em ponto cruz, retratando cestas de várias formas e tamanhos, que fez para sua mãe. Durante anos, a peça ficou pendurada na parede da sala da casa de seus pais, e era uma presença estabilizadora durante as visitas difíceis. Foster recentemente recuperou o bordado das cestas, que estava no porão da casa de seu pai. "Agora, está comigo. E vai para a casa nova."

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