Sebastian Caceres/Suprema Corte do Paraguai
Sebastian Caceres/Suprema Corte do Paraguai

'Paraguai é a terra da impunidade', diz traficante Marcelo Piloto

Marcelo Pinheiro Veiga, um dos principais líderes do tráfico no Brasil, tentou escapar da extradição cometendo um assassinato dentro de uma cela paraguaia

Ernesto Londoño, The New York Times

11 Janeiro 2019 | 06h00

ASSUNÇÃO, PARAGUAI - Antes de permitirem minha entrada na cela paraguaia que abrigava um conhecido chefão do tráfico de drogas, eu me preparei para uma revista invasiva. Mas o guarda postado do lado de fora das grades mal encostou em mim.

Eu estava na prisão para entrevistar Marcelo Piloto (apelido de Marcelo Pinheiro Veiga), que recorreu a uma jogada audaciosa  para evitar a extradição para o Brasil, seu país natal: confessou ter cometido uma sequência de crimes no Paraguai. Entrei na pequena cela e sentei-me a menos de um metro de Veiga.

"O Paraguai é a terra da impunidade", disse o traficante, também conhecido como Marcelo Piloto, depois de descrever uma longa carreira no crime que fez dele um dos maiores traficantes de armas e drogas do Paraguai para o Brasil. Horas mais tarde, seria difícil afastar a impressão de que tudo não passou de um prelúdio para um banho de sangue.

Pouco depois da minha visita a Piloto, no dia 17 de novembro, Lidia Meza Burgos, 18 anos, foi levada à cela dele, de acordo com funcionários da polícia paraguaia. Com a faca simples que usava para comer, Piloto a esfaqueou 17 vezes no pescoço, tórax e costas, matando a jovem. Os funcionários acreditam que o assassinato foi uma nova tentativa do traficante de permanecer sob custódia deles, evitando as condições piores que enfrentaria se preso no Brasil. Desde aquele dia, passei muitas horas reprisando trechos de minha conversa com Piloto, tentando identificar sinais do que viria em seguida. 

Piloto, 43 anos, disse que começou no crime no Rio de Janeiro, em meados dos anos 1990, quando uma gangue de vizinhos o convidou para participar de roubos de carros.

"Eu queria aventura", disse ele, deixando claro que a família, apesar de modesta, nunca passou necessidade.

A aventura durou pouco. Piloto foi preso em 1997, sentenciado a 26 anos de cadeia depois de ser condenado por assalto à mão armada e outros crimes. Dividindo a cela com assassinos confessos, ele logo percebeu que, para sobreviver à prisão, seria necessário forjar alianças estratégicas.

"Eu era apenas um ladrão de carros", contou. "Tive que assumir uma postura que não demonstrasse fraqueza".

Isso significou estabelecer elos com alguns dos fundadores do Comando Vermelho, organização de traficantes que controla boa parte do mercado no Rio de Janeiro. 

Depois de cumprir uma década de sua sentença, Marcelo Piloto recebeu o direito de sair da prisão para breves indultos. Escapou na primeira oportunidade, em 2007. Os relacionamentos estabelecidos na prisão abriram caminho para que ele assumisse uma série de papéis de liderança em redutos do Comando Vermelho. Em 2012, quando as autoridades avançavam um ambicioso plano para restaurar o controle do governo em áreas do Rio de Janeiro há muito controladas pelo tráfico, Piloto se sentiu vulnerável e decidiu que era hora de tentar algo maior.

"Vim ao Paraguai", disse ele, sua "única opção".

Durante boa parte do tempo que ele passou no país, o Paraguai foi um paraíso para os criminosos, disse Piloto. O pagamento de propinas ao alto escalão da polícia era generalizado. Piloto disse ter pago a um comandante da polícia a soma de US$ 100 mil como entrada, para conquistar sua confiança. Esse policial recebia US$ 5 mil por mês; seus subalternos recebiam US$ 2 mil. Em troca, Marcelo Piloto era avisado sempre que as autoridades ameaçavam capturá-lo, permitindo que estivesse sempre um passo à frente da lei enquanto organizava o envio de remessas de cocaína e armas pela fronteira. Mas depois que a agência americana de combate às drogas, DEA, compartilhou a localização dele com autoridades de alto escalão no Paraguai, Piloto foi detido em dezembro de 2017.

Piloto descreveu seu envolvimento no crime com notável orgulho. Perguntei se ele se sentia em parte responsável pela violência que atormenta o Brasil, país que registrou um recorde de 63 mil homicídios em 2017.

"As mortes não me trazem benefício algum. Mas, infelizmente, estamos em guerra, e essas coisas acontecem", disse ele.

Perguntei sua opinião a respeito do novo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, que prometeu facilitar a execução de suspeitos e criminosos pelas mãos da polícia. "Vão matar muita gente e nada vai mudar", disse.

Pouco depois da minha partida, Lidia chegou à cela. Piloto tinha feito contato com ela pela primeira vez semanas antes, acessando um site paraguaio com anúncios de prostitutas, de acordo com Hugo Volpe, um dos promotores investigando o assassinato. Para atrair Lidia, Piloto ofereceu a ela um pagamento de aproximadamente US$ 200, segundo o promotor.

Volpe contou que o ataque mortífero foi claramente motivado pelo desejo de atrasar sua extradição para o Brasil. Mas, horas após o assassinato, Marcelo Piloto foi levado para seu país natal para cumprir o restante de seus 26 anos de pena, e promotores paraguaios estão preparando um caso na esperança de que seus colegas brasileiros possam condená-lo também pela morte de Lidia.

"Isso não vai trazer de volta a vida de Lidia, nem aliviar a dor da família dela", disse Volpe. "Mas, se não agíssemos, a sensação de impunidade seria ainda pior.” / Santi Carneri contribuiu com a reportagem.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.