Federico Rios Escobar para The New York Times
Federico Rios Escobar para The New York Times

Paraíso colombiano sobrevive a décadas de guerra

No sul da Colômbia, aldeias tranquilas permaneceram milagrosamente intocadas

Elizabeth Zach, The New York Times

05 Setembro 2018 | 10h15

Naquela manhã, quando minha guia, Juliana Chávez, foi me encontrar em Popayán, na ponta meridional do verdejante Valle de Cauca na Colômbia, ela avisou que o caminho que iríamos percorrer seria difícil e demorado. Nosso destino era San Agustín, onde se encontram alguns dos achados arqueológicos mais impressionantes da América do Sul. Durante mais de cinco décadas de guerra no país, era difícil, senão impossível, encontrar o local - entretanto, Popayán, a cidade mais próxima, fica a apenas 130 quilômetros de distância.

Mas nós pretendíamos passar pelo Parque Nacional Natural Puracé, e a maior parte da estrada que corta a selva amazônica era de terra, de modo que teríamos de avançar com muita dificuldade por boa parte do dia. Juliana deu outros detalhes bem mais importantes do que uma viagem cheia de imprevistos. Como as emboscadas e os sequestros dos guerrilheiros.

Nos anos 1990, enquanto a guerra se propagava na Colômbia, as Farc estabeleceram uma base em Puracé. Esta área remota era notória pelos sequestros. Os rebeldes assinaram um acordo de paz com o governo em 2016, o qual não satisfaz muitos colombianos.

Entretanto, Puracé, como grande parte da Colômbia hoje em dia, é uma região segura para viajar e ansiosa por turistas. No início da semana, eu visitara Medellín, outrora a capital mundial dos assassinatos. Nosso guia foi um primo de Pablo Escobar que nos oferece um tour pelos redutos e pelo legado do imperador da cocaína.

Mas eu iria passar a maior parte do tempo neste ponto do país, uma região em grande parte ignorada pelos turistas.

Eu tinha lido que os visitantes dos Estados de Huila e Cauca, no sudoeste da Colômbia, podiam atravessar o deserto, a selva e os Andes em um dia só, embora por algumas estradas difíceis como esta do Puracé, que se estende por 830 quilômetros quadrados.

Algumas cidades, como Popayán, cujas elegantes fachadas coloniais deram origem ao apelido La Ciudad Blanca, permaneceram milagrosamente intocadas durante os combates, apreciadas por sua importância histórica e sua pura beleza. Outras cidades da região, como Silvia, foram poupadas do massacre em razão de sua grande comunidade indígena, os guambiano. Eles declararam seu território uma reserva de paz e proibiram a instalação de postos policiais ou bases guerrilheiras.

Silvia fica em um pequeno vale, e à medida que nos aproximávamos, parecia quase uma aldeia suíça. Chegando à praça principal, meus olhos foram inundados de cores: saias e casacos púrpura finamente tecidos, usados por homens e mulheres, ônibus Dodge sem teto pintados de todas as cores do espectro psicodélico.

Era terça-feira, e o mercado semanal fervilhava de atividade. Admiramos as bolsas feitas à mão, os lenços e as joias, e depois nos dirigimos para o mercado fechado. Ali, Juliana apontou para os pacotes de maconha (é ilegal, mas descriminalizada) ao lado da enorme variedade de batatas, dezenas de variedades. Passamos por corredores ladeados de sacos de aniagem transbordando de alecrim, quinoa, jayo e tijolos de rapadura, juntamente com os produtos básicos dos colombianos, café e folhas de coca.

Também foi possível comprar frailejónes, uma planta da família do girassol que é processada como chá e, segundo se afirma, tem propriedades medicinais, particularmente contra doenças pulmonares. Como as folhas de coca que vi à venda, o frailejón em geral é ilegal para consumo. Segundo Juliana, os guambiano têm suas próprias leis e são isentos da proibição.

Nossa passagem por Puracé nos levou a um ponto mais alto nos Andes, onde uma vasta charneca como um tapete de frailejónes se estende até o vulcão Puracé, de mais de 4.500 metros de altura, e estava envolvido pela névoa. É o vulcão mais ativo da Colômbia e produz dezenas de fontes termais.

A estrada subiu por dezenas de quilômetros através de trechos de floresta tropical com colônias de palmeiras-de-cera - a árvore nacional da Colômbia, as mais altas do mundo - e às vezes no meio da selva, atravessando pontes sobre os rios Cauca e Mazamorras.

Mais alto ainda sempre no parque, Juliana me mostrou as misteriosas esculturas de pedra no Parque Arqueológico de San Agustín, declarado Patrimônio Mundial pela Unesco em 1995. Há cerca de 5 mil anos, duas tribos indígenas se estabeleceram nos vales dos rios Magdalena e Causa. Elas acabaram desaparecendo, mas deixaram centenas de solenes esculturas antropomórficas, na maior parte lápides mortuárias.

Mais tarde, em um trecho ao norte de San Agustín e a meio caminho para Bogotá, os altos picos dos Andes se achatam formando o Deserto de la Tatacoa, uma planície que produz um efeito desorientador, com grandes quantidades de cactos cobertos de espinhos, cabras selvagens, fossos, despenhadeiros e penhascos.

Ao anoitecer, visitamos um observatório astronômico. Com um potente telescópio, olhei a lua e as estrelas que permaneceram constantes ao longo das civilizações, das colonizações, guerras e violência, e ainda estão lá, cobrindo um céu eterno e cheio de paz.

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