Michelle Groskopf/The New York Times
Michelle Groskopf/The New York Times

Após mais de um ano de espera por conta da pandemia, a volta do 'paraíso das lésbicas'

Popular festa para mulheres LGBTQ em Palm Springs, nos Estados Unidos, voltou a acontecer e é, de fato, um acontecimento

Melissa Kravitz Hoeffner, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2021 | 05h00

PALM SPRINGS, Califórnia – No fim de setembro, quando milhares de pessoas chegaram ao Hotel Hilton de Palm Springs para um fim de semana prolongado de festas na piscina, shows de música e baladas, fazia quase 19 meses que a Covid-19 havia forçado uma pausa na vida como a conhecíamos – e fazia mais de dois anos desde a última vez que essa cidade do deserto se transformara em um animado oásis para lésbicas.

O Dinah Shore Weekend, também conhecido como Dinah, ou primavera das lésbicas, já vem dominando Palm Springs há 30 anos, sediando a chamada "maior festa para mulheres do mundo". Desta vez, houve alguns atrasos – o evento foi remarcado duas vezes –, além de cuidados com a segurança sanitária, incluindo a necessidade de exibir o comprovante de vacinação ou o resultado negativo do teste para Covid antes de entrar nos eventos. Mas, ainda assim, a energia foi ilimitada.

Durante uma competição de twerking, por exemplo, uma concorrente foi capaz de manter sua máscara cirúrgica fixa no rosto enquanto movimentava os quadris para a frente e para trás. Cara Delevingne, a famosa modelo e atriz, instigava as concorrentes, enquanto dançarinas vestindo biquíni com estampa de arco-íris rodopiavam em plataformas e as participantes do Dinah colocavam gorjetas em sua roupa colante.

Para muitas visitantes, o Dinah foi uma festa de "volta ao lar", embora também houvesse muitas novatas (ou "virgens do Dinah") entregando-se à ideia de aproveitar o momento presente trazida pela pandemia. Muitas delas descreveram o evento como uma trégua nesse período difícil que começou há um ano e meio.

"Todo mundo é tão gentil, amigável e acolhedor. Está sendo maravilhoso", disse Beth King, de 61 anos, recém-aposentada de Scottsdale, no Arizona, que participou pela primeira vez do evento com sua esposa, Joann Smith, com quem é casada há 25 anos.

Deitada em uma tenda ao lado da piscina, Katja Davis, de 35 anos, moradora da Baía de São Francisco que também comparecia pela primeira vez ao evento, contou que estava, mais do que tudo, "alimentando a alma": "Estamos todas tão famintas por conexão. A pandemia tem sido difícil. Aqui, podemos relaxar."

Antes de existir um evento oficial com ingressos e grande estilo, grupos de lésbicas costumavam se reunir no Vale de Coachella durante o Campeonato de Golf Dinah Shore, torneio anual da Associação de Tênis Feminino.

No fim da década de 1980, as mulheres iam a Palm Springs para se divertir em eventos meio improvisados, regados a álcool e música alta. Mariah Hanson, promotora de festas de San Francisco, foi a uma dessas festas em 1990 e teve uma ideia. "Eu queria criar um mundo lésbico", recordou em entrevista por telefone.

Em 1991, Hanson organizou uma noite de festa Dinah, pegando emprestado o nome do torneio de golfe, no Museu de Arte de Palm Springs, que sua empresa patrocinava. O evento saiu de controle de tal maneira que algumas obras de arte foram danificadas. Nem é preciso dizer que Hanson nunca mais organizou nenhum evento no museu. Em vez disso, fechou uma parceria com o Hotel Hilton, ampliando o evento de um fim de semana para um fim de semana prolongado e finalmente para um festival de música com cinco dias de duração.

Em 2003, a série The L Word filmou um dos episódios de sua primeira temporada no Dinah, e o elenco cantou Closer to Fine, da dupla Indigo Girls, na viagem de carro de West Hollywood a Palm Springs. As cenas seguintes ajudaram a consolidar a imagem do Dinah como a meca lésbica.

"Na cultura lésbica, o Dinah Shore é o ápice das festas e das experiências. É um lugar onde podemos ser totalmente nós mesmas", afirmou Sarah R. Davis, 37 anos, participando pela terceira vez do festival, deitada em uma espreguiçadeira com sua esposa, um romance distópico feminista e uma garrafa gelada de Veuve Clicquot. Como muitas outras mulheres passando o fim de semana em Palm Springs, ela soube da existência do Festival Dinah naquele episódio de The L Word.

Durante anos, apesar de celebridades como Katy Perry, Lizzo, Lady Gaga e Tegan & Sara terem encabeçado a lista de atrações do festival, a festa de sábado na piscina continuou a ser chamada de "Festa The L Word", em homenagem ao produto cultural que atraiu multidões para o Dinah. "É impressionante que ainda façam festas 'L Word' na piscina. Nunca imaginei que The L Word seria imortalizada no Dinah. Agora, já se tornou uma parte importante de nossa cultura gay. Tornou-se uma instituição, e precisamos de instituições", declarou pelo Zoom Ilene Chaiken, uma das criadoras da série.

Desde a criação do evento, a política em Palm Springs vem se tornando mais liberal, e em 2018 a cidade se tornou a primeira dos Estados Unidos a ter um Conselho Municipal cujos membros são todos abertamente LGBTQ. O Dinah também mudou: embora sempre rotulado como um paraíso lésbico, nos últimos anos o evento vem permitindo a participação de pessoas não binárias e trans, independentemente do gênero.

"É mais que uma festa. É um movimento. É poderoso. Criamos cinco dias em que vivemos em um mundo queer, não binário e lésbico. Celebramos nossa identidade", comemorou Hanson, agora com 60 anos.

As participantes do Dinah vieram de todo o território americano – em vans, de Denver; de carro, vindas de outras cidades da Califórnia; de avião, da costa leste – e até de lugares distantes, como Dubai. Brittny Roberts e Susan Ahearn se conheceram pela primeira vez no Dinah, depois de um ano conversando em um grupo literário para mulheres queer que se reunia pelo Zoom, e que já se dispersou. Ambas se identificam como lésbicas "maduras", tendo se assumido no meio da vida adulta, e tinham vontade de participar do evento. "É uma experiência que toda mulher queer deveria viver. É extremamente inclusivo, e todo mundo tem sido maravilhoso. Você se veste como quer e faz o que quer, e isso é incrível!", festejou Ahearn, de 56 anos, avó de três netos. Ela contou que nos subúrbios de Boston, onde mora, tem dificuldade para se conectar com outras lésbicas, mas aqui conseguiu fazer amizades e trocar dicas de maquiagem, bem como flertar.

Com tão poucos bares lésbicos nos EUA e com a maioria das áreas metropolitanas sem um único espaço onde mulheres LGBTQ possam se encontrar, o Dinah cria um espaço queer urgentemente necessário, ainda que de curta duração.

"É a primeira vez que conheço tantas mulheres que pertencem à minha comunidade, e estou tão orgulhosa, tão feliz", contou Anusha Dhulipala, de 29 anos. Embora more na área da Baía de São Francisco, geralmente considerada um reduto LGBTQ, ela diz que ainda não conheceu nenhuma mulher indiana abertamente gay por lá. "Quero sossegar e formar uma família, e este parece ser o melhor lugar para encontrar alguém", acrescentou.

Ao longo do fim de semana, casais comemoraram casamentos, aniversários e bodas a se realizar em breve; mulheres solteiras buscaram uma futura esposa, casos de fim de semana e colegas solteiras; e grupos de amigas se reconectaram e se uniram.

Muitas empreendedoras utilizaram o espaço para divulgar seu trabalho, inclusive Lauren Pizzilo e Regina Russell, casal que mora em San Diego. As duas promoveram sua loja de roupas, Married With Lesbians (Casadas com lésbicas), vestindo camisetas tye-dye combinando, com os dizeres: "Born This Gay" (Nasci gay assim).

Muitas participantes solteiras, acostumadas a ter poucas opções de possíveis namoradas, viram-se repentinamente cercadas de parceiras em potencial. "Nem sei com quem flertar", confessou uma mulher na pista de dança, antes de se concentrar em uma das centenas de potenciais ficantes, todas dançando em trajes de banho.

"Estou animada por poder escolher. E muito feliz. Quero fazer amigas e, com sorte, encontrar minha futura esposa", disse TC Click, de 26 anos, comparando a experiência com a de pessoas heterossexuais que vão a bares já sabendo quem pode se interessar por elas. Com as mulheres, geralmente não é assim, exceto em espaços exclusivamente queer.

Mais para o fim do festival, as after-parties bombaram até o amanhecer. As participantes formaram casais, trocaram número de telefone e o perfil do Instagram, e dançaram sob uma chuva de confete de arco-íris na festa de encerramento.

Laura Myers, de 32 anos, resumiu assim a experiência: "Não há nada melhor do que um monte de mulheres queer juntas. É tão seguro, tão positivo. Toda vez que vamos embora, desejamos que tivesse durado mais tempo. E sempre voltamos. Não há nada igual."

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