Tamir Kalifa para The New York Times
Tamir Kalifa para The New York Times

Paraíso no Havaí vive o constante risco das erupções vulcânicas

Apesar dos temores, milhares de famílias fincam raízes no entorno do vulcão Kilauea

Simon Romero, Teh New York Times

03 Junho 2018 | 10h30

PAHOA, HAVAÍ - Jaris Dreaming construiu sua espaçosa casa abastecida com energia solar numa clareira da selva da Polinésia. Ele bebe água da chuva e come os abacates dos pés no seu jardim dos fundos. O pessoal do continente demonstra inveja quando ele conta como comprou quase 100 acres da maior ilha do Havaí por pouco mais de US$ 100 mil.

Mas há um detalhe neste paraíso afastado da civilização moderna: Dreaming vive a uma curta distância de uma fissura do Kilauea, um dos vulcões mais ativos do mundo.

A crescente ferocidade das últimas erupções do Kilauea, soterrando lares em rios de rocha derretida, trouxe perguntas em torno do motivo que teria levado milhares de famílias a fincar suas raízes num lugar tão sujeito a desastres.

Puna, a magnífica região florestal da Ilha de Havaí onde ocorrem algumas das erupções mais intensas do Kilauea, está entre os locais mais remotos dos Estados Unidos, atraindo construtoras, renegados e chefes de família autossuficientes com bastante apetite pelo risco. Desde os anos 1970, quando veteranos do Vietnã e outros andarilhos começaram a morar aqui, Puna surgiu como um lugar onde as pessoas podiam sair do sistema, reinventar-se, quem sabe até cultivar um pouco de pakalolo (como a maconha é chamada no Havaí).

“Temos a reputação de ser uma espécie de covil do pirata", disse Dreaming, 64, um músico e empreiteiro que foi criado em Nova Jersey com o nome John Fattorosi. “Mas o que realmente queremos é viver em liberdade num lugar de incrível beleza sem ninguém nos dizendo o que fazer”.

Além de perturbar as pessoas daqui, que raramente querem chamar atenção para si, a destruição desencadeada pelo Kilauea também expõe as fissuras na sociedade havaiana, sublinhando a acentuada escassez de imóveis residenciais no estado e as questionáveis regras de zoneamento que regeram a construção de um dos últimos redutos de imóveis acessíveis no estado.

Especuladores imobiliários voltaram suas atenções para a Ilha de Havaí quase imediatamente após a admissão do arquipélago como 50º estado da união, em 1959. Já em 1960, uma incorporadora tinha loteado em mais de 2 mil terrenos a área que inclui Leilani Estates, o entreposto rural agora abandonado que teve alguns trechos tomados pela lava.

Os incorporadores minimizaram os eventuais riscos vulcânicos. Muitas das subdivisões em Puna foram criadas nos anos 1960, antes dos primeiros mapas de risco de lava, elaborados em meados dos anos 1970, segundo Daryn Arai, vice-diretor de planejamento do Condado do Havaí. Arai também explicou que o condado ainda não tem regras que se apliquem diretamente às zonas de risco de fluxo da lava.

Numa coluna a respeito da história da região publicada pelo site Honolulu Civil Beat, Alan D. McNarie disse que os riscos se tornaram mais aparentes com o passar dos anos. Citando números do United States Geological Survey (instituto geológico americano), ele destacou que cerca de 100 quilômetros quadrados da ilha foram enterrados por nova lava somente entre 1983 e 2003.

Muitos lares em Puna são construídos em zonas que já tinham sido habitadas antes, e também já tinham sido soterradas pela lava. Menos de 30 anos depois que uma erupção destruiu cerca de 100 lares na comunidade de Kalapana, muitos lares agora jazem sobre o terreno formado pela inundação de lava. As casas, algumas construídas sem respeito ao código de construção civil, não são ligadas à rede elétrica nem à de esgoto.

Com frequência, os bancos se recusam a emitir hipotecas tradicionais para propriedades desse tipo.

Amber Sengir, 60, projetista de chips de computador que se mudou de Portland, Oregon, para Pahoa em agosto do ano passado disse que comprou sua casa em dinheiro por US$ 240 mil - bem abaixo do preço médio de US$ 760 mil por uma casa em Oahu. Agora ela tenta desesperadamente salvar alguns de seus pertences caso a lava corra na direção da sua casa, que não tem seguro.

“Há dias em que podemos ouvir o rugido das erupções em Puna, como o motor de um avião decolando", contou Rainbow Foster, 33, que comprou um terreno e uma casa num campo de lava três anos atrás. Rainbow e seu marido, Tony, de 44 anos, são autônomos. Eles têm dois filhos e ganham a vida com pequenos serviços e a venda de camisetas tingidas. Eles compraram a propriedade por US$ 55 mil num negócio financiado pelo proprietário. “Nossa classificação de crédito não era boa e tínhamos pouco dinheiro", disse ela.

Alguns dos vizinhos foram embora, mas Rainbow, que cresceu em Puna, não pensou nisso. “Essa é a vida que escolhemos. Estamos nos agarrando a ela". / Tamir Kalifa contribuiu com a reportagem.

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