Eric Rojas para The New York Times
Eric Rojas para The New York Times

Paraíso tropical administra domínio cada vez mais cobiçado na internet

Toda vez que um domínio “.ai” (sigla para inteligência artificial em inglês) é registrado ou renovado, a ilha cobra taxa de US$ 50 por ano, destinada principalmente ao tesouro do governo

Steve Lohr , The New York Times

14 de fevereiro de 2020 | 06h00

Os resorts de luxo nas sossegadas praias de areia branca sustentam a economia de Anguilla, um pequeno território britânico no Caribe. Mas a ilha também é a sortuda beneficiária financeira de duas tendências da tecnologia: inteligência artificial e endereços cobiçados no mundo digital.

 

Anguilla é a proprietária dos endereços da internet que terminam em ".ai" - uma fatia repentinamente valiosa do território online. Toda vez que um domínio “.ai” (sigla para inteligência artificial em inglês) é registrado ou renovado - por startups ou especuladores que desejam revender os nomes para grandes empresas ou investidores - a ilha cobra uma taxa de US$ 50 por ano, que é destinada principalmente ao tesouro do governo.

Essas taxas somaram US$ 2,9 milhões em 2018, a contagem oficial mais recente do governo, ou quase o mesmo que os salários combinados dos 127 professores, assistentes e administradores da escola primária no território. A receita subiu acentuadamente outra vez no ano passado. "É realmente uma bola de neve", disse Vincent Cate, que gerencia o registro de domínios “.ai” em um escritório não muito longe do oceano.

Anguilla deve sua boa sorte ao grande, ainda que obscuro e muitas vezes peculiar, mercado de endereços na internet. Para se destacar, as startups estão dispostas a usar nomes incomuns na internet ou domínios que terminam em “.ai”. Esse é um mercado que se tornou atraente até para grandes investidores. Uma empresa de private equity, em 2018, comprou a Donuts Inc., uma corporação com direitos a mais de 240 nomes de domínio mais recentes, como “.technology" (.tecnologia) e “.engineering" (.engenharia). 

Outra empresa de equity concorreu pelos direitos de ".org" - usado pela maioria das organizações sem fins lucrativos - oferecendo mais de US$ 1 bilhão e desencadeando uma controvérsia acerca do controle do domínio por uma empresa com fins lucrativos. A Berkshire Hathaway, liderada por Warren E. Buffett, é a maior acionista da Verisign, empresa que gerencia os domínios terminados em ".com".

Em 1998, o governo dos Estados Unidos liderou a criação da Internet Corporation for Assigned Names and Numbers (ICANN), uma organização sem fins lucrativos que supervisiona nomes de domínios. A ICANN se descreve como uma “comunidade global que atua de baixo para cima” e não regula preços nem policia o conteúdo online.

"O sistema de nomes de domínio é uma parte importante do funcionamento da internet e se tornou um grande negócio", disse Matthew Zook, professor da Universidade de Kentucky. Somente as taxas anuais de registro e renovação, ele disse, totalizam quase US$ 4 bilhões.

Até certo ponto, mecanismos de busca como Google, redes sociais como Facebook e aplicativos móveis como Uber diminuíram o papel dos nomes de domínio na maneira como as pessoas navegam online. Faz tempo que ficar online deixou de significar ter que digitar meticulosamente um endereço da web em um navegador.

Ainda assim, os nomes permanecem importantes como identificadores e marcas digitais. Eles são mencionados o tempo todo em anúncios e veiculados por políticos. Entre os endereços da internet, os terminados em ".com" continuam sendo predominantes, respondendo por 40% de todos os nomes de domínio registrados. Mas, no ano passado, 33% das startups tinham nomes de domínio diferentes dos ".com", mais do que o dobro da porcentagem observada cinco anos antes, segundo uma análise.

As grandes empresas compram milhares de endereços para cobrir variações de seus nomes corporativos ou de marca e, assim, impedir que operadores ilícitos os usem. E os especuladores possuem os direitos de muitos milhões de outros nomes, na esperança de revendê-los por quantias generosas.

Os preços de revenda variam de alguns dólares a milhões. No ano passado, o domínio voice.com foi vendido por US$ 30 milhões à Block.one, uma startup que construiu uma rede de mídia social chamada Voice. Obviamente, os gostos dos consumidores mudam. Por anos, “.ai” era um terreno da internet pequeno e tranquilo, administrado por Cate, um cientista da computação que foi viver em Anguilla e depois se tornou cidadão de lá.

Mas, à medida que os investimentos globais em inteligência artificial aumentaram, o mesmo aconteceu com os endereços da internet terminados em "ai". Para descarregar esse trabalho e comercializar os domínios, ele se voltou para os varejistas da indústria do ramo, como a GoDaddy e a 101domain. Essas empresas agora são revendedoras dos domínios antes administrados por ele.

Mas Cate ainda tem muito trabalho a fazer. Ele planeja mudar para um novo prédio, com mais espaço para computadores e conexões à internet mais robustas via cabo subterrâneo, uma garantia em uma região de furacões. E ele se maravilha com o lucro inesperado trazido pelos domínios que um dia foram só da ilha. "Durante anos, não recebi quase nada", disse ele. "Não era algo que fazia por dinheiro.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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