(Lena Mucha/The New York Times)
(Lena Mucha/The New York Times)

Parentes alemães de Donald Trump preferem manter distância do presidente americano

"O assunto é muito controverso", disse uma autoridade do turismo de Kallstadt

Katrin Bennhold, The New York Times

12 Julho 2018 | 15h00

KALLSTADT, Alemanha - Herhert Trump não quis falar sobre o assunto. Nem Ilse Trump. Ursula Trump, a dona da padaria Trump na aldeia vizinha, finalmente cedeu, e levantando as mãos em um sinal de impotência suspirou: “A gente não pode escolher os parentes, não é mesmo?”

O parente no caso é Donald J. Trump, o presidente dos Estados Unidos, multimilionário e primo em sétimo grau do marido de Ursula - embora em Kallstadt, uma aldeia encarapitada nas colinas da região vinícola no sudoeste da Alemanha, ele seja simplesmente “Donald”.

Igualmente importante é evitar a confusão com os outros Trump que constam de uma lista telefônica desta área. Beate Trump, uma podóloga de outra aldeia vizinha, por exemplo, ou Justin Trump, um adolescente cujos amigos afirmam que às vezes ele é alvo de piadas por causa do cabelo loiro alaranjado.

Mas as famílias Weisenborn e Geissel, Bender e Freund de Kallstadt também são parentes de Trump. 

“Praticamente a metade da aldeia”, brincou o prefeito de Kallsadt, Thomas Jaworek, e apressou-se a acrescentar: “Eu não”.

Ambos os avós paternos de Trump, Friedrich e Elisabeth Trump, nasceram em Kallstadft, que agora tem 1.200 habitantes. Cresceram praticamente um em frente ao outro, foram batizados na igreja da aldeia, e casaram nas imediações, antes de emigrar para os Estados Unidos.

Friedrich trabalhou como barbeiro em Nova York. Posteriormente juntou uma fortuna à frente de um restaurante e, afirma-se, de um bordel que atendia aos mineradores em busca do ouro no Yukon. Como o neto, Friedrich era abstêmio e evitou o serviço militar.

Alguns contemporâneos o descreveram como um homem “educado”, que “levava uma existência tranquila” e “sem mácula”.

A parentela de Donald Trump que ficou em Kallstadt é mais problemática, o que talvez explique por que não há sinais apontando para a casa ancestral de Trump, uma propriedade modesta com o telhado inclinado em uma das ruas principais.

E embora o escritório de turismo local celebre o estômago de porco, um acepipe regional, bem pouco, além dos nomes em algumas lápides no cemitério da aldeia, faria prever  o neto mais famoso de Kallstadt.

“Nós não usamos o nome de modo algum no marketing turístico”, explicou Jörg Dörr na agência de turismo. “Este tópico é extremamente controvertido”.

O fato de os parentes manterem uma completa discrição não afastou os turistas nem a mídia, e tampouco o sósia ocasional de Trump que anda para cima e para baixo pela rua. Ao contrário: “Há pessoas que espiam pela janela ou batem à minha porta o tempo todo, perguntando: Onde é a casa de Trump?” queixou-se Manuela Müller-Wohler, que dirige um berçário na casa em que a avó de Trump vivia na infância.

Seu vizinho da frente, que comprou a casa do avô de Trump - e como Manuela não sabia da história antes de adquiri-la - estão tão exasperados que tentaram, em vão, vendê-la.

Depois da eleição de Trump, os hotéis do lugar receberam ameaças de boicote e clientes antigos cancelaram suas reservas. As encomendas de vinho foram suspensas. Chegaram e-mails de todos os cantos da Alemanha desafiando a “aldeia de Trump” a tomar uma atitude, lembrou o prefeito Jaworek.

Atrás do balcão da padaria Trump, na vizinha Freinsheim, Ursula Trump contou que pouco depois da eleição de Trump recebeu um telefonema.

Na linha havia uma mulher que implorou: “Por favor, ligue para ele e diga para não construir um muro” na fronteira mexicana, ela disse.

“Tive de interrompê-la”, disse Ursula, que tem 71 anos, quase a mesma idade do presidente. “Eu não tinha o telefone dele”.

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