Daniel Jack Lyons/The New York Times
Daniel Jack Lyons/The New York Times

Quem é, de verdade, Paris Hilton?

Documentário segue a herdeira e influenciadora, que diz que está pronta para ser ela mesma e deixar de lado a personagem que criou e a tornou famosa

Ilana Kaplan, The New York Times - Life/Style

26 de setembro de 2020 | 05h00

Relaxando de pernas cruzadas na cama em sua casa em Beverly Hills, Califórnia, e vestindo um moletom azul turquesa, Paris Hilton parecia estar à vontade. Não havia nada da afetação que definiu sua imagem pública durante duas décadas: a voz de bebê, as roupas minúsculas e reluzentes, a falsa superficialidade, a obsessão com tudo que está na moda.

“Com essa personagem, construí ao meu redor uma espécie de escudo, quase para me esconder atrás dela, pois passei por tanta coisa que nem queria mais pensar em nada daquilo", disse Paris, de 39 anos, em conversa pelo Zoom. Atrás dela havia um grande espelho iluminado por um oceano de LEDs que reluziam como diamantes no cabelo platinado dela.

Antes da era dos influenciadores, Paris Hilton já existia: uma linda tela em branco na qual poderia se projetar todo o tipo de ideia e patrocínio de marca. Ela foi a celebridade que ganhou destaque com um vídeo erótico, se é que não foi criada por ele. Foi o rosto do celular Sidekick (e a vítima de uma invasão do sistema do Sidekick que revelou ao público mais a respeito de sua vida particular). Foi estrela de reality show, tentando a sorte como uma rica se dedicando ao trabalho manual.

Gravou música, foi modelo, frequentou festas, fez aparições especiais na TV , escreveu um livro de conselhos. E foi criticada sem dó, descartada como alguém “famosa por ser famosa". Independentemente do quanto essa caracterização tenha sido justa ou injusta na época, parece difícil defendê-la hoje.

Ela passa mais de 250 dias por ano viajando pelo mundo como DJ, recebendo supostos US$ 1 milhão por apresentação. Supervisiona mais de 19 linhas de produtos, incluindo fragrâncias, peças de roupa e acessórios. E, hoje, há tantas pessoas famosas por serem famosas que ela parece mais uma pioneira venerável do que uma oportunista pouco digna de confiança. E, além disso, agora ela está disposta a falar a respeito do passado.

No documentário This Is Paris, lançado no YouTube, seu objetivo é revelar o outro lado da personagem que ela criou na primeira década do século 21, concentrando-se na década que antecedeu sua fama. Paris disse ter dado total controle criativo do filme à diretora, Alexandra Dean.

“Foi muito difícil para mim, pois estou acostumada a controlar tudo", disse ela. “Nesse caso, tive que abrir mão desse controle e deixar que usassem tudo.” Há momentos de opulência no filme — viagens de jatinho pelo mundo, armários cheios de vestidos chiques e sapatos de salto alto e gavetas cheias de joias que ela nunca usou — e ela logo nos lembra que nunca foi “fotografada usando a mesma roupa duas vezes".

Mas o coração do documentário é o trauma que emana dos anos que Paris passou em internatos para adolescentes problemáticos. A última instituição do tipo que ela frequentou foi a Escola Provo Canyon, centro de tratamento psiquiátrico residencial em Utah, onde passaria 11 meses.

“Eles simplesmente acreditaram que era como um internato normal, pois é assim que eles se apresentam aos pais e aos adultos que colocam seus filhos nesses lugares", disse Paris a respeito dos pais, Kathy e Rick Hilton. Antes da produção do filme, Paris nunca tinha contado à família o que aconteceu com ela. No documentário, Paris revela que, na noite em que chegou à Provo, foi arrancada da cama como se estivesse sendo sequestrada.

Disse que ela e os colegas recebiam habitualmente pílulas misteriosas e, quando Paris se recusava a tomá-las, era levada ao confinamento solitário por até 20 horas por vez, sem roupas. Ela também alega ter sido alvo de abusos emocionais, verbais e físicos por parte de professores e administradores.

“Era como viver no inferno", disse Paris. Em sua página da internet, a escola destaca que foi adquirida por novos proprietários em 2000, depois da época em que Paris foi aluna. Um representante da Provo disse que a escola “não aceita nem promove nenhum tipo de abuso". Acrescentaram que “todas as eventuais acusações e suspeitas de abuso são imediatamente denunciadas às autoridades estaduais, ao policiamento e aos serviços de proteção à criança e ao adolescente, como exigido".

Nos anos passados desde então, Paris sofreu com pesadelos e evitou a terapia, que desempenhou um grande papel nos seus programas de tratamento residenciais. “A partir da minha experiência na Provo e outras escolas do tipo, tinha a sensação que aqueles terapeutas eram más pessoas", disse ela.

“Jamais confiei neles.” Essa vivência destruiu também outras formas de confiança, disse ela. No documentário, vemos ela instalando software de vigilância em casa antes de receber o namorado, que passaria alguns dias lá enquanto ela estaria fora da cidade. “Sem dúvida, foi algo que afetou meus relacionamentos, pois eu simplesmente não sabia o que era o amor de verdade e, depois de tantos abusos, temos a sensação de que esse comportamento é quase normal", disse ela.

Acontecimentos posteriores confirmaram essa desconfiança. Quando um vídeo de sexo envolvendo ela e o ex-namorado Rick Salomon foi divulgado na internet sem o consentimento dela em 2003, as imagens atraíram muita atenção, e ela foi ridicularizada. “Foi traumatizante ter um momento tão íntimo como aquele vazado para todo o mundo, com todos rindo como se fosse algum tipo de entretenimento", disse ela.

Ainda assim, sob certos aspectos, essa exposição turbinou a carreira dela, que deixou de ser apenas uma herdeira, passando a participar de programas de reality show e outros acordos; sua amiga e ex-assistente, Kim Kardashian West, seguiu a mesma trilha rumo à fama. “Sinto muito orgulho por tudo que ela conquistou", disse Paris.

Marcado originalmente para uma estreia em abril durante o Tribeca Film Festival, This Is Paris faz parte de um punhado de documentários e seriados de celebridades lançados pelas gigantes do streaming nos anos mais recentes. Taylor Swift, Demi Lovato, Justin Bieber e os irmãos Jonas também fizeram como Paris e mostraram “o outro lado” de suas vidas. É claro que, dependendo do grau de envolvimento das celebridades com seus documentários, uma narrativa envolvente pode ser uma forma de reforçar ou defender sua imagem pública.

A diretora global de conteúdo original do YouTube, Susanne Daniels, disse não enxergar esses documentários como uma “defesa". “Eles sabem que sua imagem é complexa e, em algum momento, sentem-se prontos para compartilhar as complexidades por trás das escolhas que fizeram", disse ela a respeito das celebridades. “Até certo ponto, é como uma demonstração de coragem.” Agora, Paris espera usar sua marca para o bem.

Ela quer denunciar instituições que aplicam tratamento psiquiátrico cruel em menores, trabalhando com ex-alunos que dizem ter vivido experiências semelhantes às dela. “Vou dedicar boa parte da vida ao fechamento desses lugares", disse ela. Paris disse não ter mais interesse em interpretar uma personagem: “Fico feliz que as pessoas saibam que não sou uma loira burra. Apenas sei fazer bem esse papel”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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