Ben Quinton para The New York Times
Ben Quinton para The New York Times

Parque Olímpico de Londres deixa sustentabilidade como legado

Pequim e Rio de Janeiro, que também receberam os Jogos, são assombradas pelos 'elefantes brancos' em que suas arenas se transformaram

Amie Tsang, The New York Times

27 Outubro 2018 | 06h00

LONDRES - Quando Londres foi escolhida como sede dos Jogos Olímpicos de 2012, a missão era clara: "Nada de elefantes brancos".

Estávamos em 2005, e os planos da cidade para a revitalização da região industrial de Stratford, no leste de Londres, tinham perdido o ímpeto. Não seria possível gastar £ 9 bilhões (cerca de US$ 11,5 bilhões) em infraestrutura inútil quando os jogos foram vendidos como forma de promover a reurbanização de uma das regiões mais pobres da zona leste de Londres.

Com a chegada da crise financeira, tornou-se ainda mais importante garantir que as arenas olímpicas fossem sustentáveis.

Seis anos após os jogos, o Parque Olímpico Queen Elizabeth, como a área é conhecida agora, correspondeu a essa expectativa. As construções industriais foram substituídas por gramados paisagísticos. Os rios e canais estão repletos de barcos de passeio e pedalinhos em forma de cisne.

O Estádio Olímpico passou a ser usado pelo West Ham United. O espaço também recebeu competições de atletismo e shows de nomes como Foo Fighters e Beyoncé.

A obra de Anish Kapoor, a vermelha ArcelorMittal Orbit, que se projeta no céu, recebeu um escorregador. Os visitantes podem mergulhar por um trilho prateado retorcido em torno da escultura.

A Agência Britânica de Conduta Financeira e a Unicef estão entre as organizações que se instalaram na parte comercial do parque, que conduz a um imenso shopping center. O antigo centro de mídia se tornou agora uma central de tecnologia.

Em outros lugares, são comuns os exemplos de arenas esportivas que caíram no desuso. Reportagens de Pequim mostram arenas em mau estado de conservação 10 anos após os Jogos Olímpicos de 2008. As arenas olímpicas do Rio de Janeiro tinham sinais de abandono seis meses após a realização dos jogos. Russos e brasileiros questionaram as vantagens de ser o país anfitrião da Copa do Mundo.

Outras cidades estão adotando mais cautela. Tóquio abriu mão de um projeto de Zaha Hadid para o estádio da Olimpíada de 2020 depois de avaliar que o custo seria alto demais. Em Londres, segundo Jeff Keas, que trabalhava no escritório de arquitetura Games for Populous, a solução foi construir menos.

"Aquilo que não formos usar permanentemente deve ser construído temporariamente", disse ele. A arena de basquete foi vendida pouco depois dos jogos. As partidas de vôlei de praia foram realizadas numa arena temporária em Horse Guards Parade.

Paris, que sediará a Olimpíada de 2024, está aprendendo as lições de Londres e construindo apenas três estruturas permanentes. A piscina será temporária, liberando recursos para a construção de piscinas comunitárias permanentes numa parte da cidade que carece de instalações esportivas.

Em Londres, a administração do parque ainda precisa trabalhar no sentido de atrair mais visitantes, especialmente nos meses mais frios.

Ainda assim, muitos moradores se perguntam se observarão uma valorização semelhante à das torres que marcam o horizonte ao seu redor. O preço dos imóveis nas áreas vizinhas ao Parque Olímpico aumentaram cerca de 64% nos cinco anos posteriores à realização dos jogos. A Assembleia Municipal de Londres criticou a construtora por causa da lentidão na construção de imóveis mais acessíveis.

De acordo com a ativista Saskia O'Hara, que faz campanha por mais habitação acessível, para muitos, a promessa de prosperidade não foi cumprida.

"Ainda somos uma das regiões com maior número de sem-teto de Londres", disse Saskia. "A Olimpíada promove uma rápida gentrificação da área, mas, para a classe trabalhadora, isso equivale a uma expulsão".

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