Brett Kuxhausen/Gorongosa Media via Associated Press
Brett Kuxhausen/Gorongosa Media via Associated Press

Parque se transforma em laboratório para renovação da natureza

No Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique, cientistas estão respondendo questões fundamentais sobre ecologia e evolução

Natalie Angier, The New York Times

04 Agosto 2018 | 11h00

PARQUE NACIONAL GORONGOSA, MOÇAMBIQUE - O Parque Nacional Gorongosa está longe de ser uma das maiores reservas naturais e de caça da África. O Parque Nacional Kruger, na África do Sul, é cinco vezes maior. Gorongosa não é nem mesmo o maior parque de Moçambique.

Mas Gorongosa se destaca entre outros destinos do tipo como laboratório vivo, um experimento que revela como a natureza se recupera do equivalente a uma grande hemorragia, indicando quais partes podem se regenerar sozinhas e quais precisam de transfusões de sangue novo.

Gorongosa atraiu cientistas do mundo inteiro em busca de uma oportunidade de observar em tempo real questões fundamentais a respeito da ecologia, evolução, ascensão e queda das espécies e sua distribuição, e as mudanças naquilo que os pesquisadores chamam de paisagem do medo.

Gorongosa é, ao mesmo tempo, mais e menos “natural” do que outras reservas de caça. “Não há cercas em torno de Gorongosa, e é assim que os parques deveriam ser", disse Test Malunga, guia de campo do parque.

Ao mesmo tempo, com a bênção do governo de Moçambique, a administração do parque decidiu “incentivar e promover ativamente a ciência", disse o ecologista Robert Pringle, da Universidade de Princeton, um dos integrantes do conselho diretor do Projeto Gorongosa.

Como resultado, os pesquisadores não ficam confinados a simples estudos de observação da vida selvagem. Eles podem manipular as condições para limitar a movimentação dos animais e suas opções de alimento. Podem usar dardos tranquilizantes para coletar amostras de sangue, medir seus sinais vitais e vestir-lhes coleiras equipadas com GPS.

Muitos parques restringem essas atividades, disse o Dr. Pringle, “mas, sem elas, não podemos estabelecer uma estratégia de gestão com base científica nem responder de maneira definitiva perguntas importantes que estão na vanguarda do conhecimento ecológico”.

Além disso, Gorongosa tem a sorte de contar com um padrinho rico.

Desde 2004, Gregory C. Carr, que ganhou uma fortuna com as telecomunicações antes de se dedicar integralmente a projetos filantrópicos e à defesa dos direitos humanos, gastou dezenas de milhões de dólares com o parque e os 3,3 mil quilômetros de zona tampão que o cercam, onde podem ser encontradas algumas das comunidades mais pobres de Moçambique - e do mundo.

A fundação dele e vários outros doadores investiram nas escolas locais, clínicas móveis, plantações de café sustentáveis, clubes para meninas, e num programa de mestrado em biologia da preservação voltado para estudantes moçambicanos. A sala de aula é Gorongosa.

Com altitudes que vão do nível do mar até 1,8 mil metros, no alto do Monte Gorongosa, o parque é uma mistura de “quase todos os habitats concebíveis", disse Piotr Naskrecki, um dos diretores de pesquisas do Gorongosa: florestas alpinas, prados, savana e mata, planícies de gramados, cerrado e até um pouco de floresta tropical.

Nos anos 1980, teve início uma guerra civil, e o governo e as forças rebeldes transformaram Gorongosa num campo de batalha e abatedouro improvisado.

Elefantes eram mortos por causa do seu marfim. Pacalas, zibelinas, gnus, zebras e outros herbívoros de grande porte eram caçados, seja por causa da carne ou pelo esporte. Leões e leopardos foram mortos por estarem no caminho, e muitos animais simplesmente morreram de fome.

Quando o conflito chegou ao fim, em meados dos anos 1990, a população de grandes animais do parque tinha sido reduzida em 95%. A infraestrutura do parque tinha sido destruída. Somente as cerca de 500 espécies de aves sobreviveram relativamente intactas.

Carr propôs ao governo moçambicano uma parceria público-privada para acelerar a recuperação de Gorongosa e injetar dinheiro na economia local.

A equipe começou a restauração pelos herbívoros maiores, importando 200 búfalos e 200 gnus da África do Sul. Conforme os animais começaram a consumir os gramados, as espécies menores de antílopes conseguiram chegar ao parque.

As opções cada vez mais variadas de presas logo ajudaram a aumentar o número de leões, mas, sozinhos, os leões não conseguiam dar conta da oferta de herbívoros e onívoros. Os leopardos não tinham voltado. Como resultado, os babuínos, uma das presas favoritas dos leopardos, estão devorando tudo que encontram e avançando sem medo.

“Não há nenhum outro lugar da África onde podemos ver babuínos andando pelo chão à noite ou dormindo no chão", disse o Dr. Pringle. “Mas, aqui, eles vivem assim.”

As tentativas de importar leopardos de outras partes da África revelaram desafios legislativos e, por isso, os pesquisadores comemoraram quando um leopardo apareceu em março e, quando veio o verão, permaneceu no parque.

Os cientistas reconheceram que cometeram alguns erros. “Tentamos introduzir a onça no parque", disse o Dr. Naskrecki, “mas aprendemos que o ambiente aqui não é adequado para elas". Os cachorros selvagens africanos, sujeitos a menos restrições, foram reintroduzidos; outra matilha será trazida no ano que vem. A população de elefantes se recuperou, mas a de zebras, não.

“Gorongosa não é um vaso de cerâmica da dinastia Ming em processo de restauro", disse o Dr. Pringle. “Trata-se de um ecossistema dinâmico em recuperação.”

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